Só meio “The Queen Is Dead” é bom?

A gente publicou um texto comemorativo sbre as quatro décadas de “The Queen Is Dead” aqui, há pouco tempo, escrito pelo sensacional Emerson Guimbelli. Como um ótimo pensador da música pop e de seu papel na nossa vida, Emerson destrinchou, como é de seu costume, o disco dos Smiths de cabo a rabo e ainda deu uma bela contextualizada histórica, como convém. Mas, é aquela coisa – quando o álbum é importante, a gente, que estava lá, em 1986, comprando ele na loja de discos, quer dar seu pitaquinho também. Desse jeito, aqui está mais uma crônica sobre “The Queen Is Dead” do que uma análise mais pormenorizada dele. Não somos redundantes, queremos complementar o que já postamos via Emerson. A chegada de “The Queen Is Dead” começou antes, com o lançamento do single de “The Boy With The Thorn In His Side”, que eu lembro de ter comprado na antiga Gabriela, do Rio Sul, que ficava perto da lanchonete Vienna que, se não me falha a memória, ainda está por lá. A capa com uma versão adolescente do escritor americano Truman Capote, mantendo e afirmando a bela estética smithiana de imagens ilustrativas de seus álbuns, dava a noção de que Morrissey, Marr, Mike Joyce e Andy O’Rourke pareciam oferecer algo levemente diferente com aquilo. Afinal, quem era o tal boy? E que thorn era esse ao lado dele? Depois de muito tempo soube que a letra era sobre a indústria musical e o canibalismo de revistas como a NME. Era só o começo.
“The Boy…” saiu lá fora em setembro de 1985 mas só deu as caras por aqui na virada do ano, num formato Maxi-Single, com outras duas marcantes, “Asleep” e “Ring Around The Fountain”, ambas inéditas, que seriam incluídas nas coletâneas “Louder Than Bombs” e “The World Won’t Listen”, no início de 1987. Esse fracionamento de composições e de lançamentos era uma característica marcante dos Smiths no auge. E tudo era meio imprevisível. Assim como “The Boy”, outra faixa saiu em formato de single em março de 1986, “Bigmouth Strikes Again”, uma “autocrítica”, de acordo com declarações do próprio Morrissey. Mas elas não foram as únicas puxando o vindouro álbum “The Queen Is Dead”, outros dois singles marcantes fizeram muito sucesso mas não entraram no disco, mesmo que pertencessem ao mesmo ciclo: “Ask” e “Panic”, ambos maravilhosos e polêmicos, especialmente a segunda, que continha o verso “enforquem o DJ que não toca as músicas que eu quero ouvir”. Sendo assim, gosto de pensar em “The Queen Is Dead” como um álbum que tem mais duas faixas – “Ask” e “Panic”. Até porque, apenas metade das dez que compõem o tracklist são realmente memoráveis.
É preciso dizer que a banda de Manchester fazia enorme sucesso no Brasil naquele tempo. Era assídua das rádios, fossem elas mais alternativas, como a Fluminense, fossem mais mainstream, como Cidade e Transamérica. A banda estava presente, variando de canção executada. Nas emissoras mais pop, “This Charming Man”, numa versão especial, diferente da que estava no primeiro disco da banda a sair aqui, a coletânea “Hatful Of Hollow”, era muito, muito, muito tocada. Além dela, essas quatro faixas que marcaram o ciclo de “The Queen Is Dead” vieram com muita força. “Ask” e “Panic” também saíram no formato Maxi-Single, algo que só foi possível por conta do contrato que a banda firmara com a Warner. Antes, lançada pela independente Rough Trade, os álbuns não apareciam por aqui com a mesma facilidade. Com a multinacional americana, era possível achar tudo dos Smiths, inclusive os Maxi-Singles, até nas estantes das grandes lojas de departamento. Mas quando o disco saiu, numa belíssima edição com contracapa, letras e acabamento pra lá de luxuoso, confesso que me decepcionei um pouco. O nível de “Ask”, “Panic”, Bigmouth” e “The Boy” era tão alto que esperava mais.
Vejamos. “The Boy With The Thorn In His Side” e “Bigmouth Strikes Again”, cada uma a seu jeito, mostravam a grande maravilha das guitarras de Johnny Marr, numa técnica de entrelaçamento com violões acústicos, que criavam um belo efeito. A voz de Morrissey, já uma marca registrada dos anos 1980, pontuava com dramaticidade e força aquelas lamúrias existenciais de um sujeito estranho, isolado, genial, que se tornara … um popstar. Como assim? A perplexidade dos pontos de vista e dos choques existenciais eram o forte das letras que ele escrevia. Na época não havia nada mais sensacionalmente convidativo para adolescentes espinhudos que entendiam o mínimo de inglês para achar ali a explicação de tantas agruras emocionais e sentimentais. Então, além delas, que já haviam saído em lançamentos prévios, o álbum trazia mais oito faixas. Destas, três são absolutamente maravilhosas e valeriam qualquer disco da época. Vamos a elas.
“I Know It’s Over” talvez seja a canção mais bela dos Smiths. Adoro também a versão que Jeff Buckley gravou anos mais tarde. É aquela música para se ouvir no escuro quando o coração está completamente estraçalhado. É um mergulho profundo na solidão, trazendo a história de alguém que sofre pelo fim de um amor que, na verdade, talvez só tenha existido na sua própria cabeça. Enquanto a banda cria uma melodia lenta, que vai crescendo aos poucos, o vocal de Morrissey nem parece estar “cantando”, é mais um relato, uma narrativa. A letra abraça a dor e solta uma das frases mais bonitas dos Smiths: a de que é preciso ter uma força gigante para continuar sendo uma pessoa gentil e bondosa em um mundo que costuma ser tão frio. Outro detalhe aqui é a produção, que significa, especificamente em “The Queen Is Dead”, um salto quântico na trajetória dos Smiths. Tudo é lindo, bem feito e soa bem, com elementos discretíssimos adicionados. Os próprios Morrissey e Marr produziram, com a assessoria de Stephen Street. As cordas sintetizadas, criadas por Marr num sintetizador Emulator II, dão o molho necessário de novidade.
“There Is A Light That Never Goes Out” é minha gravação preferida dos Smiths. Ela é a penúltima faixa do álbum e tem uma levada agridoce em perfeito equilíbrio e uma das imensas, sensacionais e decisivas letras de Morrissey em todos os tempos. Narrando um passeio noturno que se desenrola à medida que a canção avança, as palavras vão mostrando uma relação em que uma das pessoas praticamente suplica pela atenção da outra, pelo carinho, pelo amparo e pela companhia. Sair à noite é a única escolha possível para alguém que se sente sem ninguém, sem casa, praticamente sem ela mesma. A desolação é tamanha que essa pessoa, que canta, que ouve, se dispõe a morrer ao lado da outra, celebrando que isso será perfeito, um verdadeiro privilégio para ela. Confesso que eu, com 15/16 anos na época, não lera algo tão desolador e, ao mesmo tempo, magnético. A depressão absoluta das palavras é temperada pela mais perfeita versão dos Smiths possível naquele tempo. Os dedilhados, a segurança da cozinha, a beleza do arranjo e o sintetizador, que faz as vezes de flauta e naipe de cordas, pontuando em looping a melodia enquanto ela vai acabando em fade out.
E, fechando o disco, uma outra favorita de todos os tempos: “Some Girls Are Bigger Than Others”. É uma faixa misteriosa, a começar por um início que vem em volume alto e que, subitamente, diminui e desaparece, voltando em seguida em fade in. Talvez seja o dedilhado de violões e guitarras mais sublime dos anos 1980, com Marr em modo octópode e num momento de total fluidez. Morrissey, por sua vez, canta uma letra surrealista que, em outros tempos, eu cheguei achar que era gordofóbica. Ele vai falando detalhes anatômicos sobre as garotas e suas mães, pontuando que, no fim das contas, algumas garotas são maiores que outras. Assim como suas mães. E ainda tem Marco Antônio, o imperador romano, abrindo uma cerveja com Cleopátra, entoando o refrão: “algumas garotas são maiores que outras. Algumas mães de garotas são maiores que outras”. E tudo é perfeito aqui.
“The Queen Is Dead” se tornou uma espécie de unanimidade entre fãs de música dos anos 1980. É justo, trata-se de um discaço. Quando a gente diz que apenas metade de suas faixas é boa, a gente está cravando que estas cinco canções estão entre o que de melhor se fez àquele tempo. Se contarmos os dois singles, “Ask” e “Panic”, a coisa ainda fica mais importante. Depois de “The Queen”, os Smiths lançariam um outro álbum sensacional e muito subestimado, “Strangeways Here We Come”, que seria seu último trabalho de canções inéditas. Assim como “The Queen”, “Strangeways” também teve o ciclo de composições pontuado por alternância de singles, que já viriam no início de 1987, com a ótima “Shoplifters Of The World Unite”. Outro dia a gente fala dele por aqui. Por enquanto estamos indo e vindo nessas cinco faixas tão importantes.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
