Neymar, Anitta e a Amazônia

 

Para grande parte da população brasileira, Neymar e Anitta são dois exemplos de jovens bem sucedidos, certo? Ambos emergiram das camadas menos favorecidas da sociedade brasileira, chegaram à fama e à riqueza através das profissões que escolheram para si – jogador de futebol e cantora, respectivamente – e já foram vistos dando uns amassos por aí. São dois ídolos, no sentido de despertar e inspirar pessoas. A mídia, claro, é responsável por isso e tal ação movimenta engrenagens poderosas da indústria cultural e do próprio capitalismo neoliberal. Anitta e Neymar são importantes para muita gente, felizmente ou não. Pois com a atual crise internacional gerada a partir das queimadas na Amazônia, várias personalidades internacionais manifestaram sua preocupação/indignação sobre a questão.

 

Celebridades de diferentes calibres: jogadores de futebol como Cristiano Ronaldo e Mbappé. Atores e atrizes como Viola Davis e Zoe Kravitz. Artistas da música como Ryuichi Sakamoto, Fito Paez, Gal Costa, Tiê, entre vários outros. Gente comum, sem fama ou dinheiro, todos preocupados com o que ocorre por trás das queimadas e da inadmissível permissividade do governo atual em relação às exigências do agronegócio e das forças que se moveram para colocá-lo no poder. Neymar e Anitta, como ídolos, figuras visíveis, nem que fosse a título de demonstrar sintonia com o que acontece no mundo, deveriam opinar a respeito, certo? Pois, enquanto seu colega de PSG, MBappé, emitia um tweet com a hashtag #prayforamazonia, Neymar publicava um anúncio de relógio, claro, estrelado por ele. Anitta, por sua vez, emitia o parecer de que “mais do que apurar culpados, era necessário buscar soluções”. Depois, em vídeo, ela tentou consertar e disse que “não adiantava gerar empregos, ser rico porque, sem oxigênio, as pessoas morrem e o dólar fica sozinho, voando. Quando acabar o oxigênio, todo mundo morre, o rico, o pobre”.

 

 

 

 

A despeito do constrangimento inerente às duas posturas, vamos tentar entendê-las. Ricos e despreocupados, Anitta e Neymar, sim, precisam de oxigênio para respirar, mas não se enxergam como participantes desta crise, que, repito, é mundial. Também não se trata de cobrar de pessoas notoriamente desvinculadas de situações mais extremas, uma postura. Porém, é bom lembrar que Neymar já foi visto manifestando apoio a políticos, especialmente o deputado federal Aécio Neves e o atual presidente da república. Recentemente foi convidado a visitar Israel pelo próprio presidente e pelo primeiro ministro do país criado pela ONU em 1947, Benjamin Nethanyahu. Anitta, por sua vez, costuma falar de política com … isenção.

 

Por sua origem e pela música que faz, a conexão da moça com as origens populares é imensa. Símbolo de empoderamento feminino, ela tem potencial para prestar grande serviço nas causas feministas e poderia fazê-lo sem envolvimento direto. Para muito, ela até desempenha este papel, mas, por trás de um suposto – ainda que discretíssimo – engajamento, Anitta parece preocupada apenas consigo. Ela é uma máquina de gerar dinheiro e, apesar de soar simpática e até interessante como cantora, deixa muitíssimo a desejar como cidadã. Sempre isenta, ela não assume uma tendência política mínima, ao contrário de Neymar. Talvez ela até pense de forma progressista, inclusiva, mas seu silêncio é terrível omissão. Parece que, como a maioria da classe artística, Anitta tem medo de perder patrocínios e benesses de uma mídia que se alinhou ao atual presidente.

 

Como figuras midiáticas, Neymar e Anitta precisam também se alinhar. Como ricos – e isso é importante aqui – ambos exibem uma postura correspondente ao que se espera deles. Geralmente, pessoas assim são despreocupadas e, se não forem minimamente inteligentes, realmente acreditam que vivem num mundo à parte. Como brasileiros, entretanto, é alarmante o descaso com que tratam do assunto. Mesmo que haja pessoas no próprio governo que parecem não se importar, como o próprio ministro chefe da casa civil, que disse “ter coisas mais importantes para discutir do que a Amazônia”, não é algo que se possa aceitar simplesmente. E também não dá pra aceitar a postura supostamente engajada de pessoas que votaram no atual governo. Sabiam com quem estavam lidando. Isso serve para os milhões que se abstiveram, que poderiam ter mudado o rumo das eleições presidenciais.

 

Portanto, a questão da Amazônia tem a ver, diretamente, com uma situação provocada pelo atual governo. Posicionar-se é assumir um lado. Talvez ambos “não queiram confusão”, uma vez que são funcionários de uma indústria midiática que tem compromisso com o que temos hoje. E a floresta, os índios e os animais, coitados, vão nesse pacote nefasto.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 comentários em “Neymar, Anitta e a Amazônia

  • 24 de agosto de 2019 em 07:30
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    Meu amigo, que texto fantástico!!!! Não há reparos a fazer, somente te aplaudir.

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    • 26 de agosto de 2019 em 07:42
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      Obrigado, meu caro! Vamos em frente!

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