Abbey Road Cinquentão

 

 

Ah, The Beatles… A banda de Rock do século 20, a soma de quatro músicos sensacionais, quatro mentes distintas, quatro egos, voltados para a harmonia e a tarefa de fazer música que rompe fronteiras de todos os tipos. Quatro rapazes de Liverpool, cidade portuária no norte da Inglaterra, que poderiam ser estivadores, mas foram parar nas páginas da História. Não é pouco, gente, não mesmo. Para padrões 2014, a carreira deles é assombrosa: Treze discos de estúdio em sete anos de existência. Vários singles, várias versões alternativas, quatro carreiras solo estelares e um número astronômico de lançamentos alternativos, coletâneas, caixas, enfim, uma farra de música e informação para quem deseja se informar sobre os sons do planeta nos anos 1960. Certo, é exagero atribuir tudo a The Beatles. Houve The Beach Boys, The Rolling Stones, The Who, Motown, Stax, Jazz Rock, Funk, um sem número de estilos e bandas importantes. Falar de Beatles, no entanto, é como examinar a primeira experiência de um grupo musical com paradas de sucesso, exposição da mídia, fortuna, piração esotérica, egolatria total, perda, morte, autodestruição. O som desta banda desintegrada após sete anos na rodinha da gaiola de hamster chamou-se Abbey Road.

 

Lançado no fim de 1969, meses antes de Let It Be, este disco documenta o último momento de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr no estúdio que dá nome ao álbum. Lá, devidamente chancelados pelo produtor George Martin à frente de uma equipe de engenheiros e técnicos (que incluía Geoff Emerick, Alan Parsons, entre outros), os quatro tiveram chance de experimentar sonoridades pela última vez. Mesmo que Abbey Road não seja tão criativo como Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) ou Revolver (1966), nem tão polêmico quanto White Album (1968), ele tem o seu principal mérito em traduzir com perfeição o que eram os integrantes da banda na época, bem como o formato de canção usual e o de canção experimental, na forma de faixas interligadas, conceitos ocultos, autorreferências e tal que compunham o leque de possibilidades do grupo no estúdio. É um disco que traz mais dicas sobre como os quatro se comportariam em suas carreiras solo, que se iniciariam quase ao mesmo tempo.

 

Mesmo sendo o último registro de uma banda em frangalhos, consta que havia animação e desejo por parte de Paul em fazer um álbum “como nos velhos tempos”, ou seja, com os quatro participando da criação das canções no estúdio. McCartney sempre pareceu o beatle mais comprometido com o futuro produtivo do grupo, algo que muitos interpretam como uma posição de controle total sobre os outros. Lennon e Harrison discordavam disso, mas não vinham apresentando nada muito consistente, com o primeiro descobrindo as possibilidades de aliar protesto político e ativismo social e o segundo cada vez mais imerson nos ensinamentos da meditação indiana. Ringo Starr vinha como sempre, o amigo comum dos três, o músico dedicado e subestimado, o boa praça, cada vez mais necessário em tempos bicudos. De qualquer forma, Abbey Road conseguiu captar criações importantes dos quatro beatles e cravá-las para sempre. Além disso, sua capa icônica, cheia de interpretações amalucadas por parte dos fãs, também mostrou o quanto era importante um lançamento de um disco em 1969. O tanto de amplidão que se obteve a partir da ideia de agrupar músicas num disco de vinil. Aquilo era muito mais que canções pop, era um atestado de vida.

 

O antigo lado-A do LP obedece ao formato mais convencional, ou seja, traz canções com duração normal, cuja composição é dividida entre os três, com Ringo assinando e cantando a simpática Octopus’s Garden. Harrison assina duas canções, mas, pelo amor de Deus, são Something e Here Comes The Sun somente. A primeira, escrita para sua esposa, Patti Boyd, é considerada uma das mais belas canções de amor de todos os tempos. Seu verso inicial é inspirado em Something In The Way She Moves, de James Taylor, então contratado da Apple Records, a gravadora dos Beatles. Something é aquela música que Frank Sinatra disse ser a mais bela canção já escrita por Lennon e McCartney, numa escorregadela que marca bem o dilema de George Harrison à época: compositor exemplar, guitarrista criativo e talentoso, além de excelente pessoa. George suava para emplacar suas canções nos discos da banda. Era nítida a sua evolução ao longo do tempo, mas Paul e John não deixavam George se esparramar. Ele já tinha canções em grande quantidade e foram todas parar em seu primeiro álbum pós-The Beatles, All Things Must Pass, lançado em 1971, cuja faixa título já existia desde 1969, sendo rejeitada para entrar em Abbey Road. A outra canção de Harrison no disco, Here Comes The Sun, simplesmente é um dos momentos mais belos da música popular desde que surgiu. Arranjo, letra, execução, produção, tudo funciona de tal jeito que ela poderia ser tocada todas as manhãs num imaginário serviço de comunicação global para sempre.

 

John e Paul respondem pela maior parte das canções do disco, como de costume. Lennon surge com uma safra interessante de músicas e letras, ainda que inferior ao que apresentara no White Album. Aqui estão Come Together, faixa de abertura, que mostra o quanto Ringo Starr é genial como baterista, além de trazer um clima subreptício blueseiro pouco comum na obra da banda. Ele ainda assina I Want You (She’s So Heavy), um arraso sonoro de quase oito minutos de duração (canção mais longa já gravada pela banda) em meio a um turbilhão de desejos e maluquices cantadas sobre duas canções abortadas. Há solo de guitarra, andamento hipnótico, sintetizadores Moog, frases desconexas e um final abrupto, cuja explicação está em duas hipóteses: a fita teria acabado ou John teria mandado cortar exatamente naquele momento, sem uma explicação aparente. A terceira canção de John é a belíssima Because, cheia de efeitos e vocais ampliados via uso primitivo dos recursos disponíveis no estúdio. Ao longo de cinco dias e quase 24 horas de gravação, a música foi concluída, mostrando o nível de perfeição exigido pelos quatro, até mesmo no último disco da banda. No futuro alguém ainda dará o devido valor a essas experiências pioneiras.

 

Paul McCartney, no entanto, é a grande estrela do disco. Suas canções mantém sua média de acertos, cabendo a ele duas criações mais “normais”: a belíssima Oh Darling, com arranjo de canção clássica dos anos 1950, que os quatro ouviam nos radinhos de Liverpool e Maxwell’s Silver Hammer, na qual, supostamente, ele exerceu seus poderes de “diretor musical” do grupo, submetendo o trio restante a três dias de gravações e excentricidades, que resultaram em quase nada. Macca acreditava que a canção seria um sucesso, algo que jamais aconteceu. O grande mérito de Paul foi ter convencido Lennon a cooperar na construção do Lado B de Abbey Road, que traz um acachapante encadeamento de canções mais ou menos curtas, numa tapeçaria sonora que guarda a psicodelia típica da banda (Sun King, Polythene Pam e Mr.Mustard, canções de John) e a mistura com o lirismo baladeiro/Blues que se insinuara com o tempo, caso de You Never Give Me Your Money/Carry That Weight/The End ou na impressionante She Came Through The Bathroom Window, todas compostas e pensadas por Paul. O resultado é único e talvez seja, em termos criativos, o ponto mais alto da carreira da banda. Dá pra imaginar o que poderia surgir em hipotéticos novos álbuns num futuro que se tornou do pretérito.

 

Aos 50 anos de idade, Abbey Road pertence à categoria das obras de arte atemporais. É, ao mesmo tempo, um culto ao conceito do álbum de música, ao Rock como força criativa e ousada, procurando se comunicar com outras formas de música, entre elas, a erudita, e documenta com precisão o ocaso da maior banda de todos os tempos. Está disponível em todos os formatos possíveis e dentro do seu alcance. Como pessoa pensante é seu dever conhecê-lo e preservá-lo. E torcer para que sejamos capazes de feitos tão importantes numa arte que se transforma tanto em tão pouco tempo. Boa sorte.

 

PS: como parte da celebração do cinquentenário do disco, ele será lançado em várias versões duplas, triplas, em vinil e tudo mais, cheias de sobras de estúdio, versões iniciais, rascunhos, rabiscos e takes de todos os tipos.

 

PS2: Texto publicado originalmente no Monkeybuzz, em 29 de setembro de 2014. Link aqui

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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