“Dazzle Ships”, do OMD: Quando a Guerra Fria foi gravada em disco

Poucos álbuns lançados durante o período da Guerra Fria evocam com tanta riqueza de detalhes o clima daquela época quanto “Dazzle Ships”, quarto disco do grupo synthpop inglês Orchestral Manoeuvres in the Dark (ou simplesmente OMD). Lançado em 4 de março de 1983, bem no momento em que a corrida armamentista entre Estados Unidos e União Sovética recebia novo impulso após a eleição de Ronald Reagan, ele permanece como uma cápsula do tempo. Além disso, esquecido durante um bom tempo após ter sido inicialmente rejeitado por parte tanto do público quanto da crítica, “Dazzle Ships” é daqueles discos que foram alçados ao status de obra cultuada ao longo das últimas décadas. Nada mais justo, como veremos.

Dentro da torrente de bandas de synthpop influenciadas pelo Kraftwerk que despontaram na virada dos anos 70 para os 80 no cenário pop britânico, o OMD – surgido na península de Wirral, próxima a Liverpool – sempre voltou sua fonte muito mais para o lado nerd e ingênuo do quarteto alemão, ao contrário de alguns de seus contemporâneos (e congêneres) mais glossy e blasé como o Human League ou o Depeche Mode, a começar pelo visual gravatinha-e-crachá de sua dupla de frente, Andy McCluskey (voz e baixo) e Paul Humphreys (teclados).

Batizado nos palcos do Eric’s (lendária birosca de Liverpool que funcionava num porão em frente ao não menos lendário Cavern Club, e que mais tarde foi homenageada no título do álbum de estreia do Yazoo), o OMD ombreou em seus primeiros anos com outros grupos iniciantes que se projetaram ali, ainda que atingindo diferentes escalas de sucesso comercial, como o Echo & The Bunnymen, o Teardrop Explodes, o Dead Or Alive e o Wah!.

No segundo semestre de 1982, quando voltou ao estúdio para começar a esboçar o que seria “Dazzle Ships”, o OMD já somava três álbuns lançados. O terceiro, o melancólico “Architecture & Morality”, editado em novembro do ano anterior, representou a aclamação de crítica e público. Puxado pela balada “Souvenir” (não apenas uma das músicas mais lindas do synthpop, mas uma das canções mais bonitas já gravadas) e pelas duas canções batizadas “Joan Of Arc”, igualmente maravilhosas, trazia ainda pérolas escondidas, como “She’s Leaving”.

“Mais um disco assim e vocês se tornarão o novo Genesis!”, diziam empolgados os diretores da Virgin, distribuidora do selo DinDisc, do qual o grupo fazia parte. McCluskey e Humphreys, porém, tinham a certeza de que não queriam se tornar o novo Genesis e decidiram seguir por um rumo mais “difícil” ao criar o sucessor daquele seria considerado – na época e até hoje – a obra-prima do grupo. Musicalmente, a ideia agora era contrastar a sensibilidade pop presente nos singles com um mergulho mais profundo na música concreta, nas influências de Stockhausen e nos ruídos e colagens sonoras.

Foi quando entrou na receita uma lembrança de infância de McCluskey, criado numa família de esquerda de Heswall: a de passar noites ouvindo estações de rádio dos países além da Cortina de Ferro, que chegavam ao Ocidente captadas em radinhos de ondas curtas. “Havia um elemento de mistério a respeito desses lugares”, relembrou o vocalista em entrevista de 2007 à revista Mojo. Surgia então um tema que perpassaria o álbum em letra e música, às vezes de um jeito mais sutil e em outras, de modo mais impregnado: a Guerra Fria.

O título do álbum, por sua vez, remetia a um tempo anterior: o artista gráfico Peter Saville, famoso pelas capas da Factory e que havia criado o design de “Architecture & Morality”, apareceu com imagens de um estilo de camuflagem, em grafismos abstratos, que era pintada em submarinos e navios do período da Primeira Guerra Mundial. Eram os chamados “dazzle ships”. Para o projeto visual do disco, foi utilizada uma adaptação do quadro “Dazzle-ships in Drydock at Liverpool”, pintado por Edward Wadsworth em 1919.

Além dos inúmeros teclados e sintetizadores, aparecem ainda entre os instrumentos listados no encarte do álbum uma máquina de escrever, um brinquedo eletrônico de voz chamado Speak & Spell e um piano de brinquedo (todos audíveis no primeiro single, “Genetic Engeneering”), além de um rádio Sanyo de ondas curtas, utilizado para captar os trechos de transmissões de emissoras de ambos os lados da Cortina de Ferro que alimentarão muitas das faixas, em especial as vinhetas que adornam os temas centrais de “Dazzle Ships”.

O disco abre com uma dessas vinhetas, “Radio Prague”, uma montagem com o tema de intervalo de programação do serviço internacional da emissora radiofônica da então Tchecoslováquia, sintonizando com perfeição a temática geopolítica predominante no disco: o tema citado vem a ser nada menos que a adaptação da introdução de um hino comunista local, “Kupředu levá” (ou “Adiante, à esquerda”). O fim rimbombante da vinheta dá lugar ao tilintar da máquina de escrever e depois ao pianinho de brinquedo que introduzem “Genetic Engeneering”.

Com sua referência explícita a “Computer World”, do Kraftwerk, no refrão (no qual o brinquedo Speak & Spell aparece com sua voz robótica recitando palavras como “mother”, “hospital”, “scissors”, “butcher” e “engineer”), a canção ganhou um clipe muito divertido (assista abaixo), numa história que envolve uma dupla de crianças-prodígio (um menino e uma menina), dois cientistas ou sequestradores (McCluskey e Humphreys) e uma organização misteriosa.

Outra vinheta concretista, “ABC Auto-Industry”, antecede o outro single, “Telegraph”, capítulo à parte no disco. Uma alegre canção new wave mergulhada em nonsense e ironia, ela trata da utilidade/inutilidade de certas tecnologias comunicacionais, especialmente quando se tornam obsoletas (“Mas quem é que precisa de um telégrafo?”). Parte indissociável da temática não só da canção como também do álbum, o vídeo de “Telegraph” também merece comentários.

Num cenário digno de filme de ficção científica, repleto de fumaça de gelo seco, monitores de televisão e com uma profusão de luzes remetendo ao espaço, as referências imagéticas à Guerra Fria predominam. Primeiro são as três garotas, aparentemente russas, brandindo bastões de luz em frente a um mapa-múndi que lembra muito o do jogo de tabuleiro War. Elas aparecem em seguida montadas em lambretas, ostentando capacetes semelhantes aos de heróis japoneses e, por fim, vestidas de cheerleaders, diante da bandeira dos Estados Unidos.

Aos norte-americanos, aliás, estão reservadas algumas finas ironias. Primeiro na letra, em que, após afirmar – dentro de todo o nonsense da canção – que “Deus tem um telégrafo ao Seu lado” e que isso O torna poderoso, ela segue dizendo que “até mesmo na América eles entendem o valor do telégrafo”. No meio da frase, um exclamado “God bless America!” arremata tudo, numa alfinetadinha no patriotismo quase religioso o qual torna quase impossível mencionar o nome do país sem perfilar-se e levar a mão ao peito para saudá-lo e reverenciá-lo.

Como bônus, havia ainda no clipe a desleixada dancinha nerd de McCluskey, que se tornaria célebre. O clima divertido seguia pela quinta faixa, mais uma vinheta, “This Is Helena”, na qual uma batida new wave emoldura uma colagem de gravações de rádio em que uma apresentadora faz as honras da casa: “This is Helena, your M.C. today”. Serve de transição para a ambientação mais pesada de “International”, que encerra o lado A.

A última faixa se inicia com a bateria eletrônica subindo em compasso de valsa, enquanto uma gravação de notícia de rádio cita uma “jovem garota da Nicarágua, cujas mãos foram cortadas na altura dos punhos pela antiga guarda de Somoza[1]” A canção, um lamento pelos que caíram em conflitos, termina num crescendo de agonia na voz de McCluskey, retratando a dor de uma mãe por seu filho morto em batalha: “Ela nunca pensou que ele estaria assim / Seus braços levantados, ela segura / Mas agora tudo é uma lembrança / E se foi”.

Mais uma vinheta, a estranha “Dazzle Ships (Parts II, III & VII)”, abre o lado B com uma coleção de ruídos dissonantes de navios e submarinos, apitos e sinais sonoros que emergem do silêncio para logo submergir de volta. Em seguida, vem a belíssima balada “Romance Of The Telescope”, solene com seu ritmo marcado numa caixa militar e o sintetizador emulando um coral ao fundo. Lançada originalmente quase dois anos antes, em outubro de 1981, como lado B de “Joan Of Arc” (numa versão apontada na capa do compacto como “unfinished”), a canção ganha aqui sua versão definitiva, devidamente encorpada pela remixagem.

A faixa seguinte, “Silent Running”, retoma as tintas de agonia de “International”, mas de modo mais oblíquo: “Estamos andando no ar, estamos tomando nosso tempo / Mas só Deus sabe que isso não é razão nem rima”. Já a posterior, “Radio Waves”, faz lembrar o início do grupo, e não sem razão: integrava o repertório da banda anterior da dupla, The Id. Remetendo ao Kraftwerk tanto no título quanto em seu começo, pelo arranjo dos vocais numa espécie de doo-wop robótico, ela se descola da influência dos alemães no refrão, transformando-se em new wave saltitante, enquanto McCluskey berra “Radio waves have life!”.

Temos então a quinta (!) e última vinheta do disco, “Time Zones”, mais uma colagem, agora de transmissões de rádios-relógio de vários países europeus (os mais curiosos prestarão atenção para identificar cada um deles). E então “Of All The Things We’ve Made”, a derradeira, e uma das raras faixas no álbum a trazer guitarras num plano mais audível. Significativamente, também havia sido trazida para “Dazzle Ships” repescada de um lado B de single, o da versão de 12 polegadas de “Maid Of Orleans (The Waltz Joan Of Arc)”, lançado em janeiro de 1982.

A letra lacônica desta última faixa se encerra com os versos “De todas as coisas que dissemos / elas sempre funcionaram antes de hoje”. Parecia prever o que aconteceria com o disco. Tido como por demais intrincado e fragmentado, não foi bem recebido pela crítica. O público também estranhou: embora o álbum tenha chegado ao quinto posto da parada britânica, os singles não repetiram o sucesso dos anteriores: “Genetic Engeneering” estancou no 20º lugar, quebrando uma sequência de quatro compactos do grupo que adentraram o Top 10 no país. “Telegraph” teve repercussão ainda mais tímida, alcançando um modesto 42º posto.

Falando à revista Mojo em 2007, Andy McCluskey relembrou a repercussão do disco dentro da gravadora: “Os diretores da Virgin nos perguntavam: ‘Vocês podem se decidir se querem ser o Throbbing Gristle ou o Abba?’”. Depois de Architecture & Morality ter vendido três milhões de cópias só no Reino Unido, “Dazzle Ships” vendeu apenas 300 mil. O fracasso do álbum levou ao início da deterioração da parceria entre Humpreys e McCluskey.

Depois deste “suicídio comercial”, o OMD se jogou nos braços do pop mais deslavado, o que gerou discos irregulares e até fracos, salvos por uma ótima leva de singles: “Tesla Girls”, “Talking Loud And Clear”, “So In Love”, “(Forever) Live And Die”, “If You Leave” – tema do filme “A Garota de Rosa-Shocking” – e “Dreaming”, ainda que todos já sem a marca d’água estilística do trabalho da banda no início da década. Em 1989, um ano após o lançamento da coletânea “The Best Of OMD”, um balanço da carreira do grupo até ali, Humphreys deixou a banda.

McCluskey carregou o OMD sozinho pela primeira metade dos anos 90, lançando mais alguns discos (e outro single bastante popular, “Pandora’s Box”), até colocá-lo num hiato de dez anos a partir de 1996. Pouco depois de retornar, agora com a formação original, o grupo fez uma série de shows nos quais apresentava “Dazzle Ships” na íntegra, numa verdadeira redenção artística e comercial do álbum, hoje cultuado por grupos e artistas como Saint Etienne, Death Cab For Cutie e Mark Ronson.

[1]  Referência a Anastasio Somoza Debayle, ditador nicaraguense apoiado pelos Estados Unidos, deposto em 1979 pelos sandinistas e morto no ano seguinte no Paraguai.

2+

Emmanuel do Valle

Emmanuel do Valle é jornalista profissional e pesquisador diletante, não necessariamente nessa ordem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *