Fontaines DC – Dogrel

 

Gênero: Rock
Duração: 39 min.
Faixas: 11
Produção: Dan Carey
Gravadora: Partisan
5 out of 5 stars (5 / 5)

 

O rock, meus caros e caras, não morre. De estilo musical passou a estado de espírito, que pode ser traduzido – ou não – sob a forma de guitarras/baixo/bateria, 1-2-3-4 hey, ho, let’s go. Mas, quando ele encontra alguém que o faça desta forma, ainda é insuperável e pode/deve causar felicidade instantânea quando é reconhecido. Este é o caso de “Dogrel”, o inflamável disco de estreia dos irlandeses Fontains D.C. São onze faixas em 39 minutos, prontas para ganhar seu coração de diversas formas. Tem esporro, tem melodia, tem grito, tem canto, tem instrumental eficiente, tem boa produção e tem, acima de tudo e todos, autenticidade, herança, tradição/novidade, tudo junto. Rock é isso, não dá pra escapar.

 

Quem resumir o Fontains DC ao ataque guitarreiro estará cometendo um pecado. Não que o quinteto não tenha poder de fogo, pelo contrário. É uma de suas características principais e fica evidente logo na abertura, com “Big”. A habilidade dos sujeitos em confeccionar belas melodias e climas, dentro da lógica do rock rápido e enguitarrado é, no entanto, sua melhor característica. A dinâmica de “Television Screens” é a maior prova disso: linha de baixo sinuosa, vocais e guitarras numa montanha russa sob controle e a bateria pontuando as idas e vindas do carrinho sobre os trilhos. É uma dessas faixas que fazem a gente sorrir, a despeito das agruras desta vida miserável.

 

Fontains DC (que significa Dublin City) está na ativa desde 2017. Em meados de 2018 chegou ao disco, via singles e começou a construir uma fiel base de fãs em sua cidade natal. A músicas dos sujeitos tem forte vínculo com sua terra, algo que é sempre louvável e sensacional. A Dublin de hoje, pequena mas briosa, com gente de vários cantos da Europa e do mundo, que foram para lá em busca de alguma perspectiva, é o contrário do que houve no século 19, quando irlandeses buscavam o Atlântico como saída do terror católico e governamental que a Ilha Esmeralda vivia então. A julgar pela pujança das canções que o grupo oferece, Dublim é uma bela musa, controversa ainda, como diz o primeiro verso do disco, abrindo “Big”: “Dublin sob a chuva é minha, uma cidade grávida com mente católica”.

 

O Fontaines DC é Grian Chatten (vocais), Carlos O’Connell (guitarras, piano), Conor Curley (guitarras), Tom Coll (bateria) e Conor Deegan (baixo). Grian é desses vocalistas que têm a herança do rock em suas cordas vocais. Ele soa como John Lyndon, Mark E. Smith e Liam Gallagher, dependendo da situação. E tem a sinceridade dos irlandeses em suas frases e versos, algo que é uma característica deste povo quando se aventura no rock. As canções, como já disse, são pequenas obras de arte. Elas variam do ataque total, como em “Hurricane Laughter” para a doçura sob a chuva, caso explícito de “Roy’s Tune”. Elas podem ter um inegável pedigree irlandês, como “Liberty Belle”, que soa como se os Pogues reencarnassem sem o instrumental típico. Também podem ser épicas como “Boys In The Better Land” ou, em casos extremos, assumirem a aparência de uma balada testemunhal/dylanesca que fecha discos perfeitos, como “Dublin City Sky”.

 

Se tudo der certo, Fontaines DC é a banda de rock do ano e vai adiante, levando seu punk irlandês contemporâneo e autêntico adiante. A banda já está em turnê por várias cidades europeias e pretende chegar aos USA ainda neste semestre. Fico na torcida por um iluminado que os traga aqui enquanto ainda não são famosos mundialmente, o que é uma questão de (pouco) tempo. Ouça, ame, prestigie o rock de verdade. Não as Gretas Van Fleets da vida.

 

Ouça primeiro: “Boys In The Better Land”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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