White Denim faz rock para o nosso tempo

White Denim – 13
48′, 13 faixas
(Bella Union)
(4,5 / 5)
Eu já devo ter dito isso em algum lugar aqui, na Célula Pop, mas, nunca é demais repetir: fazer rock em 2026 é ser capaz de misturar tudo e soar inteligente. O White Denim é mestre em fazer isso e soar absurdamente moderno, sem abrir mão de ser uma “banda de rock”. Seu líder, James Petralli, vocalista, guitarrista e cérebro pensante, é um sujeito inquieto e genial, capaz de inserir referências de soul, funk, Rolling Stones, dub, reggae, tudo ao mesmo tempo e soar sensacional, sem aquela impressão de caos e desordem que tal mistureba pode sugerir, caso não seja feita com calma e noção. Lembra um pouco as bandas do início dos anos 1990, Faith No More à frente, mas sem o elemento metal, algo que dá um enorme ganho ao som praticado pelo White Denim. Em comum com aquela galera noventista, há uma admiração por Frank Zappa, pelo caleidoscópio sonoro possível, pela abordagem progressiva não solene, com zero fadas e feiticeiros. O som do White Denim tem a ver com referências atuais, urgentes, instigantes e com um pendor considerável pela anarquia. Repito, sempre com atenção ao som e à melodia. O último álbum, “13”, é uma aula de como soar rock, moderno e melodioso em pleno caos de 2026.
Sempre que surge uma banda ou artista com esses atributos, fazemos questão de destacar e exaltar essa capacidade de mistura. Porque, em plena terceira década do século 21, com mais de oitenta anos de cultura pop, é impossível dar conta de tantas referências geradas ao longo desse tempo. É igualmente impossível não misturá-las, reciclá-las, refazê-las de um jeito muito mais vigoroso e indispensável do que, por exemplo, nos anos 1970/80. Essa informação serve para os mofados e mofadas de plantão, que pensam que rock é ser pós-punk ou pós-led zeppelin em pleno 2026. Bem, nada impede que seu artista preferido seja adepto dessa lógica, mas a gente exige e pode querer mais. Sendo assim, voltando ao White Denim, trata-se de uma banda totalmente adepta dessa lógica volátil, misturável e informada. A música que é produzida por Petralli e sua turma é mutante, viscosa, muito boa. Em “13”, o White Denim, como dissemos, promove um painel sonoro em que nada é exatamente o que parece. Há híbridos de funk, soul e soft rock, bem como de levadas à la Rolling Stones que parecem atrasadas e modificadas meio sem querer, mas tudo é intencional. E, por trás disso, as melodias que tanto fazem a nossa delícia.
E há também senso de humor. Em “Quiet Moment”, por exemplo, a penúltima e ótima faixa do álbum, em que a banda mais parece um bando de alienígenas tentando tocar e interpretar uma balada de Smokey Robinson (imagine bem esta descrição), após a canção acabar, lá pelo terceiro minuto, a impressão que se tem é que os microfones ficaram ligados sem querer, e ouvimos tudo o que acontece depois, conversas, ruídos, sons estranhos. Isso serve como aquela expectativa que temos após um filme acabar e não sabemos se vai ter cena pós-créditos. Pode parecer detalhe, mas, dentro dessas normas rígidas e algorítmicas que estão ditando padrões, considero uma bem-vinda dose de irreverência. Mas, claro, “13′ vai muito, muito além de um “disco bem humorado”. Tem coisas bem sérias e interessante ao longo de todas as canções presentes aqui. A começar pela primeira faixa, “(God Created Lock And Key”, que é um mutante stoneano grooveado, que bandas como o Black Keys dariam tudo para fazer. O groove é sensacional, a voz de Petralli parece possuída e as guitarras soam como tempestade, destacando a impressionante habilidade do baterista Matt Young.
A grande diversão presente aqui é a fusão de influências e estilos. “Only A Fool”, por exemplo, tem muito de soft rock, mas parece totalmente pervertida por grooves que vêm e vão, guitarradas cortantes e viradas soul/funk aqui e ali. Em “Crossfyre” a coisa cai mais no terreno da black music, algo natural para o White Denim, com uma pegada que tem muito de soul, com participação de Adryan de Leon, que faz um papel meio soul diva, absolutamente necessário no arranjo. Em “Keep Calling Me (Baby)” o White Denim faz uma bela e torta incursão no terreno do reggae, com belezura e certa anarquia, como não poderia deixar de ser, abrindo caminho para a baladinha de FM estilizada que é “Earth To”, também imersa em águas jamaicanas, mas de um jeito totalmente diferente. Em seguida, saímos do clima preguiçoso sob o sol e adentramos uma dobra temporal em que o rap ainda está engatinhando. Em “That’s Rap” há um pouco de bandas como Cameo em meio a uma ambientação em que nada é o que parece ser. “Ruby”, o grande single do álbum, é puro Rolling Stones do início dos anos 1970, sem tirar, nem por. Aerodinâmica, pulso e fluidez estão presentes em doses certas, abrindo caminho para mais soul setentista, dessa vez em “Matchbook Baby”, que é linda e ponto. “Drive Trucks”, outra beleza de pendor soul, fecha os trabalhos.
“13” é maravilhoso. Disco que deve ser ouvido com fones e muita calma, em busca dos caminhos e detalhes deixados pela banda em cada faixa. O White Denim é uma dessas bandas sensacionais, que estão levando o rock adiante. Se você não conhece, venha se esbaldar.
Ouça primeiro: “Ruby”, “Matchbook Baby”, “Quiet Moment”, “(God Created) Lock And Key”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
