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Os 35 anos de “Descivilização”

 

 

A crítica musical especializada sempre torceu o nariz para o Biquini Cavadão. Isso sempre me incomodou e me pareceu bastante injusto. A banda carioca, nascida em 1984, tem alguns discos muito respeitáveis, canções que atravessaram o tempo e, depois de cerca de quinze anos de atividade, reinventou-se e atingiu uma longevidade que lhe permitiu continuar produzindo álbuns, atingir novos públicos e manter-se relevante. Bruno Fortunato, Carlos Coelho, Álvaro Birita e Miguel Flores da Cunha, os quatro integrantes remanescentes da formação original, trabalham duro, fazem shows em vários lugares do Brasil constantemente e, graças a isso, o Biquini mantém-se firme. Vendo a banda hoje, talvez os fãs mais jovens e o ouvinte casual não imagine que, em 1991, o grupo lançou um álbum que rompeu a barreira da recessão advinda do governo collor e cravou três hits na parada nacional, que figuraram entre as 100 canções – nacionais e internacionais – mais tocadas no país. E este desempenho colocou o disco em questão, “Descivilização”, com um desempenho maior que obras mais lembradas, como “Os Grãos” (Paralamas), “V” (Legião Urbana), “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” (Titãs) e “Várias Variáveis” (Engenheiros do Hawai). Vamos fazer justiça e lembrar desse álbum.

 

“Descivilização” nasceu após um período complicado para a banda. O anterior, “Zé” (1989), um disco extremamente injustiçado, foi mal de vendas e não conseguiu gerar hits radiofônicos, mesmo que “Teoria” e “Meu Reino” fossem excelentes canções. Era o período da mutação do pop nacional, que mirou o sertanejo e a lambada, obrigando o rock feito aqui, que ocupava esse espaço, a buscar novas linguagens. E essa busca não significava, necessariamente, inovação e apelo pop. O Biquini seguia uma lógica de composição coletiva que poderia ser bastante caótica às vezes. Tanto que a produção de canções gerada nesse tempo foi considerada mais do mesmo. A banda não gostava da ideia de se repetir e até pensou em encerrar as atividades. Além do quarteto remanescente, o grupo contava com o baixista André Sheik, que era um dos defensores dessa necessidade de inovação constante. A resposta veio com uma nova safra de composições e, especialmente, com a volta do produtor e empresário da banda, Carlos Beni, de Londres, onde fora fazer um curso de produção. Beni, que fora baterista do Kid Abelha e desde 1985 produzia o Biquini, voltara completamente influenciado pela novíssima safra de bandas e artistas que fundiam black music com beats eletrônicos, no sentido Soul II Soul do termo. Quando ouviu as novas canções, Beni sugeriu implementar detalhes do que aprendera. E isso gerou a mudança.

 

Na época isso não foi tão visível, nem a ideia era fazer do Biquini uma banda que deixasse o idioma rock para trás, porém, seu abraço a timbres e detalhes inovadores foi uma característica marcante de “Descivilização”. A outra foi a crítica social que o grupo conduzia contra o Brasil de 1991, que elegera collor dois anos antes e vivia um caos econômico nas mãos do governo que, entre outras medidas, confiscara a poupança dos brasileiros. Dessa indignação, veio o primeiro single do álbum, “Zé Ninguém”, que já incorporava uma batida dançante, pianos house e timbres eletrônicos na parte rítmica. A linha de baixo de Sheik também era reconhecível de longe e mostrava uma banda que ouvia sons e recebia influências modernas. Se a ideia era tentar achar novos idiomas, o Biquini fazia o movimento de acordo com a necessidade. E “Zé Ninguém” recuperava a ideia central da banda – de uma reflexão urbana, jovem, mas antenada. “Quem foi que disse que amar é sofrer?” e “Os dias passam lentos, aos meses seguem os aumentos” são versos que mostram os dois lados dessa indignação, levada do plano pessoal para o espaço nacional. E outro verso: “Aqui embaixo as leis são diferentes” mostra a inserção social do próprio narrador, num país que sufocou a classe média, dividindo todos entre ricos e pobres. E ainda há espaço para manter o conceito do próprio álbum, que era, além do Brasil, uma crítica à própria ideia de civilização como o melhor possível: “Quem foi que disse que a vida começa aos quarenta? A minha acabou faz tempo”.

 

Além de “Zé Ninguém”, “Descivilização” trouxe outros dois grandes hits. “Vento Ventania” e “Impossível”. A primeira é a gravação mais conhecida do Biquini, a mais bem sucedida comercialmente, chegando entre as quarenta mais tocadas no Brasil em 1992 e grande furadora do nicho roqueiro. Muita gente ouviu a música em programações pop pelo país a fora e até a apresentadora Xuxa era fã da gravação, tendo pedido à banda que a tocasse num programa – história que o vocalista Bruno lembrou em entrevista ao podcast Papo com Clê. A letra é surreal e otimista, contrastando com o tom geral do álbum e o arranjo tem a marca dessa modernidade que Beni trouxera de Londres. Segundo consta, a versão original era em ritmo de ska e o produtor pedira para que a banda fizesse a canção bem mais lenta. O resultado não saiu nem dançante, nem rock, mas algo adoravelmente grudento, que colocou o Biquini num lugar que só ocupara em 1986, com “Tédio” e “No Mundo da Lua”. “Impossível”, por sua vez, era uma balada pop mais clássica. Lembra bastante “Timidez”, outra canção do grupo que fizera sucesso anos antes. De um jeito intuitivo, “Impossível” passou a conter um trecho de “Gostava Tanto de Você”, de Tim Maia, nos shows, algo que conectou a banda com a renascença das carreiras de Tim e Jorge Ben naquela época. Talvez não por acaso, o sucesso seguinte do Biquini foi uma cover de “Chove Chuva”, de Ben, que puxou seu álbum seguinte, “Agora”, lançado em 1994.

 

As outras faixas do álbum se dividem entre essas análises da conjuntura vigente e consequentes reflexões sobre o que é possível fazer em meio a este cotidiano que começava a acelerar e levar as pessoas a uma vida completamente diferente do que havia até então. “Cai Água, Cai Barranco”, com participação de Herbert Vianna, é dessas críticas à situação do país, do Rio e do que acontece quando rui a civilidade: “Manda fogo na polícia pra esses caras aprender”. O arranjo é mais próximo do Biquini original, com riffs de teclado new wave e influências de bandas como XTC, Devo e similares. “Últimas Horas” traz mais disso, porém com pianos e teclados fazendo sonoridade de metais, enquanto a faixa-título surge num arranjo psicodélico, com os versos quase declamados, com um ambiente árido, algo que o grupo nunca fizera até então. Outra faixa, uma das mais bacanas do álbum, “Vesúvio”, é um ótimo exemplo dessa fusão de indignação pessoal e coletiva em um só lamento. O arranjo é ótimo, tem um ótimo solo de guitarra de Coelho, uma progressão melódica bem bonita e um ótimo desempenho de Bruno nos vocais – ele sempre foi um dos grandes vocalistas do BRock. “Arcos” é outro exemplo desse “novo” Biquini – com um arranjo acústico que contou com participação de Roberto Menescal nos violões e versos surrealistas e bonitos como “O que se esconde atrás dos Arcos // Um índio ou o Circo Voador”. No fim do álbum, “A Cidade”, é o somatório dessas perplexidades típicas do Biquini, que surgiam com mais foco e mais força aqui. É outra canção com arranjo complexo, com percussão e tom soturno e delírios – “Andando nas muretas dos viadutos e pisando na grama dos jardins”.

 

Fechando o tracklist de “Descivilização”, ainda temos duas versões de faixas do álbum anterior: “Bem-Vindo Ao Mundo Adulto 90” e “Meu Reino 91 (Um Lar em Brixton)”. Ambas mostram de um jeito mais explícito a influência que Beni Borja recebeu da cena pop londrina na época. É divertido notar o riff de teclado derivado de “Henry Houdini”, do Kon Kan na primeira e a batida clássica de “Keep On Movin”, do Soul II Soul na segunda. Ambas, ainda que legais, perdem para os originais, especialmente “Meu Reino”, cujo original é um dos melhores momentos de toda a carreira do Biquini. Olhando em perspectiva, “Descivilização” merece ser ouvido e reouvido, sobretudo para que seja feita justiça. É um disco com muitos méritos, ótimas intenções e várias canções que soam bem, ainda que tenham datado por conta dos arranjos. Mais que isso – é preciso dar mais valor à banda, que tem vários hits respeitáveis em sua carreira.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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