Garbage: politizado e interessante

 

 

Garbage – No Gods, No Masters

Gênero: Rock alternativo

Duração: 83 min.
Faixas: 19
Produção: Butch Vig
Gravadora: BMG

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

 

 

Eu tenho uma teoria sobre o Garbage. É uma banda que só fez sentido enquanto houve o elemento surpresa. Explico: quando surgiu, em 1995, o Garbage tinha dois pontos de atração: ser a banda em que Butch Vig, o produtor de “Nevermind” e outros discos emblemáticos atuava como baterista e pensador sônico e, a partir do momento que estreou em disco, o veículo para a beleza unânime de Shirley Manson. Claro, uma safra especialmente boa de canções fez do primeiro disco do grupo um dos destaques da década, especialmente “Vow”, “Stupid Girl”, “Only Happy When It Rains” e “Queer”. Poucos anos depois, com o ainda bom “Garbage 2.0”, o nível caiu mas ainda dava pra se divertir. Quando chegou o terceiro disco, “Beautiful Garbage”, já no século 21, o frescor e novidade do grupo – pelo menos para mim – havia desaparecido. Isso não quer dizer que o Garbage passou a fazer discos ruins, pelo contrário. Mas significa que o interesse, a curiosidade, a magia, algo se perdeu. E ainda não foi agora, com este “No Gods, No Masters”, que o grupo consegue provocar esta sensação boa.

 

Novamente, o álbum não é ruim, mas ele mantém a média de trabalhos burocráticos e medianos que o Garbage inaugurou justo com “Beautiful Garbage”. Ainda que o grupo tenha ventilado declarações sobre uma apropriação de elementos oitentistas – de Roxy Music e Talking Heads – a sonoridade que surge por aqui é o mesmo rock alternativo-industrial noventista, devidamente processado para 2021, com letras que atacam o sistema e nisso está o diferencial que este disco pode ter. Há alguns momentos em que a narrativa de Shirley é realmente feroz e isso é algo a ser celebrado, visto que a vocalista é figura ativa nas redes sociais e já provou ser bastante engajada em questões feministas e igualitárias. E, sim, seu talento vocal permanece intacto e sutilmente favorecido pela passagem do tempo, conferindo um verniz de respeito e responsa para a vocalista, que continua a ser um mulherão da porra.

 

E como um bom disco que não é ruim, só não é genial, “No Gods, No Masters” tem momentos que valem a audição. É justamente quando o Garbage não inventa referências alheias e cai com força na sonoridade que o consagrou. De cara dá pra citar “Wolves”, provavelmente um dos rocks mais legais do ano, se tudo seguir como vai. Aerodinâmica, arrojada e barulhenta, a canção é pulsante e perfeita para perder a noção numa das pistas de dança imaginárias de durante a pandemia. Há mais para ver neste terreno: “The Creeps” é outra maravilha pulante e rápida, com bateria em altíssima velocidade e guitarras que surgem como pequenos trens desgovernados, com Shirley em plena forma. “Anonymous XXX” é outro bom momento, com um clima diferente das outras canções, talvez mesclando a musicalidade do Garbage às tais influências oitentistas que os integrantes andaram falando. Aqui a coisa é mais classuda, tem percussão e um arranjo que entremeia as guitarras características com teclados aveludados.

 

“Flipping The Bird” é uma interessante fusão do ideario garbageano com um invólucro que remete ao New Order. Novamente as guitarras originárias do quarteto temperam o arranjo, mas a bateria e o teclado – que imita o baixo que Peter Hook celebrizou há tanto tempo – entregam o jogo. E a faixa-título, que clama por um mundo com mais igualdade em meio a uma levada tecnopop dançante e bem feita, também é um ponto alto. O disco tem circulado por aí numa versão dupla de luxo, o que mais prejudica do que facilita. São mais oito canções, das quais só se salvam duas covers – surradas – de “Starman” (Bowie) e “Dancing Barefoot (Bruce Springsteen), que nada acrescentam, mas não causam bocejos como nas faixas autorais, que nem duetos com John Doe (do X) ou Brian Aubert (do Silversun Pickups) salvaram.

 

“No Gods, No Masters” é como a maioria dos discos do Garbage é: boa, mas que acaba nos levando a reouvir o primeiro trabalho da banda, este sim, atemporal e sensacional.

 

Ouça primeiro: “Flipping The Birds”, “Wolves”, “Anonymous XXX”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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