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Com Rodrigo Campos, Romulo Froes e Thiago França o samba é cinzento e sensacional

 

 

 

Rodrigo Campos, Romulo Froes e Thiago França – 03 na Ribanceira
34′, 9 faixas
(YB Music)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

No fim de 2024, as listas de melhores discos e melhores canções nacionais da Célula Pop já estavam praticamente fechadas quando chegou aos nossos ouvidos “Elefante”, álbum de Rodrigo Campos e Romulo Froes. Diante da beleza desconcertante desse trabalho, ambas as listas foram refeitas. Agora, dois anos depois, Romulo e Rodrigo, mais Thiago França, multimúsico que participa do Metá Metá e de vários outros projetos, se juntam para mais um exercício desse samba existencial: “03 na Ribanceira”, um trabalho em que o tradicional ritmo, que o senso comum sempre vê associado à felicidade do desfile das escolas de samba ou a animadíssimas celebrações coletivas, é desterritorializado desse buchicho e levado para uma de suas origens: o relato do homem comum, que vive, existe e tenta sobreviver ao mundo, adaptar-se às suas demandas e caprichos, nem sempre conseguindo. Há muito de Chico Buarque, Jards Macalé, Aldir Blanc, Paulinho de Viola e outros artistas que imprimiram essas sutilezas e danações ao longo do tempo. É um samba torto, sério, mas que abre os braços para acolher imediatamente quem não está exatamente feliz. É como encontrar um camarada de muitas batalhas depois de muito tempo e perceber que ainda resta bastante coisa em comum com ele. “03 Na Ribanceira” é um disco de sensações. Vejamos.

 

O disco surgiu como um experimento de improvisações. Rodrigo, Romulo e Thiago são integrantes dessa “vanguarda paulistana” que orbita o que há de mais esclarecido e alternativo na música dita popular brasileira atual. Como uma espécie de plataforma de despertar da criatividade dessa galera, há um evento bacana, que ocorre no Teatro Centro da Terra, no Sumaré, em São Paulo. Ali, o jornalista Alexandre Matias, do Trabalho Sujo, escala bandas e artistas para levarem ao palco o processo criativo que executam na hora de conceber um álbum. Os três estiveram presentes em abril de 2024 e iniciaram ali a trajetória de parcerias e improvisações que resultaram em “03 Na Ribanceira”. Além dessa estética extremamente criativa e própria, o que há de bacana no álbum é a exposição dessa linguagem erudita do samba a elementos que entram em choque com a concepção banalizada do estilo. Por exemplo – as guitarras distorçidas e o saxofone jazzístico que habitam “Chapéu Lilás”, oferecem um novo mundo de possibilidades e levam o ouvinte a imaginar várias paisagens para suportar a beleza da melodia, que orbita um lugar de tristeza daquelas que a gente gosta de sentir.

 

Quando digo que este é um disco de sensações, não se trata de exagero. O que as nove faixas presentes aqui proporcionam é uma imersão imediata no que está sendo dito/tocado/cantado. Os vocais de Romulo e Rodrigo são imprecisos na medida certa, conferem essa humanidade que o estilo pede, que as canções demandam, fazendo tudo soar como verdade indiscutível. Quando surge a majestosa “O Nosso Jogo de Azar”, o balanço percussivo e o belíssimo cavaquinho emolduram uma narrativa de amor pervertida pelo acaso e pelo cotidiano, com uma ambientação em que o caos vai tomando: “Não me importa ser feliz // Sem querer o que se quer”. Há alguma coisa de “Deus Lhe Pague” na dinâmica como a melodia vai se posicionando, mas o arranjo e a pegada da canção a levam para outro lugar. O uso dos instrumentos de sopro – a cargo de Thiago – dá uma dimensão diferente a muitas canções. Em “Corpo e Capim”, o saxofone pontua a melodia, sola, atravessa, vai e vem, num efeito que amplia bastante o alcance da canção.

 

Se esse samba “moderno” ou “alternativo” dá a tônica do álbum, em alguns momentos, ele é temperado por tons mais tradicionais. Em “Mora na Memória”, a narrativa totalmente existencial e atormentada pela constatação da passagem inclemente do tempo é emoldurada por um arranjo em que cavaquinho e percussão se misturam com muita harmonia. Outro bom exemplo é “Bodiado”, ainda que sua ambiência sonora seja bem mais soturna e melancólica, com um surdo marcando marcialmente o ritmo e os outros instrumentos construindo uma paisagem, o tom é de samba clássico, setentista, obscuro, da conexão Macalé/Buarque, com uma letra que fala em “quem muda, muda pra pior, como quem cai outra vez”. Após o instrumental tradicional – mas nem tanto – de “Mamoso”, chega o fim do álbum, com “Um Rio Sem Rio”, que traz a voz de Veronica Ferriani que chega para dar um tom ainda mais lírico à narrativa sobre a repetição mecânica do passar dos dias, num processo irrefreável (“não tem mais calor, nem recordação, nem fala pra decorar”), novamente com a constatação de que o fim pode chegar a qualquer momento, bem antes das coisas, de fato, terminarem. É sutil e extremamente cru e verdadeiro, uma forma de perplexidade parece querer se aninhar no colo de quem a sente.

 

“03 Na Ribanceira” está bem longe de ser um disco “feliz” ou mesmo fácil de ouvir. É um artefato cinzento, mas que tem a seu favor a inevitável sinceridade das palavras, dos arranjos, dos artistas que o fizeram. É momento raro de coração exposto. Doa a quem doer. Bravo.

 

Ouça primeiro: “Saída”, “Bodiado”, “O Nosso Jogo de Azar”, “Um Rio Sem Rio”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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