Beleza e tristeza no retorno de Alison Krauss e Union Station

 

 

 

 

Alison Krauss & Union Station – Arcadia
36′, 10 faixas
(Down The Road Records)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Nos últimos três, quatro anos, tivemos uma espécie de boom na country music. Seja por superstars da música pop olhando para o estilo – como Beyoncé, por exemplo -, seja por artistas mais jovens e bacanas – como Kacey Musgraves ou Orville Peck. É um tal de gente, que nunca se aventurou com mais profundidade nas águas lamacentas e emotivas, falando sobre country music que chegamos a pensar que o referencial das agruras, reverberações e beleza próprios dela mudou para com os dias presentes. Até que chega Alison Krauss, uma das cantoras mais talentosas em atividade no planeta, e coloca um pouco de ordem na casa. “Arcadia” é o primeiro álbum que ela grava com sua banda Union Station em quatorze anos e recoloca o coração e o sentimento nos lugares próprios da country music. Este hiato é pouco se lembrarmos que a estreia de Krauss e sua turma data de 1989, quando lançaram “Two Highways”, num período em que o estilo era mais conhecido por uma pantomima canastrona que adulterava o que há de mais importante nele – a capacidade de conexão com uma beleza maior que a vida, uma reflexão dos dias e dos relacionamentos em meio à vastidão geo-emocional inexplicável que parece contida em letras e melodias surpreendentes. De alguma forma, essea conexão está presente em “Arcadia”. Senão vejamos.

 

Talvez vocês se lembrem do ótimo filme “O Brother Where Art Thou?”, dirigido pelos irmãos Coen e lançado no ano 2000, com George Clooney e John Torturro no elenco. Este longa foi responsável por uma revisita/reavaliação de uma forma mais “autêntica” de country music e pela reapreciação do bluegrass, uma variação do estilo, que chegou a tornar-se um fenômeno pop nos Estados Unidos, com o surgimento de várias bandas dedicadas a reprocessar os fundamentos básicos. Não por acaso, Alison e sua banda lançaram um belíssimo álbum dentro desse clima de “new old country”, intitulado “New Favorite”, que, em meio à onda de outra revisita correlata de então, o alternative country, fez com que seus nomes entrassem nesse mapa de jovens artistas em ação pela releitura de um estilo tão caro aos americanos e aos ingleses. O fato é que Alison também conseguiu ter uma carreira solo e seus talentos sedimentaram-se no período e ultrapassaram as fronteiras americanas, chegando aos ouvidos de Robert Plant, que a convidou para dividir um álbum consigo, o belíssimo e essencial “Raising Sand”, que fez com que a moça subisse para uma prateleira ainda mais alta.

 

De lá para cá, Alison Krauss só grava o que gosta. Dá pra dizer que, ao lado de Lucinda Williams, esta, um verdadeiro totem, são as mais importantes cantoras de country music em atividade no planeta. E também é possível notar muito de Lucinda no trabalho desenvolvido pela própria Alisson, tanto na interpretação dolorida das canções, tanto pelos vocais límpidos e cheios de técnica. Ao lado da Union Station, é possível cravar que Krauss oferece um banquete de belíssimas canções. “Arcadia” marca a volta de Alison aos estúdios após ela e Plant terem gravado um segundo álbum maravilhoso, “Raise The Roof”, que saiu em meio à pandemia de covid-19, em 2021. Mesmo que suas colaborações com Plant sejam marcantes, é ao lado da Union Station que Krauss encontra sua melhor forma e se sente em casa. As dez canções deste novo trabalho são econômicas, não deixando espaço para nada que não seja absolutamente essencial.

 

Há canções absolutamente belas, que misturam os temas mais pungentes do country e do bluegrass – perda, desilusão – com a alienação moderna e a falta de noção dos tempos atuais. De vez em quando, surge a voz de Russell Moore, que entrou há pouco na banda, fornecendo um belíssimo contraste com Krauss, em alguns vocais principais. E tem Dan Tyminski, guitarrista, que segue firme, fornecendo muito do arcabouço sonoro que ouvimos ao longo do álbum. Há faixas que falam de um passado mítico, como “Granite Mills”, sobre um caso verídico de morte de mãe e filha pequena em meio a um incêndio em 1874. Ou como “Richmond On The James”, sobre as últimas palavras de um soldado da Guerra de Secessão, ou ainda “North Side Gal”, com banjos e rabecas furiosas. E há o presente desabitado de belíssimos e tristes momentos como “There’s A Light Up Ahead” ou como “Looks Like The End Of The Road”, mas Alison atinge seus momentos mais impressionantes na belíssima “The Wrong Way” e “One Ray Of Shine”, cortantes como o vento frio das pradarias.

 

“Arcadia” é um disco maravilhoso. Lindamente gravado, construído em canções belamente arranjadas e interpretadas, ele surge como um artefato imune à ação do tempo, mas que, paradoxalmente, serve para mostrar como é que se trata algo tão clássico como a country music – com respeito, indo e vindo no tempo, sem marketing ou superficialidades. Belezura total.

 

 

Ouça primeiro: “One Ray Of Shine”, “The Wrong Way”, “Looks Like The End Of The Road”, “Forever”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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