“A Última Cruzada” é um desserviço

 

Muito se ouviu falar da decisão do governo federal de veicular a série de documentários “A Última Cruzada” na TV Brasil. A iniciativa visa difundir “conhecimento livre de ideologia”, com chancela da produtora Brasil Paralelo, ligada a “intelectuais” como olavo de carvalho. A série tem um objetivo primordial: mostrar uma suposta história “verdadeira” do Brasil, uma que “nunca foi contada”, algo que ficou “oculto” porque, bem, não era do interesse que as pessoas “soubessem a verdade”. Após assistir os episódios, o espectador terá feito seu juízo “livre da poluição ideológica esquerdista”, que contaminou o ensino de História desde sempre. Este vai ser um texto com bastante aspas e letras minúsculas, lhes aviso de antemão.

 

É um crime que tal conteúdo ganhe investimento do governo federal, mas é sintomático que isso ocorra em meio a tantos ataques que a educação vem sofrendo. Nos leva a concluir – obviamente – que é desejo destas pessoas que uma visão totalmente arcaica em termos narrativos e historiográficos seja predominante, sempre baseada num protagonismo católico e europeu sobre todo o resto. Sendo assim, “A Última Cruzada” é uma peça de propaganda altamente ideológica, que desmente estudos e abordagens evolutivas da História no século 20, retrocedendo a tempos em que a análise dos fatos se restringia ao discurso oficial e a documentos produzidos pelos governos. Qualquer outra via de análise historiográfica fica esvaziada de sentido, segundo os criadores e participantes da série. É tão contraditória sua essência que ela pode ser definida como “vamos revelar o que estava oculto até aqui porque isso ‘só’ foi registrado pelos governos, pelos donos de meios produtivos, pelos militares”. É uma glorificação do atraso em termos de pesquisa histórica. Mas, tudo bem. Vamos lá ver os motivos.

 

Há uma noção que conduz os episódios – eu só vi dois até agora, mas tenho certeza que o padrão se repete nos que ainda não assisti: a civilização europeia, cristã, ocidental é o pico mais alto da evolução humana. Tudo o que ela produziu é acima do bem e do mal, necessário e justificável como o único caminho a ser seguido. Tal visão se insere na “análise” da religião (cristã/católica), da sociedade (europeia, aristocrata, feudal) e da política (conquista e propagação dos poderes do soberano e da igreja). Quem se interpuser no caminho, pode e deve ser dizimado. Povos que surjam devem agradecer por serem conquistados e terem suas riquezas e culturas aviltados. A cultura que “vale” é a ocidental, nenhuma outra. Se o recorte geográfico prevê outros povos na constituição de uma nação, certamente todos serão inferiores ao branco europeu como elemento formador da identidade nacional.

 

Nada disso está escrito com estas palavras, mas a narrativa épica que o primeiro episódio confere ao mundo pré-conquista da América, mostra que os católicos europeus repeliram um perigoso inimigo árabe, que veio em “guerra santa” aumentar seus domínios, ao longo do século 7, permanecendo lá até o 15. Os heroicos representantes católicos foram empurrados até as Astúrias e, de lá, com a ajuda dos francos, começaram a revidar e expulsar os muçulmanos malvados, que, diga-se de passagem, era muito mais evoluídos, civilizados e tolerantes do que os próprios católicos (algo que, claro, é omitido pela narrativa). Vemos então que as cruzadas, verdadeiras expedições sanguinárias ao Oriente Médio, bem como o surgimento das ordens de cavaleiros, como os Templários, são enaltecidas, justificadas e vistas como momentos de supremacia bélica e social católica. Esta narrativa precisa pressupor a existência do inimigo, do contrário, ela se perde.

 

Sendo assim, sempre haverá o “outro” nas narrativas da série. Ele será “o árabe”, “o índio”, “o negro”, sempre o “não-europeu católico branco ocidental”, porque este é o nosso herói e deve ter seus atos explicados e justificados o tempo todo. O outro é sempre o inimigo. Esta visão se adapta à variação de  europeu diretamente envolvida no contexto, o português. Aos olhos dos “especialistas” que aparteiam durante os episódios, Portugal era uma terra de audaciosos heróis, que empreenderam grandes conquistas em nome da busca “por uma terra prometida” (algo dito por Luiz Felipe de Orleans e Bragança, que surge como “pesquisador e historiador”, assim como D Bertrand, ambos membros da família real brasileira). Cabral, um “intelectual”, chegou às costas brasileiras comandando uma armada de soldados e cidadãos dos mais honrados, que vieram trazer a luz para os selvagens que aqui habitavam.

 

Há um terrível problema nesta visão, omitido a todo custo. Havia uma justificativa filosófica-religiosa para dar embasamento a adventos como o tribunal da santa inquisição: a vigilância dos desvios da fé. E quais eram esses? Qualquer crença que não fosse católica. Quem não era praticante dela, não tinha alma, logo, poderia ser considerado não-humano. Tal visão está historicamente registrada dentro das filosofias tomistas, oriundas dos escritos de Santo Tomás de Aquino, totalmente adaptadas para uso na reconquista das terras ibéricas sob os árabes, nas cruzadas e, por fim, na conquista da América. Tal fato dava aos europeus uma justificativa para catequizar, vigiar e, claro, matar quem não estivesse de acordo. E quem estivesse, seria escravizado para trabalhar pela glória de Deus. E, claro, segundo os documentários, agradecer por isso. Este era o alicerce de “levar a fé católica para o Novo Mundo”.

 

Alguns momentos são de extrema vergonha. Ao longo da narrativa vemos comentários como:

 

– Portugal tinha eleições democráticas em suas cidades já no século 13

– Esta lógica democrática foi levada para as Capitanias Hereditárias, que realizaram a primeira eleição nas Américas, em São Vicente

– As civilizações que ficam isoladas “emburrecem” – comentário feito sobre um “isolamento” das Américas, mostrando uma lógica simplista de encarar um continente cheio de etnias como se fosse algo único. É a mesma visão que se tinha da África.

– Os indígenas resolveram se aliar com os portugueses e não o contrário – também mostrando que a presença do elemento estrangeiro é naturalizada, isentando-o de culpa diante da ruína civilizatória das sociedades locais

– Portugal tinha burguesia já no século 13

– Os árabes ocuparam a totalidade do território europeu

– Os romanos eram tolerantes com as outras religiões

– Havia uma ponte de terra unindo América e África durante a Era do Gelo, o que facilitou a imigração para a América.

– Quando os europeus chegaram à América, significou a união de povos que haviam ficado milênios separados

 

As visões são tão simplistas e atrasadas que fazem total sentido em meio ao atual governo federal. O movimento de expor alunos com pouca formação e obrigar professores mal pagos e esgotados a difundir tal material é uma estratégia de emburrecimento completamente assumida, uma ação deliberada de impor um modelo de pensamento que não cabe em mais nenhum lugar minimamente sério no mundo. Não é uma nova interpretação da História, mas uma negação dos princípios científicos do seu estudo e pesquisa, algo que foi obtido a duras penas ao longo do século 20. Os preceitos mostrados na série nos atiram de volta ao século 18, com um orgulho imbecil de “estar devolvendo a verdade” ao povo. Seria cômico se não fosse muito, mas muito trágico.

 

Em tempo: minúsculas intencionais

 

Em tempo 2:  a despeito de seu conteúdo programático lamentável, a série é bem produzida e usa recursos narrativos e técnicos que apontam para uma produção com custo elevado. Não é um trabalho amadorístico e improvisado, ele tem um propósito definido.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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