O irmão caçula do 7 x 1
A campanha do Brasil na Copa 2026 encerrou-se com o melancólico 2 x 1 para a Noruega. Antes, a seleção venceu Japão (com dificuldades), a Escócia e o Haiti, empatando com Marrocos na estreia. Nenhuma partida realmente boa, dependendo demais de lampejos de jogadores como Vini Jr e com fragilidade defensiva clara, era questão de tempo até a eliminação. E hoje, contra a Noruega de Haaland, o Brasil fez, não só sua pior atuação na Copa, como uma das piores de todos os tempos, jogando como um time acovardado, no contra-ataque, diante de uma seleção de segunda prateleira da Europa. Ou seja, nos apequenamos e fizemos um jogo que pareceu um irmão mais novo do 7 x 1 contra a Alemanha em 2014. O que aquela partida teve de emblemático em termos de gols e superioridade técnica, esta teve em contornos que extrapolam o campo e vão em todas as direções. Aqui a gente pede licença para falar de tudo um pouco, desde a tática e as escolhas, passando pelo frenesi alucinatório da cobertura “especializada”, chegando em vários destinos possíveis, mas com a mesma situação – não somos o “país do futebol” há, pelo menos doze anos, ou três copas. Simples assim.
Como diria o veterano candidato Eymael, havia sinais da eliminação brasileira na Copa do Mundo. Um olhar mais dedicado poderia detectá-los há muito tempo, mas, para não sermos polêmicos em excesso, vamos fixar o marco zero na convocação dos jogadores. Ali, em meio a um espetáculo que parecia completamente descolado da realidade que a seleção apresentara nas últimas copas e nas próprias eliminatórias e amistosos recentes, em meio a um Museu do Amanhã fechado para a ocasião, o técnico Carlo Ancelotti anunciou os jogadores para a disputa. Entre eles, neymar, que vinha fazendo um Campeonato Brasileiro errático e marcado por contusões cíclicas. Mesmo assim, Ancelotti e a comissão técnica o convocaram, deixando de fora jogadores que poderiam oferecer mais opções e possibilidades para o time. Tudo bem, ainda que tenha sido irritante e inexplicável, a presença de neymar parecia agradar a todos, menos aos que insistem em ver alguma lógica nas coisas. Como um jogador com contusões crônicas e incapaz de fazer seu time, o Santos, vencer no Brasileirão e na Copa Sulamericana, poderia ser eficaz contra a elite do esporte? E mais, por que Ancelotti, um homem vencedor e contratado a peso de ouro pela cbf, concordara com isso? Pois então, eram alguns dos “sinais”.
Acompanhamos o jogo pela globo, por pura falta de opção. A Cazé TV, outrora uma iniciativa bacana, foi encampada por um mercantilismo predatório que, ainda que seja a regra, é extremamente irritante em quem que se arroga o epíteto de revolucionário e diferente. Não tem nada de diferente, a menos que a gente ainda se espante com alguém mandando um “foda-se” ou um “pra caralho” em alguma fala. A Cazé TV, na verdade, popularizou algo que fere de morte a regra mais básica da cobertura esportiva – a neutralidade. Com locutores e comentaristas torcendo enfaticamente, acompanhar as partidas é tarefa hercúlea, algo que é ainda mais notório diante do cacoete que todos os narradores de lá têm: o berro. Exceto por Fernando Nardini, recém-integrado à equipe, todos, sem exceção, berram, gritam, urram a ponto de estalar os tímpanos do espectador. Se tornou impossível assistir as coberturas com o volume minimamente ligado, nos obrigando a ver os jogos sem som. É melhor. Sem falar no time de comentaristas, aparteadores, todos parecem saídos de um playground no Leblon dos anos 2000. Para não invalidar totalmente a iniciativa da Cazé, é preciso fazer justiça a uma das melhores comentaristas em atividade no país – Amanda Oliveira. Torço para que ela saia de lá em breve e vá para o UOL. Na globo, a orientação dada aos locutores deve ter ido na mesma direção da Cazé, ou seja, torcer abertamente e dane-se. Everaldo Marques, outrora bom narrador, esteve irreconhecível na sua transmissão do jogo de hoje. Ao lado dos lamentáveis Denilson Show e Ana Thaís Matos, Everaldo exagerou no pachequismo. Aliás, ninguém entre o time de comentaristas – que incluiu ainda o Maestro Junior, que, como comentarista é um querido ídolo rubro-negro – lembrou da ausência de Lucas Paquetá ou criticou a entrada de neymar em campo, decisão que causou o colapso do time e a consequente derrota. Falaram timidamente no final, mas como bons engenheiros de obra pronta.
A derrota brasileira foi total. Absoluta. Incontestável. Em nenhum momento o time ameaçou os noruegueses e, mesmo quando teve algumas chances de gol, a incompetência era total. Bons jogadores como Vini Jr, Endrick, Bruno Guimarães, Rayan, falharam. Além deles, um tom blasé, conformado, numa postura reativa que não está no DNA do futebol brasileiro, pelo menos não diante de uma Noruega, com todo o respeito. Ancelotti, incontestável, errou já ao convocar neymar e morreu abraçado a ele quando o colocou em campo. Com isso desestruturou o lado direito do Brasil, tirando Rayan. Com neymar, já sabemos, o time perde um marcador e, no futebol de hoje, todo mundo tem que marcar. E foi por ali que a Noruega criou os dois gols, feitos pelo incrível Haaland, um centro-avante de excelência, que estava sendo zoado por aqui como sendo a loura do Tchan ou uma personagem do filme “As Branquelas”. Deu no que deu – nas duas chances que teve, o gigante nórdico fez os gols do jogo e decretou o resultado. Mais do que justo.
Para as pessoas que compraram camisas da cbf, a Copa chega ao fim. Ainda bem. Agora a gente pode ver os jogos com mais calma, sem a euforia alienada e alienígena que ganhou a mídia. O time do Brasil era tratado como um protagonista, um favorito ao título. Em que pese a camisa, a própria presença de Ancelotti – mais famoso que todos os jogadores da seleção juntos atualmente – jamais fomos candidatos sérios. Isso foi informado apenas por coberturas jornalísticas sérias, como, por exemplo, a do time do UOL. Juca Kfouri, José Trajano, Mauro Cézar, Eduardo Tironi, Arnaldo Ribeiro, Danielo Lavieri, PVC, Casagrande e Luiz Oliveira não deixaram de fazer excelente jornalismo como se deve: informativo, sério, isento e pró-verdade. São um verdadeiro oásis da cobertura esportiva por aqui.
A Copa continua e estamos na torcida por Marrocos. Que ele tenha boa sorte. Pelo menos, vai para as quartas de final. Na última Copa, foi quarto colocado. É uma seleção mais forte e interessante do que a nossa. De longe. Pelo menos, a “era neymar” chega ao fim do jeito que merece: com confusão, cartão amarelo, entrada desleal, provocação ao goleiro norueguês e pressuposição de que um indivíduo é mais importante que a seleção. O torcedor brasileiro médio e o neymar morrem abraçados.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
