Electric Light “Disco” Orchestra – 40 anos de “Discovery”

 

 

Estamos numa avalanche celebratória de lançamentos fonográficos. A cada dia, álbuns fazem aniversários “redondos” – 20, 30, 40, 50, 25 anos – e a gente vai lembrando. Em alguns acasos, vamos tentando fazer justiça. É o caso deste texto que você começa a ler agora, que visa dar a glória e a belezura que “Discovery”, álbum lançado pela Electric Light Orchestra em 1979, merece. Não tenho qualquer problema em dizer que este é meu disco preferido de Jeff Lynne e seus acepipes (ou seriam asseclas?), indo de encontro ao que fãs “sérios” da banda pensam. Para eles, os primeiros trabalhos, mais imersos nas influências de Beatles e rock progressivo, são os mais dignos de lembranças e saudações efusivas. Entre a crítica especializada, no entanto, nenhum é. A ELO é um patinho feio para os “entendidos” em rock, que desprezam a melodia, a beleza e a engenhosidade do trabalho de Lynne como músico, guitarrista, compositor e produtor. Não importa, o cara é um talento historicamente reconhecido por gente como os Beatles, Bob Dylan, Tom Petty, Roy Orbison, Del Shannon, a lista é enorme.

 

Havia um trocadilho entre os integrantes da própria ELO às vésperas do lançamento de “Discovery”, que era chamado de “Disco very”. O motivo? É um disco cheio de acenos estéticos à disco music vigente na época. Não é um movimento estranho a bandas e artistas de rock e outros estilos, visto que muita gente, de Paul McCartney a James Brown, passando por Bee Gees, Blondie e vários outros, flertaram com o batidão dançante setentista. Poucos, no entanto, fizeram isso de forma tão exuberante e natural quanto a ELO em “Discovery”. É impreciso dizer que o álbum é inteiro de canções com débito de influências à disco music. Há baladas mccartneyanas – outra especialidade de Lynne – presentes ao longo do álbum, além de um pequeno épico beatle-psicodélico, mas as faixas dançantes são maioria. E são todas muito legais.

 

Logo de cara o ouvinte é apresentado ao que se propõe o álbum. “Shine a Little Love” tem teclados espacais, bateria esfuziante e riffs de cordas que deságuam numa levada funkeada gorducha e simpaticíssima. No refrão há vocoder, palminhas, mais cordas e uma influência de Abba. Tudo fazendo sentido e funcionando perfeitamente. A canção seguinte, “Confusion”, é uma balada em midtempo, novamente emulando a influência dos suecos, temperando-a com baladas mais clássicas, pendendo afetuosamente para os ritmos mais lentos. A melodia é irresistível e flerta com o exagero e a breguice extremos, saindo-se muito bem. Há teclados, efeitos de bateria, mais vocoder, tudo muito povoado de detalhes, mostra que Lynne se divertia loucamente na pilotagem de estúdio. A faixa seguinte, “Need Her Love” é totalmente impregnada de timbres e ambiências que não seriam estranhas num disco de George Harrison. Aqui há contenção de efeitos em favor de uma melodia belíssima, que cabe num arranjo de cordas, piano e banda. Talvez seja a canção mais bonita – não necessariamente a mais legal – do disco.

 

A partir daí, uma sequência de tirar sorrisos do fã de música que se interessa por arranjo e composição das faixas no estúdio. “The Diary Of Horace Wimp” é herdeira direta do que os Beatles fizeram de “Magical Mystery Tour” pra frente, um épico cheio de efeitos, sobre timidez de um sujeito – o tal Horace – que encontra o amor no meio de seu cotidiano atribulado. É tudo perfeito nesta faixa, algo que se pode dizer também da insuperável “Last Train To London”, que vem logo após. Com uma linha de baixo clássica, feita, porém, num sintetizador, e cheia de ganchos disco, ela é um colosso. Fez sucesso por aqui na época, lembro bem. “Midnight Blue” é outra baladona clássica, com falsetes, cordas e mais vocoder, talvez seja a mais linear do álbum. “On The Run” é uma mistura maluca de disco music com new wave, duas influências que parecem separadas por séculos de distância, mas que convivem harmoniosamente aqui. “Wishing” é outro exemplo de faixa em midtempo, com efeitos diversos, mais vocoders e uma melodia que parece perder o espaço para as mirabolâncias de estúdio, rompendo um equilíbrio que é uma das características de “Discovery”. Fechando o álbum, um clássico da banda: “Don’t Bring Me Down”, misto quente perfeito de rock e disco, com levada roqueira soterrada por espírito kitsch e um refrão que entrega os pontos da pose rocker sob o globo da pista de dança.

 

“Discovery” fez muito sucesso comercial em seu tempo. É um trabalho único da ELO, que ainda flertaria com algo da disco music na trilha sonora de “Xanadu”, lançada no ano seguinte, mas já em 1981, embarcaria numa onda mais “tecnoprog”, em seu álbum “Time”, confirmando o deslumbre de muitos músicos setentistas com as facilidades e a tecnologia de estúdio dos anos 1980. Mesmo diferente, Lynne ainda conseguiria fazer canções legais por todo o catálogo da ELO, até seu disco de 2001, “Zoom” e, mais recentemente, como “Jeff Lynne’s ELO”. Recentemente ele voltou a excursionar e vem lotando estádios ao redor do Hemisfério Norte. Nunca, porém, nem em seus momentos mais “clássicos”, a ELO foi tão legal, divertida e bela como em “Discovery”. São 40 anos com corpinho de 20, no máximo.

 

 

OBS: “Discovery” foi relançado em 2001 – como toda a discografia da ELO lançada pela Columbia, com uma faixa-bônus irresistível: uma versão para “Little Town Flirt”, sucesso dourado de Del Shannon. Esta adição faz do disco algo ainda mais sensacional.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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