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Entrevista: John Ulhoa e os 31 anos de “Gol de Quem?”, segundo disco do Pato Fu

 

 

Eu estudava Jornalismo na Uerj em 1993 e minha turma de amigos e amigas era muito ligada em música, especialmente eu e o grande Leonardo Salomão. Tínhamos ambição de nos tornar críticos especializados na área, éramos fãs de jornalistas como Carlos Albuquerque e Tom Leão, de Ana Maria Bahiana e José Emílio Rondeau e líamos a revista Bizz como quem estuda para uma prova difícil de passar. E víamos religiosamente a programação da MTV Brasil. Eu já escrevi várias vezes sobre essa época da minha vida e a missão aqui é apenas resgatá-la como ponto de partida para minha admiração perene pelos mineiros do Pato Fu. Foi na MTV que vi o clipe de “O Processo de Criação Vai de 10 até 100 Mil”, com seu inacreditável e arranjo e refrão: “A Unimed é que vai pagar”. Ela puxava o primeiro álbum do grupo, “Rotomusic de Liquidificapum”, lançado naquele ano. Tudo aquilo era muito novo, sensacional, inteligente, engraçado e criativo. Fernanda Takai era a menina que todos nós achávamos linda e John Ulhoa, seu marido, era, mesmo assim, o amigo que gostaríamos de ter.

 

Corta.

 

Dois anos depois, veio o segundo disco do Pato Fu, “Gol de Quem?”. Foi a estreia da banda pela gravadora BMG e, a partir disso, com mais divulgação, suas faixas vieram mais fortes para a programação da emissora paulistana e para as rádios. O maior exemplo desse movimento é “Sobre O Tempo”, uma canção belíssima, que provava o grande talento do grupo em ir muito além do experimentalismo sonoro per se, cantando uma letra que discutia a passagem do tempo com leveza, simpatia e verdade – “tempo amigo, seja legal”. Parecia um tapinha nas costas, um ombro disposto a nos apoiar. Mesmo que o assunto desse texto seja este segundo álbum e seus trinta e um inacreditáveis anos, ainda quero falar um dedinho de prosa sobre o terceiro, “Tem Mas Acabou”, lançado em 1996. Deste trabalho, eu e Leo Salomão pinçamos “Pinga”, então estourada na MTV”, para a programação de “Os Argonautas”, que apresentávamos na Rádio Kuarup FM, em Duque de Caxias, quando tivemos a chance de produzir um programa de rádio. Portanto, Pato Fu tem a ver com meu desejo – e ilusão – de escrever sobre música, apresentar meus pontos de vista, poder usar o privilégio de falar sobre o assunto e apresentar novidades, canções, artistas, que, podem, sim, através do que fazem, transformar nossas vidas para sempre. E só pra fechar – nunca perdi o Pato Fu de vista. Em plena pandemia da covid-19, sua canção “Fique Onde Eu Possa Te Ver”, sobre a sobrevivência naquele tempo terrível, serviu como um farol de busca para mim. Foi uma época bastante complicada, ouvi várias vezes em silêncio, lágrimas correndo, pensando em pessoas queridas.

 

Corta de novo.

Conversamos com John Ulhoa por e-mail. A ideia da entrevista é apresentar esse belíssimo lançamento do Pato Fu. “Gol de Quem? (Ao Vivo)” traz a banda num show gravado na Audio Club, em São Paulo. gravado em 7 de agosto do ano passado. Dele participaram BNegão (em “A Volta do Boêmio”), Tom Zé (em “Qualquer Bobagem”), Zélia Duncan (em “Sobre o Tempo”) e a cantora baiana Coral (em “Sertões”). A banda tocou a íntegra do álbum – menos a versão de “Ob-La-Di-Ob-La-Da”, dos Beatles e acrescentou várias canções de sua carreira, numa celebração de 28 faixas. Tem espaço para clássicos como “Perdendo Dentes”, “Deus”, um medley com duas de minhas canções mais queridas do grupo – “Made In Japan e Capetão FM 66,6”, “Canção Pra Você Viver Mais”, “Eu” e outra favorita querida, a já citada “Fique Onde Eu Possa Te Ver”. Tudo é muito bem feito – o Pato Fu é ótimo de shows e dá pra sentir a felicidade pela comemoração da terceira década de “Gol de Quem?”. Essa apresentação será lançada em formatos físicos e a íntegra do show estará disponível no YouTube a partir do dia 10 de outubro, também conhecido como amanhã. Vejam a entrevista, ouçam o disco, vejam o show. E passem adiante porque o Pato Fu é um tesouro de inventividade e fofura num mundo cada vez mais algoritmizado.

 

 

– O Gol de Quem? foi o disco que tirou do Pato Fu o rótulo de “banda engraçadinha do “Rotomusic” e colocou vocês como banda de estúdio, de experimentação. Quando vocês ouviram as fitas de novo para montar o show da Audio, o que mais surpreendeu vocês no próprio disco? Teve alguma música que vocês pensaram “como a gente teve coragem de fazer isso em 95”?

 

John: Desconfio que a gente continuou com esse rótulo (pra algumas pessoas) por mais tempo, talvez ele só tenha caído mesmo no Televisão de Cachorro… Mas realmente, sempre fomos uma banda de experimentações em estúdio, acho que ainda somos. Eu fico de cara com meus vocais esgoelados dessa época, mas é muito fresco na minha memória a nossa intenção quando fizemos músicas como “Onofle”. Não requereu coragem, e sim uma vontade de impressionar as pessoas fazendo um som que ninguém mais poderia fazer. Botamos o MC50 da Roland pra rodar em velocidade máxima, sem freio.

 

 

– Em 1995 o disco foi produzido pelo Carlos Savalla e lançado num selo pequeno, o Plug da BMG. Era um Brasil pré-internet, onde banda alternativa mineira tinha que ir na raça. Ouvindo o disco hoje, com 30 anos de distância, ele soa mais datado ou mais atual do que vocês imaginavam?

 

John: Pra mim ele soa datado em termos técnicos, né? Mas não de uma maneira negativa, é só muito fácil saber que não é um som feito com a tecnologia atual, então ele vem impregnado de um espírito da época, o que é legal. É inevitável, os timbres, as programações… Alem da “pureza d’alma” de nossas interpretações.

 

 

– O ao vivo que sai em outubro traz Tom Zé, Zélia Duncan, BNegão e o Coral. Não é um time óbvio. Não chamaram gente da mesma geração. Como foi a curadoria? O que o BNegão traz para “A Volta do Boêmio” e Tom Zé para “Qualquer Bobagem” que vocês não trariam?

 

John: Tom Zé é um dos autores de “Qualquer Bobagem”, junto com os Mutantes. A curadoria foi baseada em diversidade, amizade, admiração mútua… O Pato Fu acho que não se adapta muito a esse universo atual sedento de “feats” promocionais… Gostamos de pensar nessas pessoas como companheiros de ofício que a gente realmente se sente à vontade e orgulhosos de ter conosco no palco. A gente pensa por exemplo no BNegão pra fazer “A Volta do Boêmio” porque imagina que ele vá fazer algo que vai botar um sorriso na cara das pessoas, e bota mesmo! Pra mim virou a versão definitiva desse nosso arranjo. Ele, Coral, Zélia (Duncan) e Tom Zé, cada um trouxe algo de muito especial pra gente naquela noite.

 

 

– John, você e Fernanda compuseram músicas que ela cantou com 24 anos em 95. Como é cantar “Sobre o Tempo” hoje, com outra voz, outra história? A letra muda de sentido? Ou finalmente faz sentido?

 

John: Bom, como compositor, acho que “Sobre o Tempo” realmente faz cada vez mais sentido, porque ganhou o aspecto nostálgico que antes não tinha. Ela sempre foi pra mim um desejo de uma vida legal no futuro. “Tô meio mal agora, mas vou ficar legal”. De uma certa maneira, posso dizer essa vida legal chegou pra gente, mas ela vem em ondas, né? E é assim pra todo mundo, então o teor celebratorio de uma música de 30 anos que diz “aguenta aí que vai melhorar” é muito grande, e isso nunca pára de nos emocionar.

 

 

– Vocês passaram pela era do CD, da pirataria, do MySpace, do streaming, do vinil voltando. E nunca correram atrás de hit. O Pato Fu lançou disco de brinquedo, disco com música em japonês, disco ao vivo com orquestra. Essa liberdade de fazer o que quer é mais fácil ou mais difícil hoje, quando o algoritmo pede single a cada 45 dias?

 

John: Olha, acho que o algoritmo pode pedir single a cada 45 dias à vontade, a gente nunca vai fazer isso, hehe. A liberdade, a gente sempre construiu – ou nunca perdeu – mesmo na época das gravadoras. Continuamos seguindo nossas ideias, tentamos materializa-las dentro do possível. Às vezes demora, às vezes é rápido. Mas temos que ter algo a dizer, esse negócio de fazer música sem ter o que dizer não tá com nada.

 

 

– John, você é um dos produtores mais inventivos do Brasil e ao mesmo tempo um cara que sempre preservou o estúdio como laboratório. Depois de produzir tanta gente, o que o Pato Fu ainda te permite fazer que nenhum outro trabalho permite?

 

John: O Pato Fu é minha banda, pra onde flui meu trabalho como compositor. É aquilo que mais me exige como produtor, é o mais difícil, mais artesanal e cuidadoso. Tenho que equilibrar a opinião de todos da banda e produzir algo coeso e multifacetado ao mesmo tempo, como é o Pato Fu.

 

 

– O Gol de Quem? saiu em 1995, no primeiro ano do Plano Real. Um Brasil que estava tentando se entender como país moderno. Hoje a gente está em 2026, num Brasil completamente rachado, mas onde a música alternativa finalmente tem público. Vocês sentem que o país ouve melhor o Pato Fu hoje do que ouvia em 95?

 

John: Difícil dizer. A gente tocava em rádios grandes, na MTV e tal… Então, não se compara com o streaming de hoje em dia. Você lançava um single nas rádios, um clipe na MTV, e TODO MUNDO ouvia, e te dava retorno pessoal. Hoje, temos um retorno imediato de nossas ações pelas redes sociais, mas é muito pulverizado, segmentado. Então tenho a sensação de que quem insiste em nos ouvir hoje em dia é porque se identificou mais profundamente com a banda em algum momento, nos entende melhor do que naquela época em que éramos conhecidos por um ou dois hits que bombavam no rádio. Mas ao mesmo tempo, sinto que a relação das novas audiências hoje em dia com a música é muito mais superficial. De todo modo, continuamos nos divertindo, e os show tem estado lotados de um público antigo e novo, o que é ótimo.

 

 

– O Pato Fu sempre teve um posicionamento político muito claro, mas sem ser panfletário. Vocês nunca fizeram “música de protesto”, mas nunca se omitiram. Como vocês veem o papel de uma banda pop experimental num momento como o atual?

 

John: Nesse aspecto eu sempre preferi fazer músicas que fossem fruto de uma causa, letras que só existem porque pensamos de uma certa maneira, mas sem levantar as bandeiras explicitamente. Não que isso seja errado, é só minha maneira de compor. Então temos músicas como Licitação, Uh Uh Uh, Lá Lá Lá, Ié Ié ou mais recentes como Silenciador e Curral Mal-Assombrado que são bastante politizadas mas, como você disse, não panfletárias. Acho que não tem a ver com ser uma banda experimental ou não, tá mesmo cada vez mais difícil um artista se omitir totalmente das questões sociais que enfrentamos, né? O Ed Sheeran tentou, veja no que deu…Eu realmente não acho que todo mundo tenha que ir pras redes opinar e discutir assuntos políticos se não se sente confortável, mas se espera ao menos algum tipo de atitude, um não-alinhamento com essas forças violentas, de atraso cultural e social, seria o mínimo.

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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