JARV IS – Beyond The Pale

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 40 min
Faixas: 7
Produção: Jarvis Cocker e Jason Buckle
Gravadora: Rough Trade

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Jarvis Cocker é um desses literatos do rock, mas especificamente, do rock inglês. Ex-líder do Pulp, possivelmente a banda mais crítica e ácida do chamado britpop, Cocker é também um intelectual, um cara cuja opinião vale a pena ser ouvida. Após batalhar por espaço à frente de sua antiga banda, amargar anos antes de estourar na leva de grupos que vieram nos anos 1990 e, sobretudo, tentar uma carreira solo que ficou aquem das expectativas, ele parece ter encontrado um veículo de expressão para suas palavras. JARV IS é uma banda, um combo, um grupo de pessoas a orbitar o gênio, com a missão de fornecer – e realizar – ideias, molduras, arranjos, tudo o possível para que tenhamos, enfim, boas, ótimas canções brotando deste terreno. “Beyond The Pale”, primeiro trabalho dessa gente, é um acerto no alvo dessa pretensão literária aplicada ao rock, dessa erudição mundana inserida na realidade. É, sobretudo, um desses retratos que o rock faz de si mesmo, uma avaliação, uma olhada no espelho.

 

O que é legal nesta nova empreitada é a absoluta liberdade da qual Jarvis parece desfrutar. À frente de uma formação que traz seis músicos, ele surge, ao mesmo tempo, livre de influências mais manjadas dos tempos do Pulp, mas, ao mesmo tempo, imerso totalmente nelas, e fazendo uso de novas formas. Por exemplo, sua voz segue evocando uma versão mais nova de Leonard Cohen ou algum derivado cosmopolita, enquanto sua musicalidade retorna a um ponto interessante: a dance music. Dá pra lembrar, sem esforço, do tanto de dance music que estava presente na maçaroca sonora de discos como “Different Class” ou “This Is Hardcore”, certo? Trabalhos emblemáticos daquela sonoridade múltipla, pensante e ampla que caracterizava o Pulp em seus últimos momentos. Aqui, no entanto, Jarvis mergulha numa fusão de pop eletrônico, com letras e climas que enfatizam seu lado de crítico do cotidiano. A imagem recorrente, novamente, é a do velho Cohen em sua pele oitentista, brincando com sonoridades eletrônicas.

 

A diferença é que Jarvis está muito mais à vontade neste meio. Ele lida com isso há tempos, sabe o tamanho do espaço de que desfruta. Em “Am I Missing Something?”, ele vem com “do something new or do something else!” como um chamado de mudança e descrença. Em alguns momentos, como em “Must I Evolve” – a impressionante segunda faixa – ele alterna momentos de recital da letra – com passagens como “Estou de volta às cavernas da sua mente” – com pequenos e controlados frenesis dançantes, que surgem obcecados e neuróticos. “Save The Whale”, a primeira faixa, uma das primeiras amostras divulgadas do disco, já traz os vocais femininos – outra marca do Cohen oitentista/noventistas – em choque com a voz grave de Cocker e a programação eletrônica que parece executada a partir de um curso por correspondência do Instituto Musical Brasileiro, claro, de forma intencional.

As outras faixas – é um disco curto, com apenas sete – seguem o mesmo ritmo de fusão dançante-cerebral-crítica. E tem momentos maravilhosos por todos os cantos. “House Music All Night Long” é uma metáfora sobre atravessar a noite ouvindo as coisas apropriadas, enquanto percebemos o mundo – “Eu estava ouvindo house music a noite toda, e o dia todo também, esperando você chegar”. É como se Cohen tivesse assumido os vocais dos Pet Shop Boys e lhes cortado um pouco do orçamento no estúdio. Soa levemente kitsch, outra instância que Jarvis/Pulp também lidou no passado. “Sometime I Am Pharoah” lida com uma obsessão de Jarvis em relação a estátuas e ao comportamento das pessoas em lugares considerados sagrados – igrejas, talvez museus. “Swanky Modes” evoca sonoridades lounge e voz sussurrada para versos do calibre de “I can resist gentrification/But I cannot resist temptation”, abrindo espaço para o fecho épico com “Children Of The Echo”, que mistura Bryan Ferry de baixo teor e Pulp intencionalmente sem peso.

 

“Beyond The Pale” é uma dessas declarações temporais de um estado de coisas, no caso, da nossa vidinha mundana mais ou menos, mas, aqui, neste caso, a banalidade escrutinada na mesa é britânica, justo por um de seus mais implacáveis observadores. Este disco é uma espécie de “Parklife” sem rock, maduro, cínico, descontente e desconcertante. Um acerto no alvo.

 

Ouça primeiro: “Must I Evolve”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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