Cornershop – England Is A Garden

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 48 min.
Faixas: 12
Produção: Tjinder Singh
Gravadora: Ample Play

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Você lembra do Cornershop? Um grupo inglês, de ascendência indiana, que deu as caras mundialmente com o hit “Brimful Of Asha”. Não lembra? A canção estava em todos os cantos naquele ano de 1997/98 e fez da banda uma cara nova no período de fim do britpop e consequente busca por novidades. Mas, assim como veio, o Cornershop sumiu da vista, mesmo que seu bom terceiro disco – “When I Was Born For The 7th Time” – tivesse boa rotação mundial, chegando, inclusive, a ser lançado por aqui. Na esteira do sucesso, o segundo trabalho – “Woman’s Gotta Have It” – e o quarto, “Handcream For A Generation”, também chegaram por aqui, mas com bem menos alarde. Quem ouviu os sujeitos na época e teve interesse para ir um pouco mais a fundo em sua obra, sabe que o Cornershop era uma banda promissora, arejada e cheia de boas influências, além da hypada fusão de rock com música indiada. Hip-hop, eletrônica, misturas acústicas estranhas, tudo habitava aquele mundo. Não é surpresa que, mais de 20 anos depois, os caras voltem com um belíssimo trabalho, este luminoso “England Is A Garden”.

 

Veja, é um dos melhores discos de 2020, desde já. A dinâmica das canções é perfeita, uma espécie de revisita aos ritmos do início dos anos 1990 – falo do prematuramente finado acid rock de Manchester – com adições generosas de órgãos, percussões, flautas, vocais de apoio, guitarras crocantes e um exotismo totalmente moderno, muito bem vindo. Há momentos acústicos, riffs de guitarra que não fariam feio em músicas setentistas dos Stones e uma garra admirável. Os arranjos são intrincados e multifacetados, relevando detalhes sensacionais com os fones de ouvido. A pegada é psicodélica, mas oposta ao modelo atual de Flaming Lips, Foxygen e Tame Impala, o negócio é mais pé no chão, mais working class, mais verdadeiro.

 

A capacidade que Tjinder Singh tem para criar ótimos riffs e refrãos é admirável. A faixa de abertura, “St Marie Under Canon”, já mostra uma Inglaterra bem diferente do que o senso comum aponta. Quando estive lá, há mais de dez anos, visitando Londres e Liverpool, sobretudo na capital, poucos ingleses branquelos passavam. A multidão era de indianos, paquistaneses, negros, ou seja, o pessoal que a gente não vê com muita frequência. De imediato a paisagem sonora deste álbum colou-se à lembrança dessa Londres black’n’brown. A terceira faixa, “No Rock Save In Roll”, é uma canção de origem glam, com guitarras invocadas fazendo a cama, mas um monte de adereços – metais, órgãos, vocais de apoio, percussão – que a tornam algo muito mais amplo e excelente.

 

O álbum é todo assim, como se a banda estivesse refazendo o caminho do rock britânico dos anos 1990, que, por si só, já era uma revisita a outros tempos, e efetuando vários níveis de releituras. “Highly Amplified”, exemplo de excelência no disco, é uma canção dos anos 1960, pop até a medula, mas ornada por uma bateria nervosa, flautas e a impressão de que estamos no Hyde Park de tarde, mas sem sabermos, exatamente, quando. “Cash Money” tem levada que até lembra a ancestral “Brimful Of Asha”, mas a incidência de guitarras é muito mais alta, com uma surpreendente dinâmica que a faz flutuar no meio da sala. “I’m A Wooden Soldier” é outra dessas canções com esqueleto glam, mas assaltada docemente por bites e bytes eletrônicos e corais hippies revisitados, com groove stoniano matador.

 

“England Is A Garden” é uma lindeza, uma jujuba musical inesperada. Sua audição é obrigatória, ainda mais em tempos de clausura em casa, quando precisamos de lindeza e franqueza para seguir em frente. Ouçam, vocês vão adorar.

 

Ouça primeiro: “No Rock Save In Roll”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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