Estudo inédito mapeia cenário independente no Brasil

 

 

A primeira edição da Pesquisa do Mercado Brasileiro da Música Independente, realizada pela Associação Brasileira da Música Independente (ABMI) e divulgada recentemente, reforça a impressão de que o segmento indie de música no Brasil está em franco desenvolvimento e cheio de oportunidades.

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De acordo com a pesquisa, artistas independentes emplacaram mais da metade dos hits que atingiram o Top 200 do Spotify Brasil no ano passado, representando 53,52% do total de acordo com as informações coletadas. Em 2019, as receitas vindas dos formatos de consumo digital de música representaram 50% do total gerado no setor. As vendas de produtos físicos corresponderam a 15% do total, seguida das receitas vindas dos shows.

 

O caminho do bem*

 

Os dados são animadores tanto para artistas que já estão no mercado quanto para aqueles que querem começar uma carreira. As diversas alternativas de produção no melhor estilo home office, somadas ao avanço dos serviços de streaming, ao surgimento de novos negócios e players no mercado, ao conhecimento à disposição na internet e às alternativas de cursos para vários segmentos possibilitam ao artista saber o que quer com sua criação, e a partir daí trabalhar de forma continuada para alcançar o objetivo – no caso, o sucesso.

 

Obviamente, a inspiração e a qualidade da obra continuam sendo essencial para esse sucesso, mas saber trabalhar em diferentes frentes tornou-se um diferencial. “Os independentes estão ganhando cada vez mais espaço e entram na disputa pelo topo das paradas de sucesso. A democratização proporcionada pelas plataformas digitais de áudio tem sido muito benéfica para produtores e artistas independentes”, afirma Carlos Mills, Presidente da ABMI.

 

Brasil pandeiro

A pesquisa mostra que a região Sudeste concentra a grande maioria dos agentes do mercado da música gravada, representeando 82% do total das empresas do setor. Chamam a atenção também na pesquisa as empresas que não possuem sede fixa, representando 10% do total. São agentes que se beneficiaram de tecnologias como as de trabalho remoto e armazenamento na nuvem para obter economia de custos operacionais. O Centro Oeste contribui com 5%, a região Sul com 2%, e o Nordeste só com 1%.

 

 

Casa de bamba

O levantamento da ABMI revela também que mais da metade das empresas do setor possui até dez anos de atividades, ou seja, surgiram quando os formatos digitais de produção, distribuição e consumo digital já estavam difundidos. As barreiras a novos entrantes caíram: ficou mais fácil gravar, distribuir e lançar uma música por conta das tecnologias digitais de produção, distribuição e consumo. Por isso, percebeu-se um número crescente de pessoas ingressando no meio artístico, e de empresas buscando gerar negócio.

 

Porém, um dado preocupante da Pesquisa do Mercado Brasileiro da Música Independente é que 53% das empresas do setor não possuem funcionários trabalhando em regime CLT; 15% possuem entre um a três funcionários, 12% de quatro a oito funcionários, 14% entre nova a quinze, 3% de dezesseis a trinta e 3% possuem mais de trinta pessoas trabalhando sob esse regime. Esses dados demonstram o alto índice de informalidade percebido no setor.

 

Dona de mim

Outro dado que incomoda é que o mercado brasileiro de música gravada apresenta uma predominância masculina exercendo as funções – aproximadamente 42% das empresas possuem somente homens em seus quadros. As mulheres exercem principalmente funções de marketing, produção e financeiro. A maioria das empresas é composta por ou é de propriedade apenas de homens. Os números se referem a mulheres e homens cis.

 

De acordo com os dados fornecidos à pesquisa, as mulheres estão nas seguintes áreas: Marketing; Produção; Financeiro; Comercial; Assessoria de Imprensa; Administrativo; Conteúdo (redes sociais). Também atuam nas áreas de Royalties, Direção/Gestão de operação, Comunicação, Gerente de projeto RH Atendimento CS Jurídico e Country Manager.

 

Mim quer tocar

O total de faturamento estimado das empresas em 2019 foi de mais de R$140 milhões; já as gravadoras somadas tiveram um faturamento anual ano passado acima de R$23 milhões. As distribuidoras somaram mais de R$ 116 milhões, e os agentes que executam diferentes atividades R$360 mil, no mesmo período – 35% dos agentes do mercado faturaram até cinquenta mil reais. Por fim, 85% da receita é oriunda do território brasileiro. Foram pouco menos de 380 mil faixas lançadas pelas gravadoras e distribuidoras. Só em 2019, o lançamento aproximado foi de mais de 56 mil faixas.

 

O dia em que a Terra parou

Para as distribuidoras, a pandemia de Covid-19 gerou aumento de receita em virtude do crescimento do consumo dos serviços de streaming e da procura de artistas para distribuição de fonogramas. Elas perceberam que os artistas passaram a se informar mais sobre as receitas oriundas desses serviços. Os artistas autoproduzidos são os mais vulneráveis desta cadeia produtiva e, consequentemente, foram os mais afetados pelos impactos da pandemia. As lives passaram a ser uma alternativa de geração de receita e os formatos colaborativos de produção digital popularizaram-se entre esses agentes. A interrupção dos shows nesse período cortou a principal fonte de renda de grande parte desses agentes e, consequentemente, alguns tiveram de buscar outras fontes de sustento.

 

Da maior importância

Para humanizar tantos números, fomos bater um papo com Leo Morel, coordenador da pesquisa e docente do MBA em Bens Culturais da Fundação Getúlio Vargas-Rio, autor dos livros “Música e tecnologia” (Azougue, 2010) e “Monobloco: uma biografia” (Azougue, 2015).

 

Morel é também A&R da Tratore, analista do mercado latino-americano para a empresa inglesa Midia Research e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Direito, Arte e Cultura (NEDAC-UFRJ). Ainda é músico profissional e, além de tudo, um amigo. Abaixo, a entrevista, uma verdadeira aula para quem quer se lançar ao… Sucesso!

 

 

 CC – Em linhas gerais, o estudo mostra que o caminho para a música é independente e irreversível?

LM – Só vamos ter uma noção maior a partir das próximas edições, quando poderemos fazer um comparativo e checar se os números cresceram ou não. O que podemos dizer é que o mercado independente está em franca expansão, por conta de alguns fatores. Um deles é a barreira novos entrantes, que caiu: hoje em dia, com a difusão das tecnologias digitais, está muito mais fácil para gravar e distribuir uma música do que no passado, quando era necessário uma gravadora e gravar era caro e restrito. Percebemos cada vez mais pessoas se inserindo nesse meio, conseguindo gravar suas músicas – em um home studio por exemplo- e distribuir nas plataformas de streaming. Por isso, é um setor em franca expansão.

 

CC – Como você encarou o desafio de liderar o trabalho para uma pesquisa inédita? E, em cima do que você falou, obviamente existe a previsão de periodicidade para novas edições do estudo…

LM – Senti-me muito honrado em receber o desafio de elaborar a primeira edição do estudo, e ao mesmo tempo apreensivo, porque se trata de um setor bastante abrangente, complexo e heterogêneo. Estamos falando do Brasil, um país de dimensões continentais, com uma diversidade musical gigantesca… Então senti felicidade junto com um frio na barriga! Mas já tenho experiência em elaboração de relatórios de pesquisas voltadas para o mercado da música, desde 2014 faço esse tipo de trabalho para uma empresa inglesa chamada Mídia Research. A expectativa da ABMI é fazer a pesquisa anual, para podermos criar uma série histórica. A primeira edição acaba sendo uma fotografia do momento.

 

CC – Apesar de contar com dados do ano passado, a pesquisa conseguiu coletar informações sobre o cenário durante a pandemia. Comente um pouco: mesmo com tanta adversidade, o mercado está otimista, certo?

LM – O estudo foca no período pré-pandemia, para coletar informações e características do mercado antes dos impactos desse cenário que, enfim, pegou todo mundo né? Não teve escapatória, mas também seria um erro não abordar esse tema. Foi um momento bom para as gravadoras repensarem seus modelos de negócios, para analisarem possibilidade de novas estratégias, tendo em vista novos formatos de consumo que ganharam bastante força, como as lives. Já as distribuidoras apresentaram um aumento de artistas e bandas, que aproveitaram as tecnologias remotas de produção e passaram a produzir bastante, até por uma questão ocupacional mesmo. Na outra ponta da cadeia produtiva constatamos o aumento dos serviços de streaming de música, de vídeo… As pessoas em casa passaram a consumir mais esse tipo de entretenimento.

Sobre o otimismo, percebemos que 89% dos agentes do mercado estão otimistas em relação ao futuro, mesmo no momento de pandemia existe essa percepção positiva do futuro, por conta da maior difusão dos serviços de streaming e do consequente aumento do consumo. Apesar de tudo que estamos vivendo, a grande maioria dos agentes está bem otimista.

 

CC – Fale um pouco do perfil do artista independente de hoje.  Como ele deve se preparar para entrar em um mercado relativamente novo e praticamente todo digital? Quais conhecimentos deve dominar? Ele já deve chegar pronto a uma gravadora quanto ao conceito do trabalho e áreas como marketing e produção da própria música?

LM – O artista ganhou autonomia. Ficou muito mais fácil gravar distribuir, as opções são inúmeras, e cabe a ele o papel de decidir como quer distribuir seu trabalho e construir a própria carreira. Acho que ele dever ter o conhecimento básico para saber o que é uma obra musical, um fonograma, um IRSC (Nota do colunista: o ISRC — abreviação de International Standard Recording Code, ou Código de Gravação Padrão Internacional — é um padrão de código para identificar de forma única gravações sonoras e de vídeo). Além disso, o artista deve buscar formalizar a filiação junto a alguma das associações arrecadadoras e cada vez mais se capacitar. Claro que é indispensável compor, mas é bom ter uma noção, mesmo que básica, do mercado, da cadeia produtiva, de onde vêm seus pagamentos, e hoje existem conteúdos abertos na internet e cursos sobre o assunto.

 

CC – Assim como em outros setores da economia brasileira, a pesquisa mostrou que o empreendedorismo na música cresceu, apesar da informalidade. Você entende esse cenário como positivo? Por qual razão?

LM – Sim, com a difusão das tecnologias digitais percebemos um aumento de pessoas físicas querendo entrar no segmento, e também a inserção de agentes de mercado que não existiam antes. Vejo esse aumento tanto de novos artistas como novos agentes como um resultado potencial que a economia digital traz em termos de geração de negócios e de receita. Já a questão da informalidade é preocupante, por um lado muitos músicos ainda não são filiados a entidades arrecadadoras e não emitem ISRC, muitas empresas trabalham com freelancers…Torcemos obviamente que o marcado se torne cada vez mais formal, e os artistas estejam mais inseridos no modelo de negócio. Queremos um mercado cada vez mais capacitado e desenvolvido.

 

CC – A competição entre gravadoras e distribuidoras tende a torná-las cada vez mais capazes de oferecer novas soluções para os artistas?

A gente tem um volume crescente de pessoas se inserindo nesse meio, e com autonomia. O desafio das gravadoras e distribuidoras é atrair esse artista, esse cliente, e agregar valor à carreira dele. Hoje o artista pode produzir de casa e desenvolver sua carreira de forma independente. As gravadoras precisam continuar atraindo esses artistas, e as distribuidoras, como a competição acirrada de hoje, precisam oferecer produtos e serviços para se destacarem e atraírem o interesse desses novos clientes.

 

CC – No centro de tudo, está o consumidor de música, que tem à sua disposição uma variedade grande de serviços e produtos. De modo geral, o que espera esse consumidor de hoje?

LM – O consumidor final também ganhou bastante autonomia. Existe uma grande diversidade de serviços disponíveis de entretenimento, de vídeo, música, leitura, e esses serviços acabaram sendo quase que a única opção. E esse consumidor está cada vez mais complexo, os canais que antigamente eram os formadores de opinião hoje em dia são substituídos pela dica ou experiência de um amigo, do colega do trabalho, de parentes, que indicam uma série de TV, uma música, um livro para ler. Antigamente, você sabe melhor que eu, os cadernos de cultura dos jornais detinham esse papel. E é importante que os artistas enxerguem seus trabalhos dentro de todos os processos, desde a composição até a produção, a pós-produção, a divulgação… A imagem do artista também é cada vez mais importante. A música nunca esteve tão ligada ao vídeo, ao audiovisual, daí percebermos o sucesso do YouTube. Já as redes sociais, além de constituírem um excelente canal de conexão direta com o público, também são plataformas para o artista divulgar sua imagem, o seu conceito estético… Se um artista realmente almeja se inserir no mercado, desenvolver uma carreira e viver disso é muito importante ter uma visão 360 graus e pensar sempre em processos, pelos quais ele vai construindo sua audiência, mantendo-a aquecida, fidelizada.

 

CC – Fale um pouco de sua experiência como A&R (Artists and Repertoire, em português Artistas e Repertório, divisão de gravadoras e distribuidoras responsável por pesquisar e desenvolver talentos) da Tratore…

Comecei recentemente, e está sendo uma experiência incrível! A Tratore é uma empresa renomada, está no mercado há cerca de 20 anos, com uma equipe muito capacitada, realmente apaixonada por música, e meu trabalho é ser o link entre a gravadora e o meio artístico: estou em contato direto com artistas e selos, ajudo a organizar seus lançamentos, a pensar no futuro. É uma tarefa que me dá muito prazer, já me vejo colhendo bons resultados, trazendo para casa artistas de pequeno, médio e grande porte. Contribuir para desenvolver carreiras musicais é o que gosto de fazer.

 

CC – Mas você também é músico e pesquisador! Onde se misturam o artista Leo Morel com o estudioso e o executivo?

Costumo dizer que eu jogo nas 11 né (risos)? Mas me vejo como resultado de três frentes: como músico, baterista, que toca no Monobloco, Quizomba, Reverse, …e mais dez territórios à sua escolha, que dá aula de música, o que me traz um oxigênio, um know-how, uma expertise ali na ponta, na linha de frente; tenho uma atuação acadêmica, com produção de pesquisas e livros publicados, uma parte mais reflexiva e analítica; e tenho a atividade mercadológica, do dia a dia. Essas três frentes contribuem bastante para me dar uma visão geral e ampla do setor.

 

CC – Um recado para novos artistas, que estão começando em meio a tantas mudanças?

Principalmente: informem-se, conhecimento é importantíssimo, pensem em suas carreiras como um processo, algo que vai sendo construído. É como pensar em subir uma escada: ir construindo uma audiência, um repertório. É importante estar afiliado a uma associação arrecadadora, entender a cadeia produtiva, mensurar seus objetivos. Entre uma pessoa que vive exclusivamente de seu trabalho autoral e outra que toca um violão no seu quarto existem diversos perfis. É uma análise individual e pessoal, uma reflexão para identificar o que se pretende. Planejamento, gerenciamento, conhecer as opções de mercado para distribuição de músicas, entender os pagamentos e plataformas. Isso é o que vai fazer a diferença no desenvolvimento de uma carreira conectada com a realidade de agora.

 

*Neste conteúdo, fizemos uma brincadeira com os subtítulos do texto, citando nomes de músicas. Se você já tinha percebido ou desconfiou, segue a relação dos artistas de cada canção citada:

 

O caminho do bem – Tim Maia

Brasil pandeiro – Novos Baianos

Casa de bamba – Martinho da Vila

Dona de Mim – Iza

O dia em que a Terra parou – Raul Seixas

Da maior importância – Caetano Veloso

 

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Celso Chagas

Celso Chagas é jornalista, compositor, fundador e vocalista do bloco carioca Desliga da Justiça, onde encarna, ha dez anos, o Coringa. Cria de Madureira, subúrbio carioca, influenciado pelo rock e pela black music, foi desaguar na folia de rua. Fã de poesia concreta e literatura marginal, é autor do EP Coração Vermelho, disponível nas plataformas digitais.

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