A quem interessar possa, o novo do Weezer

Weezer – Weezer (Gold Album)
33′, 10 faixas
(Warner)
(3 / 5)
Outro dia o YouTube sugeriu que eu visse uma performance do Weezer no show do Jimmy Fallon. Era uma interpretação ao vivo de “We Might Be As Well Strangers”, faixa do novíssimo álbum da banda, mais um com o nome de “Weezer” e uma cor predominante na capa, dessa vez, o dourado. Já batizado de “The Gold Album”, o disco traz dez faixas e a produção de Kenny Beats, que assinou álbuns de gente badalada, como o rapper Vince Staples e os queridinhos alternativos da vez, o Geese. Mas voltando à performance da banda no Jimmy Fallon – o quarteto surgia no palco diante de uma plateia brandindo a capa de “The Gold Album” em formato de LP, agitando-as ao comando de Fallon. Além deles está no palco Karly Hartzman, vocalista do Wednesday, bandinha adjacente do indie americano. E, bem, Rivers Cuomo, o desconcertante líder do Weezer, está vestido com paletó, camisa e cartola dourados. Além disso, está maquiado de dourado e cantando a canção normalmente. Atrás dele, Brian Bell, Scott Shriner e Patrick Wilson estão vestidos à paisana. Fiquem pensando: por que ainda prestamos atenção ao Weezer? Olhando em perspectiva, a banda teve bem mais discos decepcionantes ao longo dos mais de trinta anos de carreira. O que ainda nos motiva, talvez, é a espera de algo minimamente parecido com os três primeiros trabalhos deles, o “Blue Album” (1994), “Pinkerton” (1996) e o “Green Album” (2001), quando Cuomo e sua turma chegaram ao ápice. Sendo assim, o que esperar de “Gold Album” nesse contexto?
Bem, o mesmo de praticamente todos os outros discos que vieram depois. Em momentos de maior ou menor intensidade, o Weezer proporcionou faíscas criativas que mostravam a permanência dos elementos importantes dos primeiros trabalhos, mas nunca foi capaz de fazer algo próximo. Até quando fez bons álbuns, como, por exemplo, “Make Believe” (2006), “Pacific Daydream” (2017) ou mesmo a homenagem ao metalzão oitentista em “Van Weezer”(2021), o grupo jamais chegou perto da combinação de emoção, sinceridade e originalidade daquele início de carreira. Com o tempo vimos que Cuomo, ao contrário do que poderia parecer, não era um sujeito saudoso de tempos idos. Sua introspecção/esquisitice orbitava diferentes esferas. Para cada lufada de ar fresco em aceno aos bons momentos, havia constrangimento como em “Raditude” (2009), “OK Human” (2021) ou o lamentável “Teal Album” (2017), que colocou a banda em lugares de popularidade e sucesso que não ocupava há décadas ao fazer covers fracas (irônicas?) de cavalos de batalha dos anos 1980. Nos últimos dois anos, o Weezer esteve ocupado divulgando e tocando seu primeiro álbum, que completou trinta primaveras, o que nos leva ao fato de que “The Gold Album” surgiu nesse contexto de celebração e olhar para o passado. Ou não. Nada no Weezer é o que parece.
O novo disco é conciso. São dez faixas em pouco mais de meia hora de duração. Todas elas são diretas e inegavelmente pertencentes ao modelo da banda, mas carecem de algo mais. Parece que Rivers as compôs com um modelo de IA programado para emular as marcas sonoras do Weezer. Claro, é uma impressão de quem ouve a banda há mais de trinta anos e que talvez tenha cansado de esperar por um novo momento de relevância sonora. Confesso que a imagem de Cuomo vestido de dourado no palco do Jimmy Fallon ajuda a ter certa má vontade com o álbum, mas, ora, bolas, algumas canções são bem boas. A produção de Kenny Beats não é brilhante, deixa tudo nivelado na superfície, sem espaço para algo interessante em termos sonoros, mas respeita o modelão weezeriano. Sendo assim, temos Rivers se esgoelando aqui e ali, guitarras evoluindo para solos harmônicos bonitos, bateria e baixo seguros de sempre. E temos quatro boas canções se destacando em meio ao resto, a média habitual da maioria dos álbuns pregressos do grupo.
De cara, a faixa de abertura, “Say Yes”, tem um pontinho de surpresa. Algo extremamente pop, no sentido setentista do termo, chegando a lembrar por alguns segundos a levada de “Benny And The Jets”, de Elton John, introduz a canção, que, em 0:45s cai na dinâmica habitual típica do Weezer, mas com algo além. Tem uma certa anarquia melódica, um aceno à criatividade além do habitual, mas o arranjo parece puxar a melodia para o chão weezeriano. Outro momento importante é o single “C.E.O”, que faz um aceno estético a “Undone (The Sweater Song)”, um dos momentos mais inspirados da carreira do Weezer, presente em seu disco de estreia. A estrutura das canções é idêntica, mas aí podemos ver como a produção de Beats aponta para algo mais superficial se comparada ao que Ric Ocasek fez no primeiro disco do Weezer, há 32 anos. “The Show Must Go On” é outro momento legal, com guitarras um pouco mais sujas que o normal e uma melodia que mais parece de uma banda de powerpop mais suja e malandra do que o Weezer jamais foi. E a meia-baladinha “Up In The Clouds”, que dispersa seus dedilhados de violão em guitarras crocantes à medida que a melodia avança canção adentro.
Ao fim de “The Gold Album”, o que posso dizer? Que uma banda capaz de nos fazer ouvir atentamente todos os seus trabalhos em busca de uma faísca inicial sugere que ainda é digna de despertar a curiosidade dos ouvintes. No fim das contas, talvez isso seja mais importante do que mais um grande álbum em sua carreira. Vá saber.
Ouça primeiro: “Say Yes”, “C.E.O”, “The Show Must Go On”, “Up In The Clouds”.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
