Teenage Fanclub lança seu “álbum triste”

Teenage Fanclub – Do Not Dare To Dream
39′, 10 faixas
(Merge)
(4,5 / 5)
Eu sou suspeito para falar de Teenage Fanclub, admito. Adoro a banda, acho que seus integrantes, a saber, Norman Black, Raymond McGinley, Francis MacDonald, Dave McGowan e Euros Childs, são ótimos instrumentistas, compositores e, ainda por cima, boas praças. Tenho um relacionamento amistoso com eles e os sujeitos nem imaginam isso, mas aí já é coisa de fã. Como quem escreve resenhas é o jornalista, isento, é preciso colocar algo em discussão: o Teenage Fanclub, há pelo menos dez anos, iniciou uma nova fase em sua carreira. Esta nova etapa consiste num abraço mais franco e apaixonado ao folk rock. O estilo sempre esteve entre o leque de influências primordiais do grupo escocês, tão importante quanto o jangle pop e o power pop. Sempre que falamos de TFC citamos o “BBB” como sua trindade imaculada: Beatles, Byrds e Big Star. De “Here”, lançado em 2016, para cá, o grupo vem pesando mais a mão na ramificação folk de sua cartela de cores. Nada errado nisso, os sujeitos, como dissemos, são ótimos compositores e arranjadores, mas, o que parecia ser uma coloração passageira e circunstancial, se repetiu em “Endless Arcade” (2021, o primeiro álbum lançado sem a presença do decisivo Gerard Love, que deixou a banda em 2018), em “Nothing Lasts Forever” (2023) e, agora domina a cena neste novo “Dare Not To Dream”. Seria então o Teenage Folkclub? Pode ser.
Muitos admiradores da banda podem confundir esse pendor com uma “acomodação” do grupo ou mesmo com um sintoma advindo da saída de Gerard Love e estes podem ser dois bons motivos. Ainda que hajam alguns momentos de mais dinâmica ou peso (bem mais leve do que em outros tempos), é um fato que a música do TFC tornou-se mais leve, mais light, mais reflexiva. As gravações deste novo álbum aconteceram numa ilha na costa oeste da Escócia, Great Bernera, um local belissimo e afastado da civilização. Tal perspectiva distante, como notou a imprensa gringa, pode ter contribuído para este tom mais sereno de musicalidade. Confesso que não percebi esta influência, prefiro atribuí-la a este movimento natural que já acontece há dez anos. Não que “Dare Not To Dream” não tenha momentos mais dinâmicos e surpreendentes – a segunda faixa, “Tomorrow People”, é um exemplo disso. Com seu arranjo folk psicodélico, a banda começa como nos velhos tempos, com guitarras e aquela levada característica. No meio do caminho, canção para, entra um teclado solitário e o ritmo muda completamente, passando para o folk clássico. Acho sensacional, a faixa é ótima, mas sintomático demais para passar batido.
Para falar a verdade, este álbum mostra uma faceta triste da banda, um clima que vai além do contemplativo. Na verdade, não é só uma demonstração de tristeza, mas de perplexidade com o mundo e sua brutalidade atual. De fato, uma olhada no catálogo do TFC até aqui vai mostrar o quanto a banda cantou o amor em suas mais diferentes manifestações – de casal, de amigo, de irmão – e deve ser complicado falar deste tema de um jeito, digamos, mais ingênuo e ignorando a gravidade do momento que experimentamos. Dessa forma, o tom mais entristecido casa perfeitamente com a ambiência folk vigente, originando momentos que lembram Crosby, Stills And Nash, os onipresentes Byrds e Neil Young, com resultados que, se deixam a desejar no quesito rock’n’roll, fazem a delícia dos fãs de dedilhados de violões acústicos e guitarras, das harmonizações vocais e, se prestarem atenção, poderão ver como o teclado de Euros Childs, ex-líder da ótima banda galesa Gorky’s Zygotic Mynci, uma das mais criativas surgidas nos anos 1990, com ótimos momentos juntando psicodelia com vários tons de folk rock. Ou seja, tudo conspira para “Dare Not To Dream” ter essa cara.
Para fãs e detentores do sentimento expresso logo no início do texto, é fácil gostar das dez faixas que a banda coloca na praça. Tudo é belo, harmonizado vocalmente com precisão matemática sem abrir mão do sentimento e com alguns ótimos momentos. A já citada “Tomorrow People” abre a fila de belezuras e seu arranjo surpreendente é um ponto a favor. “Take Time” também é herdeira da linhagem clássica do TFC, seja pelo andamento, pelos teclados sutilíssimos ou pelos vocais harmonizados, uma lindeza. “There Was You” caberia num álbum dos Byrds se tivesse um pouco mais de guitarras; “Over And Over” começa como uma clássica balada que os Beach Boys poderiam ter gravado no início dos anos 1970 mas logo muda para uma faixa com o DNA de Crosby, Stills And Nash. Os vocais são belíssimos, a melodia idem, tudo é arrepiante. “Be With You Tonight” é outra faixa com um tom que parece flutuar no ar como se fosse um algodão doce melódico – tudo é belo aqui. A faixa-título também vai para a Califórnia da virada dos anos 1960/70 sem culpa, com violões fazendo o andamento e a melodia induzindo ao canto. “Day In The Sun” é o “momento mais TFC” do disco. As guitarras vêm mais altas e dando o tom, os vocais são característicos, o sol como elemento que vai purgar tudo de mal e o andamento imaculado, tudo é perfeitinho. “Somewhere To Land”, mais no fim do álbum, é uma mistura de Paul McCartney com Pink Floyd pré-Dark Side Of The Moon, algo que não esperaríamos ver num álbum do TFC e ela abre caminho para “Young And Wise”, outra balada acústica e plácida.
“Dare Not To Dream” pode desagradar ao ouvinte de música de 2026. Certamente não tem – e nem quer ter – sintonia com a modernidade, não como nos dizem que ela é. Ao contrário, se vale de uma carreira de quase 40 anos, marcada por álbuns sólidos, intransferíveis e belos. Feito para fãs. Com carinho.
Ouça primeiro: “Tomorrow People”, “Take Time”, “Day In The Sun”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
