“Appetite for Destruction” – o ponto fora da curva do Guns n’ Roses

Lembro perfeitamente da primeira vez que ouvi o Guns n’ Roses. E foi de maneira completamente inusitada. Em algum dia de 1989, aos 14 anos, eu estava vendo um capítulo da novela global das 18h, “O Sexo dos Anjos”. Eis que, em uma cena de casamento, ouço a guitarra introdutória de Slash em “Sweet Child O’ Mine”. Fiquei completamente aturdido. Naquela época, informação era algo muito difícil de se obter. Pensei em comprar a trilha sonora internacional da novela só para ter a música ao meu dispor e saber quem a tocava.
Fui salvo pelo acaso e por um amigo.
Fábio, o tal amigo, me chamou par ver um show que ele tinha descolado em VHS. Era uma apresentação do Guns n’ Roses em Nova York, e fiquei absolutamente chapado com o que vi. A banda parecia saída de um filme B, verdadeiros revolucionários que faziam um som completamente autêntico e fora dos padrões. Virei fã na mesma hora. A visceralidade dos caras era algo que não tinha visto até então. A voz que parecia saída das entranhas de Axl Rose; a excepcional guitarra de Slash, um sujeito que escondia seu rosto debaixo dos caracóis de seus cabelos; a calma letárgica de Izzy Stradlin; e a cozinha perfeita de Duff McKagan e Steven Adler. Uma semana depois, comprei o vinil do “Appetite for Destruction”. Com dois anos de atraso, uma vez que as novidades gringas demoravam muito para chegar ao Brasil.
O vinil quase fura de tanto que escutei. Era uma porrada atrás da outra. Da abertura com “Welcome to The Jungle”, até o fechamento com “Rocket Queen”, é um disco sem falhas. Um dos melhores da História do Rock, sem exageros. Eles pareciam marginais que gritavam contra tudo e todos: polícia, falso moralismo e etc. Um bando de inconformados que parecia chutar a porta do que era politicamente correto. E eu amava essa postura e queria ser igual a eles: mal vestido, inconformado, sem dar a menor bola para o que os outros pensavam ou achavam de mim. Acho que foi o primeiro grito de rebeldia que dei na vida.
Até hoje “Appetite for Destruction” está entre os meus dez discos preferidos de todos os tempos. O problema é que veio o sucesso planetário, que coincidiu com os dois shows que a banda fez na segunda edição do “Rock in Rio”, em janeiro de 1991. Lembro da ansiedade que foi, para mim, esperar o lançamento dos dois álbuns duplos que compunham “Use Your Ilusion”. E da decepção que foi ouvi-los. A banda tinha se transformado em um produto para as massas. Aos meus ouvidos, o grupo parecia brega na sua tentativa de soar grandiloquente.
Axl Rose era ridículo em sua tentativa frustrada de imitar Elton John ao piano. “November Rain” é uma das coisas mais constrangedoras que já ouvi. A formação da banda naquele momento incluía, entre outras bizarrices, backing vocal feminino, piano, teclados e até arranjos de cordas. Perderam a espontaneidade.
Eu, particularmente, queria minha banda marginal de volta, e não aquele pastiche que tinha virado o Guns n’ Roses. Sem contar que, apesar de muito novo, eu já tinha ficado desencantado pelas posturas
declaradamente racistas e homofóbicas (não existia esse termo na época) declaradas por Axl Rose na infame canção “One in a Million”. No instante em que conheci o “Appetite for Destruction” e seu EP
“Lies”, peguei um dicionário de inglês para traduzir (mal) todas as letras da banda.
“Use Your Illusion” serviu para me libertar do Guns n’ Roses e a começar a me interessar pelo grunge e me aprofundar ainda mais na obra do Sepultura. Ali percebi o quão destruidor pode ser o sucesso. Tudo o que veio depois do “Appetite for Destrucion” é um fiasco, uma leve sombra do que o GNR tinha sido um dia. Mas não vou mentir. A estreia em álbum do Guns n’ Roses ainda me emociona. Ainda desperta o recém-adolescente que existe dentro de mim. Uma nostalgia gostosa da época em que decidi deixar de ser apenas mais um e construir uma identidade e personalidade que poucos entenderam na época.
Depois descobriram o óbvio: era pura fachada para esconder o garoto sensível e inseguro que eu era. Mas que se transformava em um leão corajoso a cada vez que ouvia o disco de estreia do Guns n’ Roses. Apenas por isso, serei imensamente grato aos cinco caras da banda que bagunçaram minha vida.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
