Four Tet – Sixteen Oceans

 

 

Gênero: Eletrônico

Duração: 54 min.
Faixas: 16
Produção: Kieran Hebden
Gravadora: Temporary Residence

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Four Tet, também conhecido como Kieran Hebden, é um dos mais talentosos produtores/artistas da música eletrônica atual. E ele já ocupa este seleto grupo já há um bom tempo. Sua estética contraria o estardalhaço atual que o senso comum acha que comporta os timbres e tons sintéticos. Ou seja: música eletrônica = esporro, gente pulando como se estivesse na academia de ginástica e DJs usando pendrives inspiracionais. Four Tet é o oposto disso. É música exuberante, ampla, de espaço aberto, elemental, mas sem o barulhão terrível. Suas batidas e programações são finas, angulosas, rápidas ou lentas, elas vão te levar para caminhos inesperados. Este “Sixteen Oceans” é sua mais nova declaração estética.

 

Tem sido um tempo fértil para Kevin. Em cinco anos este é seu terceiro disco, incluindo aí o ótimo EP de 2015, “Morning/Evening” e o antecessor deste novo trabalho, “New Energy”, de 2017, que, se era mais introspectivo, também era mais “familiar” para ouvintes não iniciados. Aqui Four Tet retoma a direção de sua mais habitual musicalidade, herdada da IDM do início do século, temperando batidas com camadas de efeitos e teclados que poderiam ser da ambient music na maior parte do tempo, mas nunca deixando contaminar-se pelo tom mais plácido. É uma música estranhamente dançante, pulante, mas, como já dissemos, feita para ser curtida em espaço amplo de forma individual. É, sobretudo, trilha sonora para fones de ouvido enquanto vemos cidades, campos, imagens que vêm e vão.

 

Há alguns momentos dourados por aqui. A abertura do álbum, “School”, é uma belíssima canção em que os timbres e tons se alternam sobre uma batida estilingada e endiabrada, mas depurada ao máximo, deixando a música reduzida a seu essencial. A composição rítmica da faixa é elaboradíssima e os sintetizadores/teclados pairam sobre o solo que se move. “Teenage Birdsong” é uma canção mais linear e dançante, no sentido simples dos termos, com linha melódica feita nos teclados imitando flautas, adicionados por samples fofos e simpáticos, enquanto a construção da própria canção vai criando climas oníricos e familiares.

 

“Love Salad”, a mais colossal criação do álbum, é um épico de sete minutos e pouco, que evoluiu do silêncio ambiental para uma batida linear que parece surgir de dentro da Terra ou de dentro de uma árvore, evoluindo sem parar, enquanto vai inserindo mais timbres, teclados, blips, toins e blops aleatórios, que culminam em falsos finais de tempos em tempos, usando engenhosamente o crescendo e as progressões rítmicas. Trabalho de mestre, de gênio. E “Insect Near Piha Beach” é outra lindeza, que alterna batidas mais pesadas com percussões que vêm de todos os lados, abrindo espaço para teclados, flautas e cítaras brincarem de esconde-esconde dentro do ouvido do freguês. “Something In The Sadness” já resgata com muita sutileza algum timbre oitentista perdido no inconsciente coletivo. Ou não. O fecho com a genial “Mama Teach Sanskrit” é quase uma faixa ritualística, que deve fazer bonito numa meditação matinal.

 

“Sixteen Oceans” é uma pequena pérola musical, frágil porém resistente, belo e esférico, capaz de causar comoção, emoção, beleza e acolhimento, tudo num espaço inferior a uma hora. Não perca.

 

Ouça primeiro: “Love Salad”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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