Amaro Freitas – Rasif

Gênero: Jazz, Regional
Duração: 57 min.
Faixas: 9
Produção: Amaro Freitas
Gravadora: Far Out Records

4 out of 5 stars (4 / 5)

Você já havia ouvido falar do pianista recifense Amaro Freitas? Nunca é tarde. Amaro começou a tocar piano aos 12 anos, em sua cidade natal. Enveredou pelo caminho do jazz logo após e não parou mais. Criativo e sensível, o sujeito se recusou desde sempre a tocar jazz com toques de ritmos brasileiros, algo que – segundo a visão acertada dele – já deu. Em troca, Amaro toca ritmo brasileiro com perspectiva jazzística, o que é bem diferente. Se levarmos em conta que o jazz é uma ideia, um conceito – não um ritmo – tudo faz sentido e se completa. Sendo assim, “Rasif”, seu segundo álbum, é um convite ao passeio pela capital pernambucana.

São nove canções impressionantes, muito por conta desta visão estética que o pianista desenvolve. Lembrando Egberto Gismonti em várias passagens, Amaro concebe uma música em trio – piano, baixo e bateria – na qual a percussão é o principal elemento. Ela está em toda parte, dando asas a baiões, forrós, cocos e tudo mais, sem que você perceba que está diante de … música nordestina. É tudo bem sutil e original. “Dona Eni”, a faixa que abre o disco, é uma usina propulsora de marteladas no piano, simulando flerter com o maracatu para lembrar de uma cozinheira cearense especialista em baião de dois. Uma vez apresentados a esta carta de intenções, nós, ouvintes, não queremos mais ir embora.

Com o título remontando a uma grafia árabe para “Recife”, “Rasif” é enorme. Tem a beleza plácida da faixa-título, os ângulos ritmicos de “Mantra” e a beleza sem pressa da suíte “Aurora”, com mais de dez minutos de duração que passam num piscar de olhos. Ao fim de tudo, a lírica “Plenilúnio” e a explosiva “Afrocatu” sintetizam o espírito de “Rasif”: é música plural, sem amarras, mas com uma ideia na cabeça.

Palmas para o selo inglês Far Out, que dá voz a estes artistas. Aqui no país, no máximo, Amaro seria eliminado numa atração televisiva qualquer.

Carlos Eduardo Lima

Ouça primeiro: “Dona Eni”.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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