Afghan Whigs está de volta com mais um discaço

The Afghan Whigs – Soft Control
37′, 10 faixas
(BMG)
(5 / 5)
O Afghan Whigs é, a meu ver, a banda mais perigosa e ameaçadora a surgir no rock americano dos anos 1990 para cá. A mente imprevisível do guitarrista e vocalista Greg Dulli, cérebro pensante por trás do som do grupo, é o fator de desequilíbrio – para o bem e para o mal – e a razão para esta impressão ser tão forte. Ao longo de uma carreira instável, o AW lançou alguns dos discos mais notáveis dos anos 1990, criminosamente esquecidos em meio a obviedades e superficialidades apropriadas daquele tempo. Obras como “Congregation” (1992) e “Gentlemen” (1993), por exemplo, são diferentes de tudo o que era feito nos usa à época e apontavam para direções estéticas insuspeitas que, infelizmente, não foram levadas adiante, especialmente as ligações com a soul music, estilo que sempre influenciou Dulli. Com o fim da banda em 1999 e a retomada das atividades em 2012, após um show como grupo de apoio do rapper Usher, no festival South By Southwest, o Afghan Whigs segue em sua retomada com este maravilhoso, impressionante “Soft Control”, seu quarto trabalho lançado desde então.
Dei uma pesquisada e achei duas resenhas minhas, publicadas no Monkeybuzz, sobre os álbuns “Do To The Beast” (2014) e “In Spades” (2017), ambas com cotação 8 de 10. O álbum de 2022, “How Do You Burn”, foi o segundo colocado na nossa lista de melhores álbuns internacionais da Célula Pop naquele ano. Ou seja, o nível dessa produção de retomada do grupo é altíssimo. Dulli, que além do AW integrou Gutter Twins e Twilight Singers, ambos ao lado do amigo Mark Lanegan, está em forma vocal exuberante, aceitando com inteligência as limitações que vão surgindo com a idade. Mesmo um pouco mais vulnerável em suas performances, ele consegue incorporar o passar do tempo como um elemento poderoso dentro do contexto de suas canções. Ele declarou em entrevista recente ao The Guardian, que suas letras não são sobre punição, mas sobre aceitar consequências dos atos. Uma olhada nas obras prévias da banda vai apontar uma quase obsessão com este tema, aplicada ao amor, aos relacionamentos, e a questões de vida, morte e permanência. Nada no universo do Afghan Whigs é ensolarado, fofo ou simpático, pelo contrário. É tudo sombrio, sinistro, noturno, documentado nas vielas do mais under dos grounds possíveis. Além disso, a morte do parceiro e amigo de tanto tempo, o assombra disco adentro.
“Soft Control” reserva algumas novidades e surpresas dentro desse universo estético do grupo. Há acenos, por exemplo, a uma leveada meio de rock clássico, talvez um rockabilly em câmera lenta, permeando o arranjo de “My Lover”. A voz de Dulli aparece modificada por efeitos, quase como se fosse um Elvis Presley do multiverso da loucura. As guitarras, do próprio Dulli e de Christopher Thorn, são especialmente incendiárias por aqui. A introdução com canto de pássaros, violões dedilhados e efeitos, que acabam dando em um solo de trompete em “Mariah Lusher”, confere um tom fantasmagórico e de tensão quase insuportável, que vai aumentando à medida que a canção avança, num mosaico impressionante de sons. E ainda tem uma aura country de danação total assombrando “Memphis, Texas”, que soa dolorida e sentida, mas nada parecida com o que convencionou associar ao estilo nos tempos mais recentes.
É um disco que não traz qualquer momento ruim. Já na faixa de abertura, “Jungle Roux”, numa típica levada afghaniana, na qual o clima e a tensão vão sendo construídos aos poucos, o ouvinte já é arremessado para estes cantos sombrios e escuros dos becos da nossa existência. “House Of I”, já vai por um caminho de percussão e guitarras crocantes, que vão caminhando juntas até os vocais chegarem com força e não saírem mais do espectro sonoro. “Duvateen” já tem piano, levada que tem muito do soul pop dos anos 1970, com Dulli mostrando seus dotes de cantor de black music, algo que é muito raro em gente de sua geração. Aqui ele mostra porque é melhor que toda a escola de vocalistas roucos surgida a partir do grunge noventista, mas isso é assunto para outra conversa. Falando em balada e cantos escuros da existência, temos uma autêntica diatribe da banda em “The Deepest Part Of The Darkest Shadow”, na qual a melodia doce esconde uma letra de constatação da inevitável verdade de um fim de relacionamento. Aqui Dulli segue com seu quase falsete, algo lindo de se ouvir. Em “77” ele percorre uma melodia que, de alguma forma obscura, parece com algo que Bruce Springsteen poderia ter feito se buscasse uma proximidade com a soul music imemorial. “Loose Talk” é outro momento belo e dolorido, com explosões melódicas em todos os cantos, abrindo caminho para o fecho do álbum, com a bela e climática “A Simulation”, que evolui de uma introdução no melhor modelo Eno/Lanois de abordagem sonora para um verdadeiro palanque existencial. Intenso.
“Soft Control” é outro disco intenso, belo e extremamente bem feito que o Afghan Whigs coloca na praça. Dá pra dizer que sua produção pós-hiato já é melhor que sua fase áurea nos anos 1990? Ainda não consigo responder a esta pergunta com clareza, mas afirmo que este álbum já está na nossa lista de melhores do ano. É inevitável.
Ouça primeiro: o disco todo.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
