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Kiko Dinucci: Entrevista Exclusiva

 

 

Kiko Dinucci é um dos poucos guitarristas do país realmente sintonizado com o que aconteceu de uns anos pra cá. Ele é fluente na linguagem de Thurston Moore e Lee Ranaldo (Sonic Youth), J Mascis (Dinosaur Jr.) e Kevin Shields (My Bloody Valentine) — microfonias, timbres, ambiências e ruído como linguagem, não como efeito.

 

Em “Medusa”, seu novo disco, Kiko batizou perfeitamente o método: “exugaze”. É samba em estrutura, tempestade em sonoridade — como se Jards Macalé liderasse o Sonic Youth — cinzento, obscuro, saído direto de uma São Paulo meio Blade Runner, onde melodias inocentes perdem o sorriso no primeiro contato com o caos controlado da guitarra. É o mesmo artista que já revolucionou a música brasileira recente no Metá Metá, em “Besta Fera” (Jards Macalé, 2018) e na dupla que reinventou Elza Soares, “A Mulher no Fim do Mundo” (2015) e “Deus é Mulher” (2018), e que agora, ao lado de parceiros como Rodrigo Campos, Romulo Froes (coautor da dilacerante “Como Foi”), Juçara Marçal, Sophia Chablau, Crystal Duarte, Maria Beraldo e um time de ruídos de Lello Bezerra, Podeserdesligado, Cadu Tenório e Arthur de Faria, proporciona um dos momentos mais belos da música brasileira em 2026 com “Medusa”.

 

Conversamos com Kiko Dinucci sobre o disco, sobre fazer da guitarra um instrumento de urgência, sobre samba, ruído, cidade grande e por que a beleza mais terrível é a que fica. Aqui vai o nosso papo.

 

 

– Na concepção sonora de Medusa, eu tive a impressão de que o ruído às vezes funciona mais como carinho do que como agressão. Essa leitura faz algum sentido pra você? Como vocês acharam esse ponto?

KD: concordo, o barulho desse disco é meio aveludado, cremoso. Ele não é focado na dissonância, no choque. Aparece dentro de um sistema bem tonal, quase orquestral e meio épico também. Talvez seja esse o fator mais shoegaze do disco, porque, quando ouvimos o My Bloody Valentine, temos a impressão de levitação, um estado quase de sono, no meio daquela barulheira toda. Uso essa referência do Kevin Shields, mas fujo da ideia de emular o som dele. A minha versão, que cataloguei como Exugaze, é algo que só poderia acontecer no Brasil; tem um certo veneno da síncope, do samba, do cancioneiro popular, brega. É um processo antropofágico de assimilar elementos distintos, Roberto Carlos, Sonic Youth, viradas de bateria de piseiro, e devolver um formato novo.

 

 

– Queria entender como foi dividir a gravação entre sua guitarra e as camadas de fita, sampler e sintetizadores com  Podeserdesligado, o Cadu Tenório e o Paulo Kishimoto. Vocês já entraram com tudo mapeado ou foram experimentando?

KD: eu tenho uma sala de trabalho no bairro da Liberdade. Lá eu tenho minha estação de música, de desenho, acervo de livros, discos, fitas. Foi lá que produzi 80% do disco, ligando as guitarras diretamente na linha. Foi um processo muito solitário. Lá eu experimentei processar a guitarra no sampler, como é o caso da faixa “Faca da Palavra”, na qual eu gravei uma nota longa de guitarra tocada por arco de rabeca, sampleei esse som e transformei em escala cromática; ela é toda tocada nos pads do sampler. Aos poucos eu comecei a vislumbrar que o disco poderia ter interferência de outras pessoas. Cada participação do disco deixou uma assinatura muito forte, cada um contribuiu com a ferramenta que tinha em mãos: sampler, computador, synth, fita. Contribuíram muito pra estética do disco e deixaram o meu trabalho menos solitário.

 

 

– A Juçara Marçal assina a direção do disco e aparece cantando também. O que a direção dela trouxe que você talvez não faria sozinho?

KD: Eu chamei ela pra ser produtora. Ela disse: “Produzir o quê se você já tá gravando tudo sozinho aí?”. Ela achou que não precisava. Daí chamei ela pra ser diretora, conselheira, dar palpites e tal. Foi muito importante, ela deu toques valiosos durante todo o processo. Em 2024, eu tentei fazer um disco eletrônico que não deu certo. Nessa época, ela me avisou inclusive dessas coisas que não estavam funcionando. Depois tentei fazer um disco de Noel Rosa, ela falou pra eu fazer somente com guitarra. Daí eu fui achando a estética de Medusa e segui sem o Noel. A participação vocal da Juçara no disco não é convencional, ela sampleia vozes e toca-as e usa como um teclado, uma orquestra fantasmagórica vocal bem fora da casinha. Foi fundamental a presença dela no disco.

 

 

– Sobre participações – Lello Bezerra, Maria Beraldo, Sophia Chablau, entre outros – eu imaginei que cada convidado mudou a faixa. Foi assim? Você compôs já pensando neles ou a música mudou depois que eles entraram?

KD: Cada um teve um processo, o Lello pegou a faixa quase pronta e botou guitarras loucas que mudaram o rumo da canção. Maria escreveu letra e música comigo num bate-bola. Sophia pegou uma letra minha que parecia um vômito, organizou essa letra e botou a melodia. Negro Leo fez a letra e eu musiquei. Crystal Duarte fez a letra comigo pelo Instagram. Cada um teve um processo e todos foram determinantes.

 

 

– Tem alguma faixa que deu mais trabalho pra fechar e alguma que hoje é sua preferida de ouvir? São a mesma?

KD: Cada hora gosto mais de alguma ou de outra. “Água Viva” foi a primeira que eu fiz, então tenho um carinho especial por ela, porque ela deu o caminho para as demais faixas. A mais trabalhosa foi “Como Foi?”. Gravei no celular, depois essa gravação passou por um processo na fita por Lcuas Pires e depois o Arthur de Faria fez a orquestração. E ainda teve o vídeo da música filmada em película, tudo isso caminhou meio junto.

 

 

– Em “Segundo Eterno” – que eu vi citada também como “Eterno Olhar” pelos versos “o meu olho retratou naquele instante o seu olhar” – eu li que ela foi feita pra peça “Avenida Paulista” do Felipe Hirsch e tem um andamento de samba um pouco mais tradicional. Procede? Como ela foi parar no Medusa e o que a voz da Juçara trouxe pra ela?

KD: Fiz ela como um samba tradicional, assim como “Casca do Olho”. O meu cancioneiro sempre parte do samba. É o grande alicerce da música brasileira, no caminho, vou botando outros elementos e esse samba vira uma espécie de segredo, magia. Essa foi a primeira faixa que Juçara gravou no disco, experimentando essas vozes sampleadas. Não dá pra imaginar a música sem essas texturas.

 

 

– Em “Claudia, Frota e Eu” com o Negro Leo, eu tive a impressão de um samba montado num esquema noise, e com uma letra que mistura beleza e violência direta. Acertei na escuta? Como foi compor essa com ele?

KD: O mote dessa música foi inspirado na faixa “Madonna, Sean and Me”, do Sonic Youth. Fiquei imaginando um casal dos anos 80 que fosse o mais pop do Brasil. É uma letra delirante e engraçada. Eu sou muito fã do Negro Leo, eu amo tudo o que ele faz e o que ele é. Só de ver a figura dele num mesmo ambiente já me deixa feliz. Sempre fico ansioso pra saber qual o próximo trabalho dele.

 

 

– Em “Como Foi?” com o Romulo Fróes, me pareceu que a canção quase vira outra coisa nos dois minutos finais, só de ruído. Foi uma decisão de vocês deixar o caos vencer no final?

KD: Além do Roberto Carlos, outra grande inspiração nessa faixa é uma gravação do Dinosaur Jr., que também passa pelo mesmo processo na fita. Eles também começam com uma canção e depois entra uma viagem do meio pro fim. Só segui esse mapa por causa dessa referência. Antes de gravar essa música, eu mandei a gravação do Dinosaur pro Lucas Pires e falei: “Escuta essa gravação, parece que foi você que processou ela na fita. Depois fiquei com essa conversa na cabeça e convidei ele pra participar de “Como Foi?”. Eu acho muito bonito e esperançoso o barulho final dessa faixa, não vejo o barulho vencendo a canção, vejo ele integrado com o lirismo da música.

 

 

– Olhando para o panorama do mundo e do Brasil atuais, como você situa esse disco?

KD: Acho que é um disco brasileiro, só poderia ser feito aqui. A influência estrangeira é apenas o meio. Um rock assim, barulhento, falando de amor, com certa maturidade, é uma coisa que eu sonhava desde a adolescência. Eu tô mostrando pro Kiko lá de 1990 que dá pra fazer dessa maneira. Sou uma assombração do futuro visitando esse menino punk.

 

 

– Agora que o disco saiu pelo selo RISCO, quando você pensa no Medusa ao vivo, tem alguma coisa que você ainda quer testar e que no estúdio não deu pra fazer?

KD: O show de Medusa conta com a Podeserdesligado no sampler. Eu ficarei mais à guitarra, mais estrutural da canção, e ela tocará as guitarras fantasmagóricas e atmosféricas. Vai ser tudo bem fiel ao disco, porém, com o tempo queremos entortar, deixar tudo mais elástico e dar margem para possíveis improvisos.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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