Fergie e o meu molar
Depois de décadas mantendo um sorriso discreto, mas que não faria feio em um comercial de pasta de dente, meu molar direito superior resolveu que era hora de romper o contrato. A dor chegou com aquele aviso sutil de que, em breve, eu estaria pagando o preço pelo meu agora reconhecido sucesso dentário histórico. O plano de saúde, como é costume, me empurrou para a realidade do “se vira”. Resultado: fui parar em um consultório no centro de Niterói que parecia menos uma clínica e mais um set de filme sobre um dentista que parou no tempo.
O ambiente era o que podemos chamar de “rústico-acanhado”. Na parede, frases motivacionais tentavam me convencer de que “o sucesso é uma jornada”, enquanto eu só queria que a minha jornada terminasse em um tratamento de canal. Na mesa, um Funko Pop falsificado — dele mesmo, o dentista! — me observava com seus olhos de vinil, como se soubesse que ali a ciência estava em segundo plano. Não sejamos esnobes: longe de nós menosprezar iniciativas populares de saúde bucal, que são essenciais e muitas vezes a única ponta de lança do acesso ao tratamento.
E foi aí que o absurdo se instalou. A cadeira estava alinhada perfeitamente com uma TV LCD velhusca, e lá estava … Fergie em seu “auge”, contracenando dramaticamente com o ator Milo Ventimiglia no clipe de “Big Girls Don’t Cry”, sucesso do tempo em que ainda não havia Whatsapp. Só podia ser – e era – um mau presságio. Enquanto a Fergie e o Milo viviam seu drama cinematográfico na tela, o doutor acompanhava cada verso com um fervor digno de um show de estádio, deixando a minha arcada dentária em um segundo plano trágico. Treze minutos depois, a performance acabou. Quando foi que se tornou comum colocar uma TV na frente do paciente em desespero? Será que pensam que vai melhorar o terrível barulho dos aparatos odontológicos? Mas, e o diagnóstico? Nenhum. Resolução? Zero. Saí de lá com o molar ainda gritando e em dúvida se o dentista ou a Fergie – ou ambos – eram responsáveis por isso.
A redenção veio quilômetros depois, em uma clínica que mais parecia um centro de comando da Enterprise. A sala de tomografia era tão tecnológica, tão Star Trek, que eu esperava que o operador se materializasse no estilo “beam me up, Scotty” e saísse de lá com um uniforme da Federação. O exame de precisão cirúrgica revelou o meu dente com detalhes que nem o Google Earth conseguiria processar. O problema: o plano não cobria esse exame, o que me custou preciosos e suadíssimos caraminguás.
No fim das contas, descobri que meu dente tem uma arquitetura complexa demais para quem gasta o tempo de atendimento decorando os passos de dança de um clipe com o Milo Ventimiglia. Às vezes, a gente precisa transitar entre o amadorismo rústico e a precisão sci-fi, só para ter certeza de que, sim, a realidade é um absurdo — e que, talvez, certas trilhas sonoras devessem ser proibidas em consultórios.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

O dente pedia um canal, o dentista entregou Fergie.
Exatamente.