Entrevistão Cornershop

 

[English Version below]

 

Cornershop sempre teve uma carreira prolífica. Vários discos lançados desde que começaram, no distante ano de 1995, com o álbum “Hold On It Hurts”.  Eles estouraram mundialmente com o hit “Brimful Of Asha” dois anos depois e, logo em seguida, sumiram da vista. Parece que este destino tornou o grupo liderado por Tjinder Singh um raro caso de banda totalmente consciente de seu papel dentro do cenário artístico e da própria sociedade. Há poucos dias, “England Is A Garden”, o nono trabalho do Cornershop, foi lançado e caiu como uma bomba nos ouvidos de quem esperava por um disco diverso, belíssimo, cheio de ótimas canções e com o subtexto que mostra a beleza na diversidade, no abraço às diferenças.

 

Por conta das redes sociais, fizemos contato com Tjinder Singh e ele, gentilmente, recebeu estas perguntas e as respondeu, nessa que deve ser a primeira entrevista do Cornershop para um veículo de informação brasileiro neste século. Talvez de todos os tempos. Ele fala sobre o novo álbum, sobre a carreira da banda, sobre a pandemia de covid-19 e como os países estão lidando com isso.

 

 

– Como você define a música do Cornershop? São muitas influências!

Não sabemos como defini-la. Mas começamos porque não estávamos muito empolgados com a falta de ambição que ouvíamos na maior parte do que ouvimos nossos colegas estavam fazendo. Como sempre fomos colecionadores de discos, existem sete vastos mares de influências dos quais podemos obter informações e vemos a política como uma coisa cotidiana, e não devemos nos afastar.

 

 

– O que torna “England Is A Garden” um álbum tão bonito e feliz?

Todos os nossos álbuns são bastante otimistas. Este último é muito otimista. Fizemos isso porque realmente vimos nossa carreira prestes a terminar, então nos esforçamos em dobro e fizemos de tudo para garantir que todas as músicas chegassem aos ouvintes, com uma visão de que não tínhamos nada a perder além de tempo. O fato de ter sido recebido como feliz e bonito significa que realmente compensou o tempo que levou. De fato, também levou a um ressurgimento de nossos álbuns anteriores, o que é uma grande coisa para nós, pois acreditamos que alguns foram negligenciados demais. O título, além de perguntar que tipo de Inglaterra queremos, também prevê um portão de jardim que se liga aos nossos álbuns e músicas passados, e agora à nossa longa e única história.

 

 

– Parece que há outra Inglaterra por trás das imagens mais comuns que vemos. Todas as tradições hindus, árabes e africanas da cultura contemporânea inglesa … Como a Cornershop lida com isso?

Sempre lidamos com culturas diferentes, combinando-as, assim como fazemos com nossas coleções de discos. Como não sou um músico treinado, é fácil juntar músicas diferentes, porque não sou retido pela matemática musical da teoria e mergulho em idéias diferentes com abandono. Também produzo nossas músicas, para que não tenhamos nenhuma interferência no que fazemos.

 

 

– Aqui no Brasil, a Cornershop ficou conhecida com “Brimful Of Asha”, do seu segundo álbum “When I Born For The Seventh Time”. Essa é sua música / álbum favorito até os dias de hoje? Se não, qual álbum vocês mais gostam?

Nós gostamos de “Brimful”, mas também gostamos de todas as nossas outras músicas. Como compositor, eu vejo todas como meus bebês, todas têm seu papel e idéias para dar em algum momento. Meu disco favorito pessoal é “Judy Sucks A Lemon For Breakfast”. Acho uma abordagem corajosa em muitos estilos de música, que se misturam com música e atitude para criar uma experiência auditiva mais completa. Por outro lado, também adoro o “Double O Groove Of”, com a participação de Bubbley Kaur, que muitos dizem ser alegre, mesmo que a maioria não possa entender a letra. Basicamente, eles são todos bebês, e estamos felizes o suficiente por ter tantos deles que nossos favoritos podem mudar, mas nossa visão geral nunca mudará.

 

– Em alguns momentos, este novo álbum soa muito próximo ao acid rock de 1988/89. É uma de suas influências?

Em 1989, eu estava em Manchester e havia muita coisa acontecendo, mas não diria que é uma influência. Como há tantas coisas acontecendo, tudo fica meio ácido se você quiser, ou psicodélico. Gostamos de ver o álbum como sendo todas as boas faixas das paradas britânicas de 1965 até o presente ano, colocadas em um álbum. Isso soa como um jardim.

 

 

– E o Covid-19 na Inglaterra? O que você está fazendo para conscientizar as pessoas sobre o que fazer nesses momentos?

Isso é simples. Estamos observando a França para ver as lições que aprenderam da China e da Itália e ignoramos o que o governo do Reino Unido já disse, que foi muito pouco e dito muito tarde. Nós twittamos sobre como nos sentimos contra o governo e a falta de oposição. Em uma visão mais ampla, a natureza está nos dizendo que não estamos trabalhando em sincronia com ela, e o desmatamento brasileiro não ajudou a cuidar dos pulmões do mundo.

 

– Aqui no Brasil temos Bolsonaro e vocês têm Boris Johnson e Brexit e todos esses políticos conservadores. Como a música pode nos ajudar a superar todos esses maus momentos?

A música sempre foi uma maneira de ajudar a todos nós em tempos difíceis e até em momentos mais felizes. O último álbum foi anunciado como uma ótima maneira de escapar dos problemas desses tempos de provação, o que é um grande elogio. Infelizmente, a música faz tudo sozinha. A ação também é necessária, e é por isso que sempre tentamos ser políticos com a nossa música. Ditadores como Bolsonaro e Johnson sempre estarão lá, e a música pode ser um veículo para responsabilizá-los, mas há pouca gente fazendo música por algum motivo que não seja ganhar dinheiro. Como nos tornamos cientes do Covid-19, estamos à mercê da mãe natureza, e que Deus nos abençoe enquanto ela sopra o inferno pra fora de nós.

 

 

– Com todos os planos de turnês cancelados, o que o Cornershop fará nesses dias de quarentena?

Paramos de fazer turnê há alguns anos. Nós excursionamos por um longo tempo, em nome da própria existência da banda, deixamos de viajar, passando a apenas gravar o discos no estúdio e isso não é muito comum. No momento, temos a nossa própria gravadora e ainda estamos correndo para atender pedidos em nosso site e entregar para nossos distribuidores. Já tivemos que reordenar CDs e na semana passada mais vinis de “England Is A Garden”. Isso leva nosso tempo em quarentena, além de cuidar de nossos filhos da vida real.

 

 

– Nós vamos superar isso? Se sim, seremos transformados de alguma forma?

Se sim, então não. Nós, como homem ou mulher coletiva, ou outros sexos intermediários, somos estúpidos demais para aprender de verdade e nunca tivemos que chegar perto da crise que agora enfrentamos num cenário mundial. O livro ‘Small is Beautiful’, de EF Schumacher, lançado em 1973.

 

OBS: o livro mencionado foi traduzido para o português com o título “O Negócio é ser Pequeno” e trata das questões econômicas tendo em vista as pessoas em vez da própria economia. Foi escrito durante a crise do petróleo e antecipou alguns conceitos de globalização.

 

 

 

 

English Version

 

Cornershop has always had a prolific career. Several records released since they started, in the distant year of 1995, with the album “Hold On It Hurts”. They were successful worldwide with the hit “Brimful Of Asha” two years later and, soon after, disappeared from view. It seems that this destination has become the group led by Tjinder Singh in a case of the band fully aware of their role within the artistic scene and society itself.

 

A few days ago, “England Is A Garden”, Cornershop’s new album, was released and fell like a bomb in the ears of those waiting for a diverse, beautiful album, full of great songs and with the subtext that shows beauty in diversity, in embracing the differences. Due to social networks, we contacted Tjinder Singh and he kindly received these questions and answered, which should be the first interview from Cornershop for a Brazilian information vehicle at this century. Perhaps in all times. He talks about the new album, about the band’s career, about the Covid-19 pandemic and how countries are dealing with it.

 

 

– How do you define the Cornershop music? There’s so many influences on it!

We don’t know how to define it. But we started because we were not too taken with the lack ambition that we heard in most of what we heard our peers playing. As we have always been record collectors there is a vast 7 seas of influence that we can get pointers from, and we see politics as an everyday thing, and should not be shyed away from.

 

– What makes “England Is A Garden” such a beautiful and happy album?

All our albums are rather upbeat. This last one is so upbeat as we put a lot into it. We did this because we really saw our career about to end, so doubled down on what it would take to ensure that every song hit with listeners, with a view that we had nothing to loose but time. That it has been received as happy and beautific has meant that we have actually more than made up for the time it took. In fact, it has also led to a resurgence in our previous albums, which is a great thing for us, as we believe some have been too overlooked. The title as well as asking what sort of England do we want, also envisages a garden gate that links to our past albums and songs, and our now long and unique story.

 

– Seems there’s another England behind the most common images we’ve seen. All of a variety of hindu and arab and african traditions into the english contemporary culture…How Cornershop deals with that?

We have always dealt with different cultures by amalgamating them, as much as we do with our record collections. As I am not a trained musician it is easy to put different music together, because I am not held back by the musical mathematics of theory, and plunge into different ideas with abandon. Also I produce our songs, so we don’t have any interference in what we do.

 

 

– Here in Brasil Cornershop became familiar to us with “Brimful Of Asha”, from your second album “When I Was Born For The Seventy Time”. Is that your favorite song/album til nowadays? If not, which album you guys like the most?

We like Brimful, but we also like all our other songs. As the writer I see them all as my babies, so as loving as it has been to nurture them, they all have their role and ideas to give at some stage. My personal favourite is Judy Sucks A Lemon For Breakfast. I find it a brave take on many styles of music, that blends together with music and attitude to make a most complete listening experience. Then again I also love the Double O Groove Of, with Bubbley Kaur, which many say keeps them very joyous, even though they can’t understand the lyrics. Basically, they are all babies, and we are happy enough to have so many of them that our favourites may change, but our overall outlook will never.

 

 

– This new album sounded much close to the acid rock from the 1988/89. Is it one of your influences?

In 1989 I was in Manchester and there was a lot of that going on, but I wouldn’t say it is an influence. As there is so many things going on, it all gets a little acidy if you like, or psychedelic. We like a summary of the album as being every good UK chart track from 1965 to the present year, put into one album. That sounds like some garden.

 

 

– What about Covid-19 in England? What are you doing to get people more aware of what to do on these times?

That’s simple. We look to France for the lessons they have learnt from China and Italy, and ignore as much of what the UK Government ever say, as they have been far to little, far too late. We tweet about how we feel against the Government and the lack of opposition. On a wider view nature is telling us that we are not working in sync with it, and Brasilian deforestation has not helped to look after the worlds lungs.

 

 

– Here we got Bolsonaro and there you have Boris Johnson and Brexit and all this conservative stuff. How music can help us to get through all these bad times?

Music has always had a way of helping all of us through difficult times, and even through more happier times. The last album has been heralded as a great way to escape from the troubling of these testing times, which is quite an accolade. Unfortunately, music can only soothe so much. Action is also required, and that is why we have always tried to be political with our music. Dictators like Bolsonaro and Johnson will always be there, and music can be a vehicle to hold them to account, but there is far too few doing music for anything but the capital gains. As we have been made aware with C-19, we are at the mercy of mother nature, and God bless us as she blows the hell out of us.

 

 

– With all plans of touring cancelled, what Cornershop will do in these quarentine days?

We stopped touring a good few years back. We had done it for a long time, and something had to give to allow us to carry on as a band, so we only do studio recording now, and that is not too regular wither. At the moment, being on our own ample play records label, we are still in administration mode to service orders to our website, as well as delivering to our distributors. We have already had to reorder CDs and last week more vinyls of England Is A Garden. This takes our time in quartantine, aswell as looking after our real life kids.

 

 

– Are we gonna get through this? If yes, are we gonna be transformed in somehow?

If yes then no. We as a collective Man or Woman or other sexes in between, are too stupid to really learn, or we would have enacted elements from EF Schumachers ‘Small is Beautiful’ book of 1973, and never had to get near the crisis we now have on a world stage.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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