O grande momento do Capital Inicial

A última canção gravada pelo Capital Inicial a despertar meu interesse foi lançada há vinte e dois anos. “Quatro Vezes Você”, faixa do álbum “Rosas e Vinho Tinto”, o oitavo do grupo, composta pelo vocalista Dinho Ouro Preto e Alvin L. Acho bacana, gosto da letra e o riff de guitarra é interessante. Ainda que tenha feito sucesso, ela foi um tanto eclipsada pela fraca versão que o Capital fez para “De Música Ligera” no mesmo álbum, intitulada “À Sua Maneira”, um raro caso de “re-cover” de uma canção. Explico: originalmente composta pelo grupo argentino Soda Stereo, “De Música Ligera” foi vertida para o português primeiramente por Herbert Vianna, no álbum “Nove Luas”, lançado pelos Paralamas do Sucesso em 1996 e, a meu ver, de forma mais bem acabada. Mas este texto não é sobre isso. A ideia aqui é voltar ainda mais no tempo e pousar no primeiro momento da carreira fonográfica dos sujeitos, quando lançaram um compacto duplo pra lá de promissor, que continha “Descendo o Rio Nilo” e “Leve Desespero”. O querido colaborador da Célula Pop, Emerson Giumbelli, escreveu um texto brilhante sobre o primeiro álbum do grupo, homônimo, lançado em 1986 (que você lê neste link aqui) mas a ideia aqui é mapear os primórdios que levaram a este compacto duplo, que lembro de ouvir tocar na Rádio Fluminense FM lá pelo início de 1985 e que deixei para comprar depois, perdendo a chance, pois ele saiu rapidamente de catálogo. A meu ver, essas duas faixas são o que o Capital Inicial fez de melhor em sua carreira.
É importante ressaltar: o Capital Inicial poderia e deveria ser uma banda mais relevante em termos artísticos. Elementos não faltam para isso. Se o início do grupo teve a mitologia das canções que Fê compôs com Renato Russo nos tempos em que faziam parte do Aborto Elétrico (primeiro com André Pretorius, depois com Flávio Lemos), a banda passou a contar com as letras de Alvin L, incorporadas ao espectro do grupo gradativamente a partir de 1989, quando o Capital registrou “Mickey Mouse Em Moscou” e “Belos e Malditos” (esta, ainda uma parceria de Alvin com Renato). Na verdade, o Capital surgiu como uma segunda Legião Urbana, pelo menos no papel, não só pela origem compartilhada – Brasília, Aborto Elétrico – mas pela temática das canções que os outros integrantes do grupo, o guitarrista Loro Jones (a partir de 1982) e o vocalista Dinho Ouro Preto (a partir de 1983), começaram a lapidar junto com os irmãos Lemos. “Descendo o Rio Nilo” e “Leve Desespero” são desse período inicial, quando Fê já compunha as letras sem Renato e o resto do grupo lapidava a parte musical. Não havia uma ordem estabelecida sobre o que vinha primeiro, a letra ou a melodia/arranjo, mas todos trabalhavam juntos em ambos os aspectos. Se parece pouco – e é – para uma banda com mais de quarenta anos de trajetória, elas são duas canções que se inserem entre o melhor do rock brasileiro dos anos 1980.
“Descendo o Rio Nilo” é uma das minhas canções prediletas daquele período. Lembro de ver a performance da banda no programa Mixto Quente, que a Globo exibia a partir de shows gravados ao vivo na Praia do Pepino, na Barra da Tijuca. Junto com a execução em rádio, especialmente nas mais alternativas, a música era sensacional. Fê Lemos compôs a letra sobre algo que já existia previamente, quando o Capital tinha uma vocalista, chamada Heloísa Teixeira. A letra inicialmente era dela, com uma temática completamente diferente. A partir da entrada de Dinho, o grupo aproveitou o trabalho instrumental já feito e voltou a trabalhar numa letra. Fê conta que se inspirou em várias fontes, a saber, o sucesso de “Africa”, do grupo americano Toto e um acidente ocorrido no Rio Nilo, quando um barco virou e os passageiros foram vitimados por crocodilos. A partir daí, vieram versos surrealistas como “A Europa está um tédio // Vamos transar com estilo // Nós só temos um remédio // Descendo o Rio Nilo”. E entra o acidente: “Descendo o Rio Nilo // Eu fico pensando no que você faria // Se tivesse feito aquilo”, com um fecho ainda mais surreal: “Amor de crocodilo // Descendo o Rio Nilo”. A segunda estrofe continuou a inspiração africana com “Estou ouvindo tambores, tremores, vindos da África” e o fecho com a história – verídica – do explorador britânico, David Livingstone, que se perdeu numa expedição que buscava a nascente do Rio Nilo. “Canibais passando fome, cadê o Doutor Livingstone”. Fechou.
Já “Leve Desespero” nasceu diretamente da interação entre os integrantes da chamada “formação clássica” do grupo, já com Loro e Dinho atuando como co-autores e lapidadores da ideia. O início vem novamente de uma letra de Fê Lemos, criada a partir de uma noite em que estava sozinho, num bar em Brasília, pensando na vida e em como poderia fazer para se divertir, coisas assim. Daí vem as imagens de solidão “Então era outra noite num bar // Um copo atrás do outro // Procuro trocados no meu bolso // Dá pra me arrumar um cigarro?” mas nada que seja num grau alarmante. O próprio Fê Lemos admite que poderia estar se referindo a situações como timidez “Não saio do meu canto // As paredes me impedem // Eu só queria me divertir // Já estou vendo TV como companhia”, sendo este último verso a primeira contribuição formal de Dinho numa canção do grupo. Talvez hoje não faça tanto sentido um “leve desespero”, no sentido estrito do termo, mas funciona se pensarmos nesse aspecto da tristeza como algo que pode alienar alguém da realidade, um “leve desespero que me leva daqui”, ou seja, que sequestra a atenção da pessoa.
As duas faixas foram o cartão de visitas do Capital. Antes de virarem um compacto, “Leve Desespero” e “Descendo o Rio Nilo” deram as caras, respectivamente na trilha sonora de “Areias Escaldantes” e na coletânea pau de sebo “Os Intocáveis”, respectivamente, ambas lançadas pela CBS. Era um método considerado seguro pelas gravadoras naquele tempo – lançar uma faixa numa compilação, ver se ela tem um bom desempenho e, a partir daí, investir num compacto ou num álbum. O Capital chegou à segunda fase desse percurso com o compacto. A produção das duas faixas ficou a cargo de Liminha e Leoni, uma dupla que havia trabalhado junta no primeiro disco do Kid Abelha, “Seu Espião”, lançado em 1984 e que teve várias faixas estouradas nas rádios. A ideia era que Liminha trouxesse a expertise no estúdio e Leoni entrasse com as sensibilidades pop necessárias para aparar a abravisividade que o Capital parecia trazer no seu pacote. Engraçado notar que o compacto não foi nada bem sucedido em termos comerciais. A banda reclamou da pouca atenção da CBS no processo de produção e divulgação e rescindiu seu contrato, indo para a Polydor, que topou lançar o primeiro disco. Com isso, “Leve Desespero” foi regravada e contou com a produção de Marcelo Sussekind e Bozo Barreti. E “Descendo o Rio Nilo” permaneceu como um “deep cut” do Capital até ressurgir no segundo disco do grupo, “Independência”, devidamente regravada.
Ainda que os registros dos primeiros discos do grupo sejam bem feitos e cumpram seu papel, as versões originais das faixas, lançadas naquele mitológico compacto de 1985, ainda são o ouro mais brilhante da discografia do Capital Inicial. A banda tem outros momentos bacanas, claro, mas enfatizo duas coisas: essas duas faixas são a sua grande contribuição para o rock brasileiro e, sim, o Capital deveria ter feito mais e melhor em sua trajetória.
Em tempo: a versão de “Descendo o Rio Nilo” de 1985 fez parte também no terceiro volume da coletânea “Back To New Wave”, lançada em 1995.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
