Colunas

Como o Kiss conquistou minha geração

 

O Kiss foi formado em janeiro de 1973, em Nova York, pela dupla Gene Simmons e Paul Stanley, que já tocavam juntos numa banda chamada Wicked Lester. Pouco tempo depois, foram recrutados, via anúncios nos jornais, o baterista Peter Criss e o guitarrista solo Ace Frehley, uma vez que Paul Stanley não sabia solar. A banda resolveu tocar maquiada, inspirada nos personagens do Teatro Japonês Kabuki. Até hoje, Ney Matogrosso afirma que foi uma cópia do figurino dos Secos & Molhados, mas algo me diz que jamais saberemos a história verdadeira.

 

Mas foi somente com o décimo-primeiro álbum, o excepcional “Creatures Of The Night”, que o Kiss virou febre no Brasil. Lançado em 01 de janeiro de 1982, o disco resgatou o lado mais roqueiro da
banda, que gerou uma turnê mundial extremamente bem-sucedida, culminando, em junho de 1983, com três shows no Brasil; no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Só o show no Maracanã reuniu cerca de 130 mil pagantes, o maior público da carreira da banda até então.

 

Aqui é preciso entrar num contexto histórico da vida de um menino de sete anos; eu, claro. O Brasil voltava a ter eleições diretas para governador depois de anos de voto proibido. Minha mãe fez questão, em 1982, de me levar ao colégio eleitoral onde votava, e São Paulo comemorou muito a vitória de Franco Montoro, do PMDB, partido que representava o avanço democrático daquela época Era também a estreia nas urnas de um certo partido que representava os trabalhadores e de um sindicalista que concorreu ao cargo. Um ano antes, mais precisamente no dia 20 de março de 1981, o Queen fazia sua primeira apresentação no Brasil, em um show histórico no Morumbi. Era uma mudança notável e perceptível até para um garoto que estava prestes a completar oito anos.

 

E chegou o Kiss, num movimento tão avassalador como o clipe de “Thriller”, de Michael Jackson. Lembro perfeitamente do dia em que vi o primeiro anúncio de televisão do show do Kiss, em São ​Paulo, com aqueles mascarados surgidos de outro planeta tocando “Killer”. Na mesma semana ganhei de presente do meu pai “Creatures Of The Night”, o primeiro disco escolhido por mim na vida, que tenho até hoje. O que eu ainda não sabia é que o álbum também foi comprado por toda a molecada de São Paulo, inclusive todos os meus vizinhos da Zeferino da Costa, uma rua sem saída no bairro central da Aclimação. Foi o primeiro disco de muita gente da minha geração, e Paul e Gene eram, para nós, o equivalente ao que Lennon e MacCartney foram para duas gerações anteriores.

 

E, com o disco, nascia o primeiro “hino” das nossas vidas: “I Love It Loud”. Aquela batida introdutória de Eric Carr é simplesmente hipnotizadora. E a música vai num crescente absurdo até estourar no refrão. Foi a introdução de muita gente para o universo do rock e, alguns, assim como muitos outros, jamais achamos o caminho de volta. “Creatures Of The Night”, o disco, é cru e pesado, sem demais firulas. Até porque, convenhamos, fora Ace Frehrley, os demais integrantes do Kiss são péssimos músicos. Mas imagina o que aquela imagem e aquele som provocavam num menino entre seus sete/oito anos de idade. Era pura magia, pesadona, malvada, mal aceita pela sociedade, do contra. Ou seja, perfeito.

 

O impacto foi tão grande que montei minha própria banda do Kiss, com Danton Melo, amigo e vizinho na época, fazendo o papel do Eric Carr. Eu fiquei como Gene Simmons, porque era “dono” da banda e os “ensaios” eram na minha casa. Anos depois descobri que muita gente, inclusive jornalistas musicais contemporâneos, também montaram suas bandinhas do Kiss. Petardos como a já citada “I Love It Loud”, “Killer”, “Danger” e “Keep Me Comin’” dialogavam direto com meu coração de criança. Ainda tinham a baladona “I Still Love You” e a arrebatadora “War Machine”, que só descobri depois de adulto que era uma composição de Bryan Adams.

 

Dei muita sorte de o Kiss ser o primeiro fenômeno musical que assimilei na vida. Depois dele fui atrás dos discos do Iron Maiden e mergulhei de cabeça no universo metaleiro. Montei uma coleção
considerável de discos do Kiss. Depois teve a explosão do Rock Nacional dos anos 1980. Mas devo aos quatro mascarados de Nova ​York minha entrada sem volta ao Rock. Ainda hoje me emociono com a audição de alguns discos da banda. Mesmo sabendo que mal sabem tocar; que seus álbuns são manipulados por vários efeitos de estúdio, principalmente os tocados ao vivo.

 

Eu jamais seguiria a trilha do jornalismo musical caso não esbarrasse com a obra do Kiss em 1982. Claro que eu não sabia disso na época. Mas algo me dizia que aquela paixão infantil geraria alguns frutos.

 

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *