Afinal de contas, quem é SAULT?

 

De 2019 para cá, são seis álbuns lançados de forma independente. Capas praticamente iguais, todas negras. Zero informação, zero fotos, zero pronunciamentos e, ainda assim, o coletivo SAULT conseguiu colocar seu nome entre as grandes novidades sonoras da Inglaterra há três anos, quando soltou seu primeiro trabalho, “5”. Pouco tempo depois, veio “7”, o segundo disco. Em 2020 foram mais dois lançamentos – “Untitled (Black Is)” e “Untitled (Rise)”. Em 2021 eles lançaram “NINE”, um álbum que só ficou disponível nas redes sociais por 99 dias. E, há cerca de um mês, veio “Air”, o mais recente trabalho. Dá pra dividir a carreira dos sujeitos, mesmo ainda tão curta. Os dois primeiros trabalhos são revisitas ao que se chama neo-soul, ou seja, a retomada de batidas e ritmos forjados nos anos 1980, especialmente por gente como Michael Jackson, Prince e outros, trazendo tudo para os anos atuais. Os álbuns “Untitled” já abriram mais a palheta sonora do SAULT, acrescentando afrobeat, soul e até blues. E, com “AIR”, o grupo parece ter decolado rumo a uma sonoridade mais abstrata, quase totalmente instrumental, na qual pega emprestado desde Burt Bacharach, passando por trilhas sonoras, chegando em algo que, bem, soa como SAULT.

 

Ainda que o perfil do grupo no Spotify só contenha a enigmática frase – “add some SAULT to your life” – já é possível rastrear quem está por trás dessa empreitada. Os dois primeiros álbuns, lançados em 2019, foram totalmente misteriosos, sem qualquer revelação. Mas com o tempo foi possível decodificar quem estava por trás desses trabalhos e o nome dele é Dean Josiah Cover, mais conhecido como Inflo. O sujeito produziu álbuns vencedores para Michael Kiwanuka, Jungle e Little Simz, que, em troca já participaram de álbuns do SAULT. Inflo já garantiu seu nome no mercado por conta de várias colaborações com Adele, especialmente em seu mais recente álbukm, “30”. Muitos dizem, lá na Velha Ilha, que ele atrela a liberdade criativa do SAULT a estas participações mais, digamos, mainstream, viabilizando sua integridade artística por conta delas. Faz total sentido e ele não será o primeiro a fazer isso. Mas é importante dizer que o SAULT, independente do mistério inicial e de como permanece reservado – sem fazer shows ou apresentações públicas – vai muito além do hype sobre não-imagem ou qualquer detalhe que não seja musical.

 

Todos os álbuns – disponíveis online, exceto o “NINE” – guardam algo que vai muito além das capas negras e com zero informação. São vigorosas revisitas eletrônicas – em maior ou menor intensidade – de matizes da música negra urbana contemporânea, feitas com conhecimento de causa e com a intensão transformadora. Sim, os caras do SAULT têm pretensões artísticas reais, a ponto de desprezar a máquina moedora de carnes da indústria musical. Além disso, as letras das canções não aliviam o ouvinte, retratando brutalidade, dureza, pobreza e, sobretudo a situação das populações afro-descendentes em lugares em que o preconceito é velado ou explicitado. Por mais que já saibamos quem está por trás de tudo em relação à banda, ainda é nebuloso ter acesso a informações mais precisas e o lançamento de “AIR” ainda propôs uma ruptura estética em relação a tudo o que o grupo havia lançado até aqui. Na verdade, os álbuns “Untitled” já guardavam identidade própria em relação aos anteriores e “AIR” veio para coroar este suposto processo evolutivo na música feita por Inflo e sua turma.

 

Quem apresentou SAULT para mim foi o glorioso Ronca Ronca, liderado por Maurício Valladares e Nandão, o podcast mais sensacional possível em território musical nacional. Cumprindo uma tradição de apresentar novos sons para gerações, MauVal enfileirou algumas canções por conta da inclusão de “Untitled (Rise)” como um dos melhores álbuns ingleses do ano de 2020. Não por acaso, me apaixonei pela faixa de abertura, “Strong”, que lembra muito a releitura que o Jungle faz de timbres michaeljacksônicos oitentistas em seu trabalho. E “Strong” é só a faixa que abre este que é o melhor álbum do SAULT a meu ver. Dali para frente, vi o SAULT manter-se vivo nas rodas de informação mais antenadas e, sem muito alarde – como é o seu normal – soltou “AIR”.

 

A diferença em relação aos álbuns prévios já aparece no número de faixas: sete. Saem as colaborações habituais – Kiwanuka, Little Simz e companhia – e entram os vocais de corais clássicos. Sai o pop revisitado na tradição negra urbana e entram estruturas orquestradas e cinematográficas. Quando a gente pensa que está pisando numa terra incógnita, a segunda faixa, que também se chama “Air”, tem uma levada que traz muito do tempero mais clássico e erudito que a música de Burt Bacharach traz em sua própria mistura. A beleza da canção é espantadora e intrigante, acenando como se o ouvinte estivesse, finalmente, chegado a um paraíso idealizado e esperado por muito tempo. Dá pra ouvir timbres muito familiares em “Heart”, que vem logo em seguida, adornada por belos corais. A ideia de novidade se acentua com a impressionante “Solar”, que tem doze minutos de duração, para desaguar na sensacional “Time Is Precious”, que começa com corais que parecem vir de todos os lugares e vai emendando num instrumental épico e, finalmente, vocais.

 

É como se o SAULT oferecesse uma nova-velha forma de … afro-futurismo sinfônico ou algo assim. Se esta sonoridade vai permanecer, só o tempo dirá. O que já é possível afirmar é que trata-se de uma força criativa da música atual que deve ser considerada, conhecida e entendida. Os álbuns do grupo têm muito a oferecer como alternativa para a banalizada música pop de sempre. SAULT, mais que sensacional, é imprevisível e poucas – ou nenhuma – coisas nesses tempos planejados têm esta característica.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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