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O genial estudo do pagode de Tom Zé

 

 

Sempre considerei Tom Zé um gênio. Talvez seja o artista brasileiro que mais admiro. Não só por sua magnífica obra, mas também pela sua trajetória profissional, que foi muito mais difícil que a dos seus colegas do Tropicalismo.

 

Ainda nos anos 1970, Tom Zé já tinha lançado duas obras-primas: “Todos os Olhos” (1973), e “Estudando o Samba” (1976). O problema é que sua obra jamais teve apelo comercial, chegando mesmo a ser considerada hermética pelas gravadoras. Resultado: Tom amargou pelo menos duas décadas de ostracismo artístico, fazendo shows em locais cada vez menor e completamente desiludido com o mercado musical, que não absorvia seu trabalho. Seu desencanto foi tão grande que chegou a ir para o interior da Bahia, para trabalhar num posto de gasolina pertencente ao seu primo.

 

Mas a sorte começou a sorrir para Tom Zé. Dois momentos específicos fizeram com que Tom finalmente chegasse ao merecido sucesso. O primeiro foi quando David Byrne, líder do Talking Heads, descobriu, por acaso, o disco “Estudando o Samba”, no final dos anos 1980. Byrne ficou tão encantado com o álbum que resolveu lançá-lo pelo seu selo, “Luaka Bop”. Tom Zé estourou no exterior, fazendo várias turnês no Estados Unidos. Quando lançou “Com Defeito de Fabricação”, em 1998, o álbum foi eleito um dos dez melhores do ano pelo “The New York Times”.

 

O outro momento divisor de águas na carreira de Tom Zé foi o histórico show que o baiano fez no “Abril pro Rock” de 1999. Foi uma verdadeira hecatombe, e o próprio Tom ficou surpreso com a reação do público, que foi à loucura da primeira até a última música. Uma verdadeira e improvável catarse coletiva. Foi tão bonito e inesperado que, ao final do show, Tom Zé desabafou: “Vocês acabam de me salvar”. E, desde então, o artista teve, finalmente, as portas abertas da mídia brasileira, que jamais voltou a ignorá-lo desde então.

 

Sou fã de toda a obra do compositor baiano, mas meu trabalho preferido dele é o inclassificável “Estudando o Pagode: Na opereta segregamulher e amor”, lançado em 2005. Tom realmente mergulhou no formato conceitual de uma ópera, e seu encarte é uma reprodução do formato operístico: um programa dividido em três atos. Tom criou vários personagens, que dialogam durante os maravilhosos 63 minutos e quinze segundos do disco. A preocupação de Tom Zé era contar como a mulher foi maltratada pelos homens ao longo dos séculos. Parece uma premonição dos chocantes crimes de feminicídio que o Brasil passou a registrar nos últimos anos.

 

O álbum, como já foi mencionado, é dividido em três atos. O primeiro, intitulado “Mulheres de Apenas”, abarca seis canções: “Ave Dor Maria”, “Estúpido Rapaz”, “Proposta de Amor”, “Quero Pensar (A Mulher de Bath)”, “Mulher Navio Negreiro” e “Pagode Enredo dos Tempos do Medo”.
O segundo ato, “Latifundiários do Prazer”, traz as músicas “Canção de Nora (Casa de Bonecas)”, “O Amor é um Rock”, “Duas Opiniões”, “ElaEu”, “Vibração da Carne”, “Para lá do Pará”, e “Prazer Carnal”.

 

O último ato, “Amor Ampliado para o Teatro e o Prazer”, fecha o disco com “Teatro (Dom Quixote)”, “A Volta do Trem das Onze” e “Beatles a Granel”. Tom Zé escalou um time de excepcionais cantoras para acompanhá-lo no disco: Zélia Duncan, Mônica Salmaso, Luciana Mello, Patrícia Marx e outras.
As letras são geniais, vide a abertura com “Ave dor Maria”: ‘Mulher é o mal que Lúcifer bota fé: Quando achou primeiro ovo do cão ; Ela chocou ; Cru, Belzebu ; do caldo fez um pirão ; Foi o pão que o diabo amassou ; e ela assou”.

 

O curioso é que “Estudando o Pagode” não é um álbum de pagode. Assim como “Estudando o Samba” não é um disco de samba. O mais próximo de situar os dois ritmos é a impressionante “A Volta do Trem das Onze”, onde Tom Zé cita vários personagens de Adoniran Barbosa para pedirem a implementação do sistema ferroviário no Brasil. Coisa de gênio mesmo.

 

“Estudando o Pagode” é um álbum que merece ser ouvido com toda a atenção do mundo, de preferência com o encarte na mão. Tom Zé, que está perto de completar 90 anos, é um artista indispensável da música planetária. Fico feliz que ele tenha desfrutado do sucesso ainda em vida. E me sinto um privilegiado por ter visto vários shows dele.

 

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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