Guarde bem este nome: Maya Delilah
Maya Delilah – The Long Way Round
45′, 12 faixas
(Blue Note)

Anote o nome de Maya Delilah. Se tudo der certo, ela será a mais nova estrela da música internacional em pouco tempo e, quando digo “música internacional”, não me refiro ao mesmo palco das pop divas da atualidade, Beyonces, Gagas, Rodrigos e similares. A onda de Maya é outra, tem mais a ver com música mesmo, como costumava ser há décadas atrás e esta constatação não coloca a jovem inglesa no baú mofado de “velhas novidades”. Ela é guitarrista, compositora e tem um timbre vocal delicado. Suas canções são ótimas, bem escritas, pensadas, arranjadas e preenchem um espectro bastante amplo. Tem a modernidade de uma Arlo Parks e a tradição jazz blues de uma Norah Jones, tudo no mesmo pacote. Não por acaso, Maya foi pescada pelo selo Blue Note, o mesmo de Norah, que enxergou numa versão de “Harvest Moon”, de Neil Young, gravada por Maya para uma coletânea, o talento necessário para investir e dar tempo para que este disco de estreia surgisse. Em meio a esta espera, estava a pandemia da covid-19, quando Maya – e todo mundo de bom senso – precisou se recolher em casa. Dentro deste isolamento, ela começou a gravar e lançar singles nas plataformas digitais e agora, quatro anos depois, eles – e mais algumas faixas novas – compõem este adorável “The Long Way Round”.
Um dos detalhes bacanas deste álbum de estreia é que há uma variedade de estilos dispostos nas faixas. Maya se sai bem em todos, indo desde o jazz blues com aura pop, ao guitar pop dos anos 1980, mais ou menos o que Eric Clapton, Chris Rea e similares faziam naquele tempo. Ela também faz uma discreta – e belíssima – incursão pela alameda do soul de FM dos anos 1970, reempacotando influências e ambiências para o presente e, mais que tudo, ela absorve influêcias guitarrísticas que vão desde o já mencionado Clapton e chegando a um de seus pupilos mais recentes, John Mayer. Só que, onde Mayer se torna chato e meio pedante, Maya se sai bem, colocando seu timbre de voz doce a serviço de arranjos que privilegiam a melodia e a própria canção, sem nada muito bombástico ou artificial. É um trabalho de sutileza instrumental e vocal, com a produção de Peter Miles e mais um time de assistentes e convidados, que dão força a este ar de diversidade que o álbum traz.
A maioria das faixas é ótima e tem detalhes que merecem menção. Logo de cara, em “Begin Again”, o arranjo em tons baixos mostra a consideração pelo silêncio e pela sutileza e a melodia chega a tangenciar “The Boy With The Arap Strap”, do Belle And Sebastian, mas é só impressão. A guitarra de Maya se faz presente num solaço que chega mais para o fim da faixa e já deixa o ouvinte ligado. Em “Look At The State Of Me Now” ela faz um aceno simpático às “lentinhas” e incorpora elementos do pop clássico, do soft country e o uso bem pensado de vocais duplicados chega num belo resultado final. “Jeffrey” é uma das canções mais belas do álbum: um instrumental de violões dedilhados e guitarra saltitante em meio a um climão que começa em trabalhos mais folk do Allman Brothers inicial vai evoluindo em direção ao gospel, coisa linda e rara de se ver hoje em dia.]
Maya segue admirável em “Squeeze”, cujo arranjo evoca o pop esclarecido e informado por Prince e Peter Gabriel nos anos 1980, ou seja, trata-se de uma faixa cheia de funk e negritudes sutis, que correm no subterrâneo. “Actress” é a nossa canção preferida do álbum, trazendo um loop criativo de soul de FM setentista devidamente embalado por uma batida percussiva notadamente noventista, meio house, meio acústica, meio nova. Parece algo que o sensacional combo Sault poderia fazer em um de seus discos misteriosos e quando a gente já está se acostumando ao clima, Maya vem com “My Baloon”, na qual encarna uma musa folk solene e tristonha, que parece cantar do fundo do quarto, sonhando com as estrelas do teto. A melodia é uma lindeza o arranjo delicado contribui para mostrar a habilidade da moça no violão. “Necklace” e “Man Of The House” são outros exemplos de ótimas canções em que groove, guitarra e bom gosto nos arranjos se mesclam com ótimos resultados.
A gente sempre fala que, de nada adianta produção, talento instrumental, nem mesmo boa voz se não houver boas canções. E Maya se mostra, além de tudo isso, uma boa compositora. Seu disco de estreia já colocou o sarrafo lá no alto. Vamos acompanhar.
Ouça primeiro: “Actress”, “Necklace”, “Man Of The House”, “Squeeze”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.