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Novo álbum de Mauricio Pereira é emocionante

 

 

 

 

Mauricio Pereira – O Dia da Girafa
40′, 12 faixas
(Tratore)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

Considero Mauricio Pereira um gênio. Desde que conheci seu trabalho com Os Mulheres Negras, ao lado de André Abujamra, lá por 1993, percebi que estava diante de um artista raríssimo. Pouco tempo depois, Mauricio iniciou uma carreira solo das mais elegantes e lançou um álbum chamado “Na Tradição”, que trazia uma canção chamada “O Pinguim”, até hoje, seguramente, uma das mais sensacionais criações de um artista brasileiro nos anos 1990. Agora, 31 anos depois, Pereira está na área novamente, com “O Dia da Girafa”. Nestas três décadas solo, Mauricio foi encontrando seu espaço artístico, entendendo como sua própria criação funcionava e deixando de lado as tentativas de soar comum aos ouvidos de um público nivelado por baixo. Foi preciso o florescimento de uma geração de músicos paulistanos nos anos 2000 para que seu trabalho “esquisito” fosse valorizado por sua essência. De uns tempos pra cá, ele encontrou um espaço só seu, o de uma espécie de cronista surreal de cotidiano paulistano em que realidade e fantasia se misturam numa lógica própria. Ainda que algumas pessoas o conheçam como “o pai do Tim Bernardes”, Mauricio Pereira, repito, é um gênio por si só. Seu mais novo álbum, “O Dia da Girafa”, coroa esse encontro consigo e com sua arte, trazendo canções tão singelas quanto fortes, que emocionam pelo simples fato de serem como são. Tortas, líricas, ingênuas, sábias. Vejamos.

 

Uma das fotos de divulgação de “Dia da Girafa” traz Mauricio deitado num piso de cerâmica fragmentada que é o que o carnavalesco Milton Cunha definiu como “a imagética do subúrbio”, ou seja, algo que traduz uma situação totalmente cotidiana para muita gente. No caso de Pereira, sua presença diante de algo assim dá a dimensão exata de como sua obra se posiciona – aquela observação surrealista que permite ver nuances e aspectos ocultos sob o manto da repetição, da realidade e da mesmice diárias. É algo tão sutil que parece totalmente distante de qualquer universo de familiaridade, mas, repito, o que Mauricio canta está lá, no dia a dia de muita gente e as pessoas só percebem depois de ouvir suas palavras. É um mecanismo muito sutil, quase circense, que maturou ao ponto da perfeição em “Dia da Girafa”. Para a produção do álbum, foi recrutado Biel Basile, companheiro de Tim Bernardes e Guilherme D’Almeida n’O Terno e, talvez pela familiaridade, o resultado é o melhor trabalho de Mauricio Pereira. Nunca ele soou tão confiante com suas letras e melodias, nunca os arranjos e concepções foram tão adequados à sua verve.

 

Todas as canções do álbum são sensacionais. Não há faixa a pular, correção a se fazer. Logo no início, na inacreditável “Uma Vida Standard”, que tem o verso “sou Walter Stuart ou um peixe chamado Wanda”, numa letra que também tem “Eu sou qualquer corpo de um metro e setenta” ou “Sou espírito santo na porta de entrada, nas casas pequenas da beira da estrada”. Essas palavras são a dimensão do que iremos ouvir adiante, essa exaltação do que parece esquecido, oculto ou renegado nas pessoas mais comuns. Depois vem a lindeza que é “Casamata de Amoreiras”, a canção que tem parceria com Romulo Froes, mais uma observação sobre o dia a dia, no qual cabem pensamentos sobre “esbofetear um samba” ou “pra encaixotar paixão, hoje vou deixar queimar o bolo” e “eu não quero entender jamais que o amor possa ser algo mais”. Em “Nuvens, Nuvens, Nuvens”, um instrumental que remete à seresta, às tradições mais brasileiras e urbanas que lembramos, vem a observação singela dos flocos brancos que boiam no céu e que abrem espaço para pensamentos mais aleatórios – “as nuvens, nuvens, nuvens e, sobre as nuvens, mais nuvens”. O roquinho jovenguardista de “Eu Trago O Coração Vazando” é lindeza leve e mostra a adaptabilidade das letras de Mauricio a vários invólucros sonoros.

 

A faixa-título vem com a explicação de que, ocorrendo no dia 21 de junho, se trata do mais longo no Hemisfério Norte. É o início do verão por lá, mas Mauricio lembra dos intermináveis dias dos tempos da pandemia de covid-19, quando o álbum foi composto. Em seguida, “A Professora de Melancolia”, uma das coisas mais geniais que ouço em muito, muito tempo. “A professora de melancolia, senta no piano pra tocar um blues…”, num instrumental minimalista, pianístico, antigo e novo ao mesmo tempo. Em “Alfabetiza”, uma linda, bela canção, com arranjos de vocais que parecem flutuar no espaço, Mauricio vai discorrendo amores, cores, animais, tudo que parece boiar num caos, mas que encontra uma sequência coerente em sua prosa. O trocadilho de “Um Facho de Luz Cobre” esconde uma melodia belíssima, num arranjo ainda mais bonito, em que a letra vai (des)orientando o ouvinte por caminhos em que as palavras e as imagens vão se dobrando sobre si mesmas, numa observação de um quadro inundado pela luz num exato momento. É a crônica de um átimo de segundo transformada em canção, eternizada de um jeito inesperado. Em “Quanta Barbaridade” há espaço para uma “manada de avestruzes em Mogi das Cruzes”, em meio a uma paisagem que vai escrutinando os absurdos das “barbaridades sob as barbas da cidade”. Por fim, o segundo single do álbum, “O Leme é um Lugar Genial”, gravado junto com a Espetacular Charanga do França, sobre a pontinha de Copacabana, “se eu tô no Leme eu estou me achando (…) se eu tô no Leme eu tô me achando”. Encerrando o disco, a versão dedilhada de “Uma Vida Standard”, que abriu o álbum, realçando ainda mais a força da letra.

 

Não há outro jeito de definir “O Dia da Girafa” sem gritar que é um disco ímpar. Algo emocionante, chapliniano para o momento atual do Brasil. Que ele seja preservado dos números, clicks, algoritmos e views, que seja natural e inevitavelmente amado pelo maior número de pessoas possível e impossível também. Ouça, apenas.

 

Ouça primeiro: tudo. Várias vezes.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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