John Lennon: treze canções solo

 

 

Dia 09 de outubro é hora e vez de comemorar o aniversário de John Lennon. Em 2020 ele completa oitenta anos e notem que eu não uso o verbo no passado porque sua obra ficou como herança e o representa muito bem. Claro, sempre teremos ponderações sobre como a carreira de Lennon teria se desenvolvido a partir de 1980, que discos ele teria lançado, quais suas opiniões políticas diante dos fatos que vieram em seguida. Mas John entrou para a História sem ter saído da vida, num raríssimo milagre existencial. Nada disso, no entanto, serve para facilitar a tarefa de escolher treze canções de sua carreira solo e colocá-las aqui, em homenagem à sua octagésima volta em torno do sol.

 

E mais: com uma condição autoimposta de não incluir “Give Peace A Chance”, “Happy Xmas” e “Imagine”, suas três canções que ultrapassaram a dimensão meramente artística e adentraram espaços metafísicos, por assim dizer. Como julgá-las e estabelecer uma ordem crescente ou decrescente para tais obras? Não dá. Portanto, a lista abaixo tem outras obras igualmente maravilhosas e representativas.

 

Durante muito tempo fui fã de Paul McCartney. Ainda sou, mas confesso que sinto falta de John neste mundo. Como ele se posicionaria diante do fascismo vigente? O que ele diria da Guerra das Malvinas? Como ele se comportaria diante do neoliberalismo? E do Black Lives Matter? Certamente seria uma voz a ser ouvida, uma posição a ser considerada, um combatente a mais na trincheira. E, também, poderia ser um sujeito que deixaria tudo isso pra trás, se esconderia num lugar qualquer e viveria uma existência ermitã, algo distante deste insensato mundo. Por isso as canções têm tanta importância, são pequenos momentos que temos para cumprimentar John e atualizá-lo do que acontece aqui desde 1980. Não é pouca coisa, gente.

 

Ouçam, discordem, concordem, mas pensem nele no dia 09 de outubro. Obrigado, meu caro.

 

 

13 – Nobody Loves You (When You’re Down And Out) – canção presente em “Walls And Bridges”, que traz toda a rebordosa que Lennon enfrentou durante a separação de Yoko Ono. Além disso, a letra também fala da má recepção que “Mind Games”, o álbum anterior, recebeu de parte da crítica especializada. Uma das letras emblemática deste Lennon pós-Beatles em busca de ordenar todas as suas personas na época.

 

 

12 – Mind Games – faixa-título do álbum que Lennon lançou em 1973. Chegou a ser chamada de “Make Love, Not War”, herdando a positividade da letra do original. “Mind Games”, produzido por John e Phil Spector, é uma espécie de símbolo do período “lost weekend”, no qual Lennon estve separado de Yoko, vivendo um romance com May Peng, sua ex-assessora, e tendo vários problemas com a imigração americana por conta de seu posicionamento político.

 

 

11 – Beautiful Boy (Darling Boy) – faixa de “Double Fantasy”, é a epítome do Lennon paterno, neste caso, em relação apenas a seu filho com Yoko, Sean. A letra fala de pesadelos, crescer, proteção e amor, tendo ficado eternizada por conta da morte de John em 1980. Um clássico que é favorito tanto de Paul McCartney quanto da própria Yoko.

 

10 – Isolation – faixa do sensacional “Plastic Ono Band”, de 1969, na qual Lennon atesta sua vulnerabilidade diante da junção de problemas advindos com a fama, com o fim dos Beatles e os ataques que ele e Yoko vinham recebendo por conta de sua militância em favor da paz. A letra´e um libelo sobre ficar em seu canto, encolhido, tentando entender tudo o que está acontecendo.

 

 

9 – Out The Blue – outra faixa presente em “Mind Games”, “Out Of The Blue” é uma declaração de gratidão a Yoko Ono por fazer parte da vida de Lennon e trazer a ele energia vital e forças para enfrentar as adversidades. Lembrando que ambos viviam uma péssima fase no casamento na época.

 

 

8 – #9 Dream – faixa de “Walls And Bridges”, quarto álbum solo de John, lançado em 1974, em meio ao período do “lost weekend”. Apesar de ser óbvio, a canção – melodia e letra – vieram prontos para Lennon durante um sonho. Ele acordou e escreveu a música quase imediatamente. Essa faixa já teve versões feitas por REM, A-Ha, Bill Frisell e muitos outros. Era uma das preferidas de John.

 

 

7 – Watching The Wheels – faixa de “Double Fantasy”, surgiu como single em 1981, após a morte de John. Ela fala sobre o período em que ele esteve sem gravar – 1975/1980 – cuidando de seu filho, Sean. A letra fala sobre uma pessoa atenta e ativa, mesmo afastada dos lançamentos de divulgações de álbuns.

 

6 – Jealous Guy – faixa de “Imagine”, de 1971, “Jealous Guy” foi composta em 1968 e chegou a ser avaliada para entrar em um álbum dos Beatles, sendo deixada de lado. Talvez ela seja mais conhecida na interpretação do Roxy Music, que chegou ao topo das paradas em vários países, em 1980.

 

 

5 – (Just Like) Starting Over – faixa de “Double Fantasy”, o disco de retorno de John depois de ficar cinco anos sem gravar. A canção, que abre o lado A, é o próprio aviso de que ele se sente como se estivesse começando novamente, falando de renascimento, força renovada e fé em sua vida com Yoko. O arranjo é próximo do rock’n’roll mais clássico, talvez de Roy Orbison, de quem Lennon era fã absoluto.

 

 

4 – Instant Karma! (We All Shine On)– lançada como single em fevereiro de 1970 pela Apple Records. A letra é sensacional e fala sobre a implacabilidade do carma, da lei da ação e reação e todos os conceitos que dão conta de que somos responsáveis pelo que fazemos e pelas consequências que vêm disso. Demorou dez dias para ser composta e gravada, com produção de Phil Spector.

 

 

3 – Woman – Outra faixa de “Double Fantasy”, de 1980. A canção é uma declaração de amor às mulheres, não só para Yoko Ono, mas para todas. Lennon declarou em entrevista à Rolling Stone, dada no dia 5 de dezembro de 1980, que “Woman” seria a mais beatle das canções do disco, uma espécie de versão adulta e crescida de “Girl”. A faixa fez muito sucesso e foi potencializada pela trágica morte dele.

 

 

2 – Nobody Told Me – faixa do álbum póstumo “Milk And Honey”, lançado em 1984, “Nobody Told Me” foi deixada incompleta por John, poucos dias antes de morrer. A letra é um primor profético, algo impressionante. John vai falando que tem “muita gente fumando, mas ninguém ficando doidão” ou que “tem muita gente correndo e não chegando a lugar nenhum”, “muita gente voando mas ninguém deixa o chão”, enfim, é uma sucessão de paisagens que anteveem o mundo daquele tempo e que, por milagre o talento, permanecem perfeitas ainda hoje. “Strange days, indeed”.

 

 

1 – God (alternate take) – faixa gravada no primeiro álbum de John, “Plastic Ono Band”, mas este take está presente na coletânea “Wonsaponatime”, lançada em 1998 como resumo da antologia quádrupla “John Lennon Anthology”. A canção fala do tratamento que Lennon fez com Arthur Janov, definindo deus como um conceito para a dor. Depois a letra enumera vários mitos e pessoas em que ele não acredita, passando a falar do fim dos Beatles e do fim do sonho. Dilacerante e verdadeira.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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