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Dostoiévski; o improvável maior escritor de todos os tempos

 

 

Dostoiévski teve uma vida tão rica em tragédias pessoais e tão escassas em recursos financeiros que chega a ser praticamente inacreditável que o escritor russo tenha publicado, ao menos, cinco obras-primas, e todas em sequência.

 

Nascido em Moscou no dia 11 de novembro de 1821, Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski é o segundo filho de um casal formado por um médico cirurgião e uma eficiente e corajosa administradora do lar. Teve uma penca de irmãos, mas se dava realmente bem com o mais velho, Mikhail, nascido dois anos antes. O problema é que a família era numerosa, e o salário de um médico, no Século XIX, não era lá essas coisas. O pai foi trabalhar numa cidadezinha do interior dos arredores de Moscou, e toda a família mudou-se para lá. Desde muito cedo, os irmãos Fiódor e Mikhail desenvolveram uma paixão visceral pela literatura. O pai, que educou os filhos de forma rígida, tinha outros planos para eles, e ambos, quando chegaram aos dezessete anos, foram obrigados a cursar Engenharia em São Petersburgo e entrarem no Exército. Isso contrariou muito os irmãos, que já haviam decidido que viveriam de literatura.

 

Antes mesmo de publicar seu primeiro romance, Dostoiévski perdeu o pai, vítima de assassinato. Isso o afetou profundamente, pois sempre mantivera uma relação de amor e ódio com o pai. Ainda assim, muito jovem, aos 24 anos, publicou seu primeiro livro, “Gente Pobre”, em janeiro de 1846. O romance foi rotulado pela crítica como a melhor estreia de um autor russo em todos os tempos. Dostoiévski desenvolveu um estilo em que toda a história é contada através de cartas trocadas entre um funcionário público de quarta categoria e a jovem que ama, ambos muito pobres.

 

Com o sucesso da obra, Dostoiévski teve as portas abertas para frequentar a intelectualidade russa, e aí começaram seus problemas. Já sofrendo dos nervos e com uma personalidade marcada por uma timidez descomunal com uma autoestima e vaidade imensas, logo começou a ser ridicularizado por esse grupo. O resultado disso é que seus dois livros posteriores, “O Duplo” e “A Senhoria”, receberam críticas negativas mais por conta do comportamento do autor do que pelo valor literário das obras. Foi nesse período que começou a frequentar duas sociedades secretas que planejavam tirar o imperador Nicolau I do poder. Mas Dostoiévski estava longe de ser um revolucionário, e só entrou nesses grupos porque sentia um ódio incomensurável pelo regime de servidão dos camponeses, que abolido apenas em 1861. O grupo inteiro foi desmascarado pelas autoridades locais, e foram todos condenados à morte por fuzilamento. Só que era um evento falso. Na hora em que os revolucionários seriam fuzilados, chegou uma ordem de Nicolau I dando o perdão aos condenados, e enviando todos para diversas prisões na Sibéria. Imagina o que essa experiência causou no neurastênico Dostoiévski! Sua pena foi convertida em quatro anos de reclusão num presídio de trabalhos forçados nos arredores de Omsk, convivendo com bandidos da pior espécie, vários deles assassinos que se orgulhavam de seus crimes.

 

Essa experiência, depois da soltura do autor, resultou no magistral “Escritos da Casa dos Mortos”, em que, para driblar a censura, disfarçou o livro no formato de romance e criou vários personagens, inclusive um Alter ego que narrava todos os traumas vividos por Dostoiévski na prisão. Casou-se, depois de solto, com uma senhora tísica, que já tinha um filho quase adolescente, Pacha, e foi profundamente infeliz no casamento, pois coincidiu com a descoberta de sua condição de epilético, cujo primeiro ataque aconteceu logo após o matrimônio. A doença o acompanhou por toda a vida, e ele levava dias para se recuperar de cada ataque de epilepsia.

 

Depois fundou, junto com o irmão, a revista mensal “O Tempo”, onde, finalmente, conseguiu conciliar prestígio e sucesso financeiro. Dois anos depois, a revista foi tirada de circulação pela censura, e Dostoiévski passou a sofrer financeiramente e mentalmente. O irmão morreu pouco depois disso, e sua mulher também faleceu, vítima de tuberculose. Para piorar, se viciou em jogos, especialmente a roleta, e ganhava e perdia fortunas com uma frequência absurda. E foi nessas condições que produziu suas principais obras.

 

Em 1866 escreveu o monumental “Crime e Castigo”, baseado no niilismo da juventude russa da época. Seu personagem principal, um estudante universitário pobre, desenvolve a teoria de que pessoas superiores tinham o direito de matar uma população inferior. Trama e executa o assassinato de uma detestável velha usurária, e tudo saí de controle após o crime. Dois anos depois produz outro clássico, “O Idiota”, cuja intenção é revelar como seria tratado, naquela época, um humano com a mesma bondade e ideais de Cristo, representado na figura do também epilético Principe Míchkin. Um pouco antes, havia se casado pela segunda vez, com sua estenógrafa Anna, que havia sido contratada para trabalhar na feitura de “O Jogador”, obra escrita em tempo recorde, 26 dias, num acordo maluco que fez após pedir um adiantamento, com o risco de perder os direitos autorais de toda a sua obra durante nove anos, se o livro não fosse entregue no prazo determinado. Nesse período perdeu sua filha Sofia, que só viveu até os três meses de idade. Nem é preciso dizer o quanto o autor sofreu com tal perda.

 

Depois disso escreveu mais duas obras-primas: “Os Demônios”, que retrata uma sociedade secreta que tinha intenções de matar boa parte da intelectualidade russa; e “Os Irmãos Karamázov”, considerado por muitos críticos a melhor coisa já escrita pelo homem, uma trama extraordinária sobre um parricídio. Morreu um pouco depois dessa última publicação, em 1881, aos 59 anos, vítima de pneumonia. E, ironicamente, havia se tornado amigo do tsar Alexandre III, que era fã de sua obra, e chegou a ser recebido em seu palacete.

 

Aqui vai meu top 5 dos livros de Dostoiévski:

1 – Os Irmãos Karamázov

2 – O Idiota

3 – Crime e Castigo

4 – Os Demônios

5 – Escritos da Casa dos Mortos

 

Recomendo fortemente a biografia “Dostoiévski – Um autor em seu tempo”, um calhamaço de mais de mil páginas escrita pelo autor americano Joseph Frank.

 

Uma coisa posso garantir. Ninguém será o mesmo depois de ler, e entender, os livros de Dostoiévski. Definitivamente, o maior e melhor escritor de todos os tempos.

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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