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Ludovic brilha em novo álbum

 

 

 

Ludovic – Ludovic
42′, 11 faixas
(Balaclava)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

 

“Eu me impus essa missão//Por mais um dia eu vou existir//E me mantive vivo por um triz”. Este é Jair Naves esgoelando-se à frente do Ludovic após vinte anos. “Desde Que Eu Morri”, a segunda faixa de “Ludovic”, é uma porrada rock como há muito, muito tempo eu não ouvia por aqui. Não que o rock tenha estado ausente das produções nacionais, não é isso, mas o que Naves e os integrantes da banda oferecem aqui é um espécime desconcertantemente eficaz, tradutor de angústias que vão do âmbito sentimental ao existencial em questão de segundos, só pela inflexão da voz ou pelo timbre das guitarras. Tem peso, muito mais lírico e urgência urgentíssima, tudo encapsulado num arranjo que amplia o pós-punk cinzento dos anos 1980 e o traz sem cerimônias para 2026, num dos porões mais esquecidos da alma. Engraçado falar sobre coisas tão opressoras e sinistras como algo positivo, mas poder exorcizá-las num tempo atual, com verdade, intensidade e risco é tudo o que precisamos. Não dá pra acharmos que está tudo bem, que “é assim mesmo”, que os bombardeios morais, sentimentais, profissionais e existenciais são normais. Ou, se forem mesmo, que tenhamos direito a gritar de raiva e por não concordarmos com nada disso. E esse disco do Ludovic está proporcionando a oportunidade perfeita para sairmos por aí gritando. Isso é ótimo.

 

O Ludovic traz, além de Jair, Zeek Underwood e Eduardo Praça, integrantes da chamada da formação “clássica”, e o baterista Rodrigo Montorso. Ouvir as canções deste, que é o terceiro disco da banda, remonta diretamente à origem do título do trabalho anterior, “Idioma Morto” (2006): as letras do Ludovic seguem, talvez mais que há vinte anos, falando um idioma que ninguém fala. Se na época o contraste era com bandas emo, suas mensagens e letras rasas como um pires, agora, é com praticamente tudo o que se ouve no Brasil. A angústia que surge desse reinante sorriso-conformidade com o impossível e o insuportável é manancial forte, pronto para ser liberado. As onze canções que a banda traz agora formam, juntas, a senha para, como dissemos acima, exorcizar essas questões. E não há como não observar a evolução sonora do grupo nessas duas décadas. Se “Servil” (2004) e “Idioma” eram crus em suas propostas, esse “Ludovic” é maravilhosamente polido, com uma sonoridade sob medida para dar as molduras adequadas para as letras de Jair. Arrisco dizer que elas são o que de melhor ele fez em sua carreira, seja com a banda, seja solo.

 

Não há como falar desse álbum de outra forma que não seja exaltando som e letras. O que temos aqui é um mix bem feito e equilibrado de Television, Joy Division, Sonic Youth, Hojerizah e vários outros grupos que fizeram e refizeram o pós-punk e o bom rock de guitarras ao longo dos tempos. As palavras que Jair escreve e canta atingem duramente questões como solidão, rompimento, exploração – em diversos níveis – capacidade de reação, perplexidade, finitude e a dificuldade de viver num mundo em que sensibilidade e delicadeza são encarados como fraqueza. Tudo isso é jogado numa centrífuga de raiva e reação, da qual saem as canções. Na parte melódica e musical, Zeek e Eduardo, assim como Rodrigo, colaboram muito para que a sonoridade seja de excelência em sua adequação ao que é dito e cantado. O que era uma abrasão quase anárquica nos dois primeiros discos, de mais de vinte anos atrás, hoje se traduz numa banda totalmente senhora do seu jogo. Essa sensação gera uma confiança ainda maior no que é ouvido, meio que lastreando tudo e confirmando a total necessidade da catarse que as letras trazem. Não são canções para serem ouvidas e entristecer, o efeito é reação, reconhecimento, indignação. É tudo necessário.

 

Não há faixa para se pular ao longo do álbum. A já citada “Desde Que Eu Morri” é a primeira de uma procissão de gritos. A letra fala de resistência às adversidades, abrindo espaço para a cratera emocional que é “Pedestal”, na qual um relacionamento é dado como morto em versos como “Derrete o ouro da aliança//vende por quanto quiserem pagar//Eu quis me salvar de ti”. Já em “Marja”, o amor é tão forte e intenso que acaba vitimando, tal qual mariposa na luz da lâmpada, com um instrumental que vai crescendo e engolfando tudo que vê pela frente. Já “Nenhum Carma” é outra maravilha de guitarras cortantes, que vão caminhando ao lado de uma letra que vai falando “Sem segredos, sem receio//seu ódio por mim se desfaz//seu corpo no meu se desmancha”. “Dilúvio de Dinheiro Algum” é um brado anti-aparências, ostentação e capitalismo tudo junto (“Dilúvio de dinheiro algum//vai maquiar sua pequenez”, confirmando que o dinheiro não compensa pobreza de espírito. “Irmã Pólvora” é outra canção sobre amor doentio, na qual a voz de Naves surge quase sussurrada por baixo da barreira instrumental, falando sobre arrependimento e constatações do que não deveria ter acontecido. “Reina” é mais pesada ainda, com um instrumental mais próximo dos anos 1990, falando novamente sobre amor e ódio num relacionamento que foge do controle, meio como se não houvesse outro jeito de lidar com o sentimento se não fosse com as consequências – boas e más – dele. “Urge” meio que sintetiza essa noção (“Tem alguém que me persegue a ponto de em mim habitar”), mostrando dessa dança no fio da navalha que é viver um amor. “Me Incendiar” mostra como o Ludovic consegue produzir música em algo nível. O arranjo vai em alta velocidade, com Jair bradando “Finca meus dois pés no hoje, no presente//São muitas as recordações de que eu fujo) e o fim do disco, com “Verniz” é mais uma sacudida no ouvinte, introduzida por “Transbordam em mim cicatrizes de ser feliz”, novamente juntando os dois lados do amor.

 

“Ludovic”, o disco, é uma joia de sinceridade cortante. Seja na vulnerabilidade, seja na coragem de assumir as intensidades e imperfeições do que se sente. E, por assumir que sente algo mesmo que doa, constranja e destrua. É uma bomba contra o momento atual, é música de risco, confessional. Não ouvia algo assim há muito, muito tempo. Parabéns a todos os envolvidos.

 

Ouça primeiro: tudo. Absolutamente tudo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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