Brasil caça os X-Men

 

Novamente, somos os vilões

 

Aconteceu mais uma vez. Depois de ser listado como nação inimiga, por não reconhecer a soberania da ilha mutante, Krakoa, o novo lar dos X-Men, o Brasil aparece em mais um episódio de antagonismo vilanesco.

 

Na edição número um da série Marauders, lançada em 23 de outubro e escrita por Gerry Duggan com arte de Matteo Lolli, ficamos conhecendo a nova missão de Kitty Pride, veterana da equipe: buscar mutantes que, por uma razão ou outra, não conseguem chegar à casa dos X-Men através dos canais de teleporte localizados ao redor do planeta.

 

Emma Frost, a personagem que apresenta a situação a Kitty, diz em determinado momento que “vários portais, em muitas partes do Brasil, possuem quadrúpedes caçadores de mutantes na região”. A história deixa claro que o país se opõe à existência dos mutantes e ao seu direito de levar uma vida livre. Um triste detalhe: o único outro país citado nominalmente por Emma, além do Brasil, é uma nação fictícia.

 

Parece que a referência ao Brasil na minissérie House Of X não foi mera casualidade. É provável que nos tornemos inimigos recorrentes da equipe mutante e, pior, por políticas de estado. Desnecessário dizer que essa metáfora quadrinhística é resultado direto da degradação crescente do papel do Brasil na diplomacia e na política internacionais.

 

Com atos e declarações grotescas do poder oficial, vamos solidificando nossa imagem de caricatura, abraçados a um reacionarismo raríssimas vezes associado à figura internacional do nosso país. Como comentamos na época da notícia de que nos tornamos inimigos dos X-Men, impressiona que        a caminhada retrógrada brasileira já está sendo absorvida como dado cultural, permeando escritos, discursos, agora gibis e, no futuro, vai saber, músicas e filmes.

 

Afinal, todos os personagens e acontecimentos de um gibi passam a fazer parte das propriedades intelectuais disponíveis para os criadores que baseiam seus filmes nessas revistas. É dessa forma que os contratos de adpatação desses personagens são elaborados. Já imaginaram o Brasil em toda sua glória autoritária, ultra direitista, imortalizada em uma tela de cinema, em um blockbuster da Marvel?

 

Um exercício de imaginação, claro. Mas um destino nada impossível, e cada vez mais representativo daquilo que estamos nos tornando para a parte sensata do planeta.

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Fabio Luiz Oliveira

Fabio Luiz Oliveira é historiador e crítico da Arte não praticante. Professor da rede pública do Rio de Janeiro. Escritor sem sucesso, espanta o mofo de seus textos em secandoafonte.wordpress.com

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