Entrevista Exclusiva – Júlia Guedes
Adoramos tanto “Álbum Vermelho”, estreia fonográfica de Júlia Guedes, que convidamos a artista mineira para uma entrevista. Mandamos as perguntas por e-mail e as respostas vieram por áudio e só comprovaram o que havíamos percebido no disco. Júlia é uma jovem e promissora multiartista, que consegue lidar com vários aspectos de sua obra, que abraçam imagem, cor, música e, claro, legado, influência e personalidade. Suas respostas mostram uma jovem mulher totalmente ciente do que faz e fará para alcançar seu espaço com muita personalidade e boas escolhas. Aqui está a nossa conversa, com vários momentos em que a emoção permeou as falas de Júlia. Confira.
1 – Na resenha da Célula Pop, a gente lembra de ter te visto pela primeira vez num vídeo em que você explicava a origem de “Sol de Primavera”, destacando como sua avó Silvana salvou a música ao anotar a melodia num bar de BH. Essa história de uma mulher guardiã da memória te perseguiu quando você foi montar um disco que fala tanto de ancestralidade?
JG: Essa história é muito simbólica. Eu acho que foi uma das muitas histórias que me atinou para esse lugar das mulheres sempre ficarem invisíveis, sempre atrás de um homem, ou ter, na música, o lugar de cantora, de intérprete, musa, sempre num lugar de objeto e nunca com um aparato intelectual, nunca num lugar de protagonismo. Esse lugar sempre foi reservado aos homens. Essa história me fortaleceu, criou um lugar de raiva do patriarcado, do mundo opressor pras mulheres do jeito que é. E isso sempre me alimentou. Toda essa sede de justiça social, de um mundo mais igual entre os gêneros, classes e etnias. Tudo isso me alimenta a querer mudar o que eu posso mudar, com o acesso que eu tenho. Várias coisas do disco vieram desse lugar.
2 – O Álbum Vermelho levou 4 anos e você mesma disse que em 2022 ainda não tinha segurança pra “meter essa banca” de produzir. O que foi a virada pra você assumir a produção ao lado do Antonio Neves e Paulo Emmery e dizer “agora vai”?
JG: Eu acho que a virada foi o próprio tempo. Quando eu abri mão da ansiedade e da pressão do mundo pra querer fazer algo até uma certa idade. Eu percebi que esse é um discurso muito desconexo da forma que eu enxergo a vida, a realidade. E até da forma que eu enxergo o mercado, os meus objetivos. Eu descobri que não existe idade certa pra nada. E que pra mim seria muito mais legal esperar o tempo necessário pra poder fazer as coisas mais bem feitas. E nisso, que eu deixei o tempo passar e me desenvolver, eu fui entendendo outros potenciais que ficaram submersos e que precisaram do tempo pra ser descortinados. Eu fui amadurecendo. E eu entendi que era capaz. Foram anos que eu estive me capacitando, estudando, vivendo várias realidades diferentes e me empoderando.
3 – O ponto mais elogiado na Célula Pop é que o disco é “bem gravado”, com mixagem do Angelo Wolf super nítida, justamente porque você não só canta mas toca de verdade — piano, Hammond, Rhodes e CP80. Como é essa sua relação com os teclados?
JG: Ah, muito obrigada! Eu adorei esse ponto bem elogiado. Minha relação com os teclados é uma relação de necessidade mesmo. Não só os teclados. Eu preciso me expressar, sabe? Cada hora é de um jeito. E o piano, ele foi meu primeiro amigo. Porque eu não sei quando eu comecei a tocar, mas eu sei que é um privilégio poder me expressar dessa forma artística desde que eu me entendo por gente. Eu acho que o piano é o lugar que eu sempre tive pra colocar meus sentimentos, minhas frustrações, meus desejos. Uma relação amadurecida com o tempo, com momentos de emergir em estudos, momentos de estudar tocando, momentos de tocar mais, de tocar menos. Eu amo explorar e me permitir passear nos vários teclados e várias teclas. Foi muito bom ter gravado vários instrumentos no meu disco. Foi muito importante.
4 – A gente percebeu que sua mineirice não é datada e que você não cai na “armadilha fácil de revisar um passado que não lhe pertence”. Você mesma falou: “a minha história não é a história do Clube” (da Esquina). Teve alguma faixa em que você se pegou apagando tudo pra não soar como homenagem e sim como Júlia?
JG: Não teve nenhuma faixa que saiu diferente do que era pra ser. Eu tenho muito bem resolvido no meu coração a minha mineiridade. Eu sou um bichinho mineiro mesmo, do interior de Minas, sou fruto do Clube da Esquina e sou tudo o que eu sou a partir disso, por causa disso. De forma alguma sou apenas isso. Justamente por estar tranquila quanto a isso, eu não fiz algo temendo ser ou querendo ser. Porque não precisa. Eu acho que componho de uma forma muito honesta, com a forma que eu enxergo as coisas, minhas origens e o Clube é uma extensão de quem eu sou, talvez eu seja uma extensão do Clube da Esquina. E está em mim, no meu som, eu amo isso. Eu quero que isso apareça de uma forma natural. E aí eu acho que, tanto fazer algo pra soar clubeesquinístico, quando não querer soar, eu estaria afirmando do mesmo jeito o tanto que eu estou intrinsecamente precisando desse lugar, de uma forma afirmando pela afirmação, do outro, pela negação. O que vier de forma natural é bem-vindo e será acolhido.
5 – Você fecha o disco com “A Página do Relâmpago Elétrico” mantendo a tradição da sua família — seu pai Gabriel gravou o avô, Beto gravou Godofredo, agora você grava Beto. Por que essa canção em especial? Qual sua relação com ela?
JG: “A Página do Relâmpago Elétrico” é a primeira faixa do primeiro álbum do meu avô. Existe essa tradição de querer fechar meu disco homenageando meus antepassados. E foi o início do ciclo dele, da jornada dele na música e data também o início pra mim, no meu álbum. E data também a perpetuação de uma tradição, então existe um lugar cíclico, ao mesmo tempo que é a última música do meu disco. E é uma música de sete minutos, que acaba em fade out, que, no conceito, ela dura eternamente. E é uma música que fala sobre isso, na minha interpretação. Também muda muito. Nessa letra o Ronaldo Bastos foi gigante, espiritualmente gigante, pra escrever essa letra, mas, pra mim, ela dialoga com a minha história, no lugar de aceitar o destino como ele está se oferecendo pro meu caminho. Aceitar o que está sob meu controle, o que não está. Aceitar os ciclos que se repetem e ter humildade pra me entender como parte de algo maior do que eu e, ao mesmo tempo, aceitar protagonizar minha própria vida. A música também fala sobre “dar tempo de prestar atenção nas coisas” e no disco eu trago essa crítica, de algumas maneiras. Sobre o mundo hiperacelerado que a gente vive. Sobre a pressão de construir tudo num determinado tempo específico, se adequar ao modo de vida capitalista. Eu, como fruto da minha geração, sofro todas essas hiperacelerações, o uso excessivo de celular, falta de presença que está sendo marcante cada vez mais na atualidade. E eu queria falar disso também, de tempos de contemplação, como o tempo de poesia é um gesto, um gesto político de não ceder cem por cento ao modo de vida de massa, que chega pra gente muito bem calculado, que nos coloca num lugar muito ruim, muito passivos e pouco próprios da nossa própria existência, do nosso próprio consumo. Então, trazer essa música de sete minutos, com doze faixas, que quase não teve pós-edição, um álbum de primeiros takes, um álbum cuja visualidade foi feita manualmente. Tudo isso é uma forma de reiterar esse lugar de lutar por um estado de presença, que é um estado de presença político, uma humanidade, uma poesia cotidiana, que sempre foi o que nos fez viver e não apenas sobreviver. Essa música faz sentido desde um lugar semântico até um lugar histórico. Um lugar cíclico e espiritual também.
6 – “Notas de Avião” tem aquele verso lindo de abertura “Gosto de pensar como era a luz do seu verão / Se suas notas vão soar em mim”. Na resenha, a gente aponta como uma homenagem direta à paixão do seu avô por aviação. O que você descobriu sobre o Beto menino que sonhava voar que você não sabia antes de compor?
JG: A aviação e a música sempre foram as paixões da Família Guedes. E foi algo que eu sempre soube, que sempre esteve no dia a dia. Esse dois assuntos fazem todo mundo da minha família se empolgar, o olho brilhar na hora de falar. “Notas de Aviação” é uma elaboração, mais que isso, é uma homenagem sobre toda essa hereditariedade que eu carrego. Sobre essa metáfora que, na verdade é a realidade, sobre habitar o céu desde muito nova, sobre meu avô, que eu cresci sabendo que ele era um cara que tinha construído um avião, que ele voava e que a voz dele chegava no mundo. Então existe uma mitologia criada por uma criança e, aí eu acho que, talvez foi essa criança que compôs essa música. Tem coisas que transbordam da gente, eu fico muito emocionada com essa música, vem de um lugar muito genuíno, de uma admiração muito fresca, muito sólida. De um orgulho.
7 – A gente achou que “Vermelho e Sem Nome” parece emular o andamento de “Nada Será Como Antes”, do Clube da Esquina. Foi uma escolha consciente de colocar ela abrindo como um recado de “eu venho de lá, mas estou aqui”?
JG: Então, não foi uma escolha consciente. Vira e mexe eu me pego percebendo coisas na minha música que vêm do Clube da Esquina. E isso não é algo que consigo trazer pro consciente. Eu ouço trocentas músicas do mundo e várias delas eu penso: “nossa, vou trazer um pedaço dessa melodia e fazer uma música nova”. Tem outras que eu falo: “vou pegar essa levada, esse ritmo e fazer uma coisa nova”. Só que eu não consigo trazer o Clube da Esquina pra esse lugar racional. E nem quero, mesmo tendo ferramentas pra isso. Simplesmente porque é um lugar que está introjetado no meu DNA, são músicas que eu escuto desde a gravidez da minha mãe. E, mais que isso – músicas de um contexto que eu vivo, das histórias que eu ouço, de um contexto que eu vivo, das pessoas que eu conheço. Então as coisas vêm à tona, naturalmente. Então, quando eu percebo, eu acho incrível, eu aceito, eu acho uma honra. Porque é o lugar que eu pertenço, minha maior referência da vida.

8 – Achamos “Zóim” acústica e soturna, “quase lusitana”, com arranjo do Wagner Tiso, e “Chuva e Sol” como autobiográfica e existencial, com vozes sutis. Como foi dividir a criação com um nome do tamanho do Wagner Tiso numa faixa tão íntima?
JG: “Zoim” foi uma composição que eu fiz em parceria com o Tomás Coelho e veio de um lugar muito gostoso. A gente estava ouvindo alguns “bois”, da tradição do bumba meu boi, lá do Maranhão, a gente estava num momento pós-show, ele toca na minha banda e a gente estava ouvindo esses bois. E ele começou a fazer uma levada simulando um boi e essa levada foi se transformando. Eu comecei a fazer a letra e a melodia do “Zoim” – “meu coração…” no começo até meio como brincadeira, como se fosse uma coisa meio fado mesmo. E aí a brincadeira foi ficando séria, quando eu vi, já estava com o violão, dando pitaco na harmonia e a música foi se construindo, de uma forma meio soturna porque eu vi que era algo muito importante que eu tinha pra falar. É uma música em que eu reflito sobre a jovem adolescente que eu fui, sobre a relação com ela, um pouco manchada por autocríticas muito fortes. Essa música me ajudou a resgatar a minha criança, perdoar todas as versões que eu fui. Então é uma música soturna, densa. E trazer o Wagner Tiso é uma concretização cíclica muito importante. Ele é o grande arranjador do Clube da Esquina, o grande maestro. E essa é uma música em que eu reflito a minha infância, que foi o momento onde o Clube ainda era uma parte da minha vida, mas não era desanexado. O Wagner ainda não era uma figura que é hoje em dia, o grande Wagner Tiso. Ele era uma pessoa da minha infância, um tio. Eu consegui voltar pras minhas raízes, pro lugar de onde eu venho. E fazer uma amarração muito bonita, porque parece que é uma geração, anterior à minha, abrindo caminho para que eu chegasse. E além de ser uma honra enorme.
9 – “Contra o Medo” tem pegada jazz pop anos 80 e “Tango dos Homens” soa como um voo estilístico com bandoneons que “tangenciam” o tango. De onde veio essa vontade de brincar com esses estilos?
JG: Pois é. “Contra o Medo” e “Tango dos Homens” foram as duas primeiras músicas do disco. Eu acho que elas têm um paralelo entre as duas mas não um paralelo óbvio. É um disco muito colorido, com muitos estilos diferentes, feito ao longo de muitos anos. A primeira composição, “Sus Mareas”, eu fiz com quatorze anos, e um disco que eu permiti que ele respirasse, que tomasse o tempo que precisasse. Ao longo desse tempo eu fui tendo influências diferentes, conhecendo pessoas diferentes, visitando lugares, cenas musicais de vários lugares do Brasil. E “Contra o Medo”, pra mim, era o momento em que eu estava “ritaleestica”, que eu tava pirando, descobrindo as produções do Lincoln Olivetti e mergulhando nesse universo pop cintilante. E “Tango dos Homens” foi esse momento em que eu estava me conectando mais com a música latina, ouvindo muito Astor Piazolla, Mercedes Sosa e coisas mais contemporâneas – Aca Seca, Juan Quintero, da Argentina – e tudo isso foi aparecendo de uma forma muito natural. E eu enxergo a música como uma brincadeira séria, que começa como uma brincadeira, eu aceito quando as coisas vêm e se manifestam. Tem um milhão de músicas que fiz que ninguém saberá, justamente porque está nesse lugar de despretensão. Tem coisas que se elaboram, ganham uma maturidade e outras que não. E tá tudo certo. Eu me sinto muito à vontade para brincar com estilos.
10 – Na resenha, “Sus Mareas” com a Luiza Brina e “Estranha Nuvem” com a Tori são citadas como faixas familiares por timbres “belos e estradeiros de outros tempos”. Como foi trazer a Luiza e a Tori pra dentro desse universo tão vermelho e pessoal?
JG: Foi muito natural trazer a Luiza e a Tori! Quando eu já estava gravando o disco, eu pensava: será que eu trago participações, será que eu trago fulano, será que eu chamo sicrano? Mas uma coisa veio muito forte – eu tenho que chamar que faz sentido participar, quem já está acontecendo junto com esse álbum, quem está vibrando nesse sentido. Eu não estava pensando numa participação para agregar no valor comercial, sabe? Eu realmente queria que fizesse um sentido musical e um sentido maior. Eu tenho um duo com a Tori e nós somos parceiras de composições, somos grandes amiguinhas-irmãzinhas que dividem amor pela música, paixão pelo ofício e forma de enxergar também. E “Estranha Nuvem” é um lugar em que a gente fala dessa relação de sonho e realidade, sobre o sonho como um lugar possível para se realizar. E a brincadeira com os timbres foi pra trazer esse universo onírico e etéreo, na minha cabeça de multiartista e designer também, com essa coisa de criar texturas, um espaço que tem um cheiro, que tem som, que toca num lugar anterior à compreensão. E “Sus Mareas”, com a Luiza, também. Eu falei: “Luiza, um beijo, faça o que quiser, eu estarei amando”. Dei muita liberdade, ela entregou um arranjo que eu jamais poderia pensar nele sozinha. Eu dei poucos direcionamentos, eu queria que fosse etéreo, tivesse timbres de cordas – violão, baixo, guitarra, charango – eu propus o charango porque era uma canção em espanhol, eu queria um outro instrumento, e ele é típico da Bolívia, do Peru. Luiza entregou um arranjo “belo e estradeiro de outros tempos”. Maravilhosamente.
11 – Você está se formando em design gráfico pela UFMG e assina toda a direção criativa e a capa com a rosa vermelha fotografada pela Isabella Moriconi. A Célula Pop também te vê como artista gráfica. A imagem veio antes da música ou a música pediu essa imagem?
JG: Sim, eu estou me formando! Esse ano eu entrego o meu TCC, que é a idadente visual e o projeto gráfico do meu álbum e a visualidade, ela veio junto. Eu não sei quando ela veio, mas, no meu TCC eu até discorro mais aprofundadamente, sobre essa tradução, sobre o céu que, com certeza, tem origem na relação da minha família com a aviação. O vermelho, que é essa cor da pulsão visceral, da urgência, da paixão, que tem a ver com esse meu movimento de descobrir esse destino inevitável e precisar romper com várias barreiras pra conseguir alcançar o que é verdadeiramente meu. E mudar minha forma de enxergar o mundo e, em algum lugar, mudar o mundo no que está possível pra mim. E aí a rosa, como elemento que faz referência a esse elemento latino, do tango, da rosa de plástico na casa da avó, do lado de um retrato de Jesus e Maria. E esse lugar de pertencimento enquanto musicista e artista latinoamericana. Foram vários os elementos da identidade visual que eu fui elaborando, mas que chegaram na minha cabeça antes dessa elaboração existir. Eu acho que o meu álbum foi e está sendo um processo constante de elaboração, porque é um universo muito rico. É um universo musical, poético, visual, territorial, narrativo, histórico, é uma amarração de muitos discurso, e isso requer tempo. E é um processo de elaboração constante. Tudo veio junto. E, no final, todo esse processo foi registrado maravilhosamente pelas lentes da Isabela Moriconi.
12 – Na matéria você diz: “Esse foi um álbum que precisou acontecer para que minha vida pudesse verdadeiramente começar”. Achamos que o disco vai além do “disco da neta do Beto Guedes”. Agora que a vida verdadeiramente começou, o que você quer que as pessoas lembrem quando ouvirem Júlia Guedes?
JG: Ótima pergunta. Eu acho inevitável essa assimilação de ser neta do meu avô, não é algo que eu quero rejeitar, é algo que eu assumo com muito orgulho, muito privilégio. Mas, uma coisa que eu tenho sido muito feliz é constatar que eu consegui o recado de que eu TAMBÉM sou neta do meu avô. Não sou apenas. Várias pessoas têm vindo me falar de que é um álbum mineiro, feito por uma mineira, mas não é um álbum de Clube da Esquina e eu não queria que fosse mesmo. Eu sinto que minha identidade está partindo desse lugar mas vai muito além disso. O lugar em que eu mais tenho me realizado e no que eu tenho recebido muito reconhecimento – e tem me dado muito orgulho – é o lugar de multiartista. Criadora. Trabalho muito fazendo capa de álbum, lançamentos completos, projeto gráfico de LP, trabalho para gravadoras, selos, artistas, dentro e fora do Brasil, e o “Álbum Vermelho” me abriu muitas portas. Tem projetos inteiros de lançamentos que eu estou coordenando a parte visual e tem todo esse lugar, que é uma amarração de sentidos que, pra mim, é muito além de uma tradução literal de música e imagem. Parte por esse lugar de que tudo que atravessa na vida será expressado, eu sinto que meu trabalho está muito mais pra um viés de estar sensível a esses vários atravessamentos, essas várias traduções. E esse é o lugar em que eu tenho sido mais feliz.
13 – Pra fechar com a lista do “Ouça primeiro” da Célula Pop: se você tivesse que escolher só UMA entre “Vermelho e Sem Nome”, “Chuva e Sol”, “Zóim”, “Notas de Avião” e “Sus Mareas” pra apresentar pra alguém que nunca te ouviu, qual seria e por quê?
JG: Eu acho que essa pergunta teria respostas diferentes, em dias diferentes. Hoje, sexta-feira, dia 18 de setembro de 2026, quatro dias de fazer 25 anos e estar com uma sede enorme de viver minha nova idade, é “Vermelho Sem Nome”, que é a música em que eu rompo com a inércia e vou atrás do mundo. Essa é a música que eu escolho pra ser a primeira. Hoje.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
