Funarte x Beatles

 

Sabemos que o atual governo brasileiro é um desfile de maldade e falta de noção. Temos vários casos de pessoas impressionantes – no mau sentido – que ocupam cargos em ministérios e secretarias, com o firme propósito de atacar instâncias e objetos que deveriam ser defendidos e abordados com cuidado e zelo. Parece que são pessoas escolhidas tendo em vista a existência de uma relação diametralmente oposta em termos de sabedoria e condições de exercício pleno de sua função. O mais novo integrante deste time é dante mantovani, que preside a Funarte a partir de hoje. Ou seria Burrarte?

 

Ele é maestro e tem formação acadêmica na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná. Usufruiu de bolsas acadêmicas durante seus estudos, feitos e concluídos durante os governos petistas. É um desses “intelectuais” conservadores, totalmente religiosos, com uma “visão crítica” em relação ao avanço da sociedade ocidental. Como pesquisador no campo da História, é fácil perceber como estas pessoas lutam para preservar o mundo de uma “contaminação” social, que vai de encontro aos costumes dos séculos passados. Segundo eles, tudo o que foi conquistado em termos de artes, saber, conhecimento e os próprios eventos históricos comprobatórios deste avanço é fruto de conspiração comunista/soviética, com o objetivo de destruir a sociedade ocidental.

 

mantovani surgiu no noticiário de hoje com falas sobre o rock ser satanista, os Beatles serem comunistas e mais dessa conversa mole descerebrada e anti-conhecimento. Segundo ele – e outros – os quatro rapazes de Liverpool faziam parte de uma estratégia comunista de erosão da sociedade ocidental, com o auxílio de altos funcionários da KGB infiltrados na indústria fonográfica americana da época. Sim, eu assisti um de seus vídeos. Ele tem um canal no Youtube e um site no qual vende cursos de teoria musical, com alguns salpicos de temas como “Música e Antropologia” ou “Música e Marxismo”. Uma olhada rápida no Currículo Lattes do sujeito mostra que ele não tem qualquer especialização para falar sobre temas tão profundos.

 

Esse pessoal ataca qualquer manifestação de emancipação da juventude como uma rebelião de costumes, insuflada contra o capitalismo. Sendo assim, qualquer teórico que detecte em sua obra as falhas estruturais do sistema, seja no campo econômico, social ou cultural, é chamado de “marxista” e se transforma num potencial agente soviético. Assim ocorre frequentemente com a Escola de Frankfurt, movimento alemão dos anos 1930, cujos maiores representantes foram Theodor Adorno, Jurgen Habermas e Max Horkheimer, todos assumidamente marxistas, mas inseridos num território completamente distinto do que gente como mantovani diz entender. Mas, bem, nem vou me dar ao trabalho de discorrer sobre isso aqui.

 

É importante, porém, ter em mente um simples fato. Gente como mantovani, o atual ocupante da Secretaria Especial de Cultura, ricardo alvim e o mentor intelectual deles, olavo de carvalho, têm um ponto em comum: o extremo conservadorismo. Quando falamos nisso, estamos querendo dizer que estas pessoas são contrárias ao avanço natural do mundo e das sociedades. A tendência mundial, via mídia e aumento populacional, bem como pela tecnologia/ciência, é a especialização e a fragmentação, que atingem em cheio o sistema de ensino e de transmissão do conhecimento formal. É fácil para eles serem ouvidos por uma multidão desassistida de classe média, que busca entender o que acontece no mundo. Fica fácil engendrar teorias da conspiração baseadas em achismos, sem comprovação científica mínima, sem preocupação em referendar opiniões e fazer conexões básicas para que sejam tiradas conclusões dignas de respeito.

 

Junte a isso o ressentimento em potencial que as pessoas carregam em relação ao próximo e você terá gente atacando o aborto, o rock, a música, a diversão como meio de impedir de outros desfrutem de algo que esta pessoa não conseguiu desfrutar no passado. Ou no presente. É tudo um grande emaranhado de mediocridade e ressentimento.

 

Geralmente, a sociedade se encarrega de colocar estas pessoas em lugares sem qualquer projeção, mas, o atual governo do Brasil parece feito por e para gente assim. Desta forma, precisamos defender a nossa visão do mundo, da arte, da ciência e das diferenças entre as pessoas como um bem precioso, evidência de que percebemos o mundo em movimento. Essa gente quer fazer o planeta retroceder e pará-lo lá. Não podemos deixar.

 

 

Sobre o rock: significou o primeiro estilo musical voltado para a juventude. Ultrapassou as fronteiras musicais e chegou ao campo das atitudes e do comportamento, originando uma mudança nos jovens americanos dos anos 1950, que logo se espalhou para vários pontos do planeta. Com ele a juventude clamava por atenção, consumo, postura e afirmava seu papel no mundo, provocando mudanças e interferindo na ordem social. Foi o rock que impulsionou e participou de grandes mudanças como a pílula anticoncepcional, a luta contra a Guerra do Vietnã, a luta pelos direitos humanos, além de ser o porta-voz de uma nascente intelectualidade global.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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