O surgimento do Mombojó deixou a imprensa brasileira desnorteada

Nem parece que já faz tanto tempo, mas foi há exatos 22 anos que o Mombojó surgiu para o mundo. Para a imprensa pernambucana, e para este escriba em particular, a banda já era conhecida por algumas pequenas apresentações no Recife, e não se esperava pouca coisa deles. Mas ninguém suspeitava da hecatombe que seria o lançamento do primeiro disco do grupo, “Nadadenovo”. O álbum foi colocado no mercado no dia 23 de maio de 2004, numa estratégia de marketing muito bem sucedida.
O jornalista Silvio Essinger, que já conhecia o som dos caras, costurou um acordo com a “OutraCoisa”, revista do Lobão, e fez a ponte para que “Nadadenovo” fosse lançado encartado na publicação. E a música apresentada no álbum era algo de outro planeta. A idade dos músicos que gravaram o disco girava entre os 16 e 20 anos, e era inacreditável a maturidade sonora do álbum.
Porque o que Felipe S. (vocal e guitarra), Marcelo Machado (guitarra), Vicente Machado (bateria), Chiquinho (teclado e sampler), Samuel Vieira (baixo), Marcelo Campello (violão e violoncelo) e O Rafa (flauta e escaleta) fizeram é algo muito fora da curva.
Anacrônico e basilar, levando a MPB a dimensões jamais vistas até então. “Nadadenovo” é revolucionário e tradicional. É uma atualização de nomes como Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues e Cartola. Ao mesmo tempo que flerta com a tradição, lança novos horizontes e olhares para a música brasileira. “Cabidela”, que abre o disco, é cheia de samples permeando um arranjo tradicional com letra surrealista. “Deixa-se Acreditar”, primeiro hit da banda, é um rock psicodélico feito com instrumentos de samba, com a flauta de O Rafa marcando o ritmo alucinante da canção. “A Missa”, no momento em que a banda embarca num noise frenético, lembra, pasmem, o Radiohead de coisas como “Paranoid Android”. “Nadadenovo” é uma obra que precisa ser ouvida como um todo, pois suas partes isoladas pouco explicam. Lembro que na época do lançamento do disco entrevistei o tecladista Chiquinho, que estava extremamente desconfiado com a unanimidade que o grupo tinha alcançado na mídia. “Às vezes acho que estão tirando onda com a nossa cara”, me disse na ocasião. E não estávamos.
Recordo da dificuldade de muito crítico ao resenhar o disco de estreia do Mombojó. Pouquíssimos conseguiram traduzir o som que o Mombojó fazia. Eu, por exemplo, resolvi fazer arte em cima da arte deles e produzi um texto meio filosófico em que usava o nome das faixas do álbum como parte de um quebra-cabeça de apenas um período, sem parágrafos. Vários colegas fizeram algo parecido. Um que conseguiu fugir à regra foi o Alexandre Matias, na “Folha de S. Paulo”.
Passados vinte anos, hoje enxergo “Nadadenovo” como um álbum repleto de batidas em ritmo de Bossa Nova, que moderniza o samba em arranjos certeiros e futuristas, com muito rock no meio, pitadas de jazz em determinados momentos e uma dose de música autoral que é só deles. Ou seja, conseguiram inventar uma sonoridade única, coisa que pouquíssimas bandas no planeta tiveram a competência de fazer. Ainda hoje é desafiador ouvir músicas como “Adelaide”, “Merda”, “Faaca” e “Baú” e rotulá-las de alguma forma.
Ao vivo a banda, apesar da pouca idade dos integrantes, era excepcional, e eles reproduziam fielmente todas as faixas de “Nadadenovo”. Dos muitos shows que vi deles naquela época, um me marcou em particular. Foi no Teatro do Parque, no centro do Recife, dentro do “Projeto Seis e Meia”, abrindo para Jards Macalé. A apresentação foi tão sublime que deixou Macalé boquiaberto. Sei disso porque, após o show, fui falar com a banda e com o próprio Jards. Ao final da performance de Macalé, ele fez questão de chamar o Mombojó de volta ao palco para tocarem, juntos, “Deixa-se Acreditar”. E funcionou maravilhosamente.
Hoje o Mombojó tem uma carreira mais do que consolidada. Possui um público numeroso e o respeito merecido da crítica. E nós, jornalistas pernambucanos, tivemos o privilégio de ver essa jornada desde o seu nascimento. Sou paulistano, mas tenho um orgulho danado de mora no Recife há mais de 40 anos. Uma sorte arretada!
*Esta coluna é dedicada ao grande músico O Rafa, que faleceu precocemente em 2007, vítima de uma trombocitose.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
