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O Rock sempre foi um manifesto político

 

 

A cena nunca saiu da minha cabeça: às vésperas das eleições presidenciais de 2018, um cara sai indignado do show do Roger Waters em alguma capital brasileira, reclamando que os telões estampavam a frase “Ele Não”, e afirmando que o ex-Pink Floyd estava misturando rock com política! O sujeito só poderia desconhecer a obra de Roger Waters e nunca ter lido uma entrevista dele. Roger é um dos artistas mais politicamente ativos do planeta, e é só analisar uma de suas obras, o espetacular “The Wall” (1979), para constatar como política e rock estão amalgamados no disco.

 

Outro exemplo que me impressionou muito, esse bem mais distante, foi registrado no excelente livro “Barulho”, lançado por André Barcisnki em 1992. Na obra, o jornalista entrevista, entre outros, Jello Biafra, ex-vocalista do Dead Kennedys, que afirma que está acompanhando o cenário político brasileiro e diz que sabe dos desmandos do então governo Collor.

 

Peguei os dois exemplos acima para ilustrar que rock e política sempre estiveram entrelaçados, desde o seu surgimento. Não custa lembrar que o rock é negro. Ou seja, surgiu através da população mais massacrada da História. Uma classe violentamente oprimida, que sequer era considerada humana nos Estados Unidos. Os horrores da escravidão são sentidos até hoje na sociedade, e toda e qualquer política de inclusão ainda será pouco para compensar o que foi feito com a população negra no mundo. Sei que não é meu lugar de fala, mas basta ter dois neurônios e um mínimo de sensibilidade para sentir horror de um dos capítulos mais vergonhosos da humanidade.

 

Assim sendo, mesmo quando o rock parece soar pueril e alienado, está demarcando um território político. A Jovem Guarda, que sempre foi acusada de ser um movimento politicamente alienado, não deixava de mostrar um posicionamento ideológico através de seu figurino muito pouco convencional e totalmente antissistema diante do período ditatorial que o Brasil enfrentava.

 

O que é muito assustador, e que demonstra o quanto a classe média/alta é ignorante dependendo da linha ideológica que defende, é desconhecer que o Rage Against The Machine é uma banda de esquerda. Ignorar que artistas como Bob Dylan e John Lennon são políticos até a medula. Que o movimento punk é, acima de tudo, político. Mas acho que ninguém barra, em estupidez, uma parcela do público de Heavy Metal. Será que eles desconhecem que Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, é historiador? Que as obras do Sepultura, Megadeth e tantas outras bandas são de cunho político? Que suas letras abordam, principalmente, temas políticos?

 

Puxando para o cenário brasileiro: existiu algo mais político do que o Secos & Molhados no período em que surgiram? E Raul Seixas? E olha que estou citando apenas dois artistas que fizeram um estardalhaço político nos anos de chumbo, seja esteticamente ou no discurso embutido em suas letras!
Chega a ser inacreditável que o público bolsonarista não saiba disso. Se bem que, a julgar pelo que defendem, são extremamente coerentes, de uma burrice misturada com falta de caráter de dar raiva.
Sei que todo mundo está exausto depois do segundo turno das eleições brasileiras. Mas acho tal reflexão importantíssima para ser deixada de lado. Livramos o Brasil de mais um poço sem fundo. De uma gente que detesta cultura justamente porque não a entende. Porque nunca abriu um livro na vida que não seja a Bíblia. Que consome um estilo musical sem sequer saber o que os artistas dizem em suas letras.

 

Pois reafirmo: rock é, sem dúvida, um movimento político. Mesmo quando não tem a menor intenção de ser. Se a gente pensar direitinho, tudo na vida é política. Ainda que boa parte da população não enxergue assim.

 

Fico feliz que o leitor do Célula Pop saiba disso com clareza. E que nós, que trabalhamos com cultura, saibamos da importância que ela tem na formação humana e na educação de um povo. Se cultura é um bem político, o rock, um de suas milhares de ramificações, também é.

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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