Rock e eletrônico: os dois lados de Brotherhood

Há 40 anos atrás, o New Order, então formada por Bernard Sumner, Peter Hook, Stephen Morris e Gillian Gilbert, lançava Brotherhood. Pronunciamentos dos músicos da banda darão as pistas para destrincharmos esse álbum.
O livro de Sumner mal menciona Brotherhood. O de Hook não poderia deixar de fazê-lo, pois segue um a um dos álbuns. Mas sua elaboração, segundo o baixista, está na origem do processo que levou a sua saída da banda. Já Morris, ao ranquear os álbuns da New Order até 2005, destina a Brotherhood um lugar que, no currículo oitentista, só perde para o estreante Movement.
A revista Bizz convidou vinte críticos para votar nos “piores discos de todos os tempos” e divulgou o resultado em sua edição de junho de 1993. E Brotherhood é o único álbum da New Order que está na lista… Já fora do Brasil Brotherhood não se saiu mal nas críticas, ainda que não tenha sido um sucesso de vendas. “Até mesmo o lendário (e exigente) jornalista musical Robert Christgau da Village Voice deu uma nota A”, registra o detalhado livro de Aracri e Fernandes.
O grande destaque do álbum é a faixa “Bizarre Love Triangle”, essa sim um grande sucesso, inclusive no Brasil, seja nas rádios FM ou nas pistas de dança. Tal destaque contribuiu para ofuscar outras músicas de Brotherhood.
“Bizarre…” abre o lado B do LP, no qual se concentraram as músicas eletrônicas. O lado A ficou com as faixas roqueiras. Se para alguns ou muitos (Morris aí incluído) essa divisão não funcionou, é exatamente o dualismo que a estrutura que se oferece como um interessante tema de discussão.
Eletrônico, mas…
Quando a New Order se formou das cinzas da Joy Division, a música eletrônica parece ter sido uma opção compartilhada. Aliás, não se partia do zero, pois a banda de Ian Curtis já flertava com teclados e sintetizadores, para não falar das inserções digitais pelas mãos de Martin Hannet, que também produziu Movement (1981).
Ocorre que essa decisão não significou dar as costas ao rock, mais especificamente ao universo pós-punk no qual, desde a Joy Division, se distinguiam as batidas de Morris, a sonoridade do baixo de Hook e os timbres da guitarra de Sumner. Estamos falando de três instrumentistas nada menos do que antológicos na história do pós-punk, aos quais se junta Gilbert como tecladista e segunda guitarrista.
Depois do começo tateante em Movement, com Power Corruption & Lies (1983) e Low-Life (1985) vai se definindo um estilo, marcado por bases eletrônicas (percussão, sintetizadores e sequenciadores) preenchidas por instrumentações roqueiras (baixo, guitarra e, às vezes, bateria acústica). O formato canção foi mantido, com os vocais de Sumner quase sempre presentes.
Mas aqui e ali essas regras eram quebradas quando canções nada ou pouco eletrônicas despontavam. Um exemplo é “Leave Me Alone”, a melancólica faixa final de Power Corruption & Lies. Outros são “Love Vigilantes” e “Sunrise”, que abrem e fecham o lado A de Low-Life. Em “Sunrise”, especialmente, a New Order deixa seu lado rock aflorar com força.
Outra coisa que podemos considerar uma opção tomada pela banda e por sua gravadora, a Factory (outra referência antológica), foi o investimento em singles, especialmente após o exitoso lançamento de “Blue Monday” (1982). Ora, no caso dos singles, a faceta eletrônica sempre foi a privilegiada.
Isso tem bastante a ver com a relação com os Estados Unidos. Foi lá, conhecendo as danceterias, que os britânicos se encantaram com a eletrônica, embora referências europeias (Kraftwerk, Moroder) já estivessem presentes. Em 1985, a Factory fechou contrato com a Qwest/WEA, encabeçada por ninguém menos do que Quincy Jones, que se tornaria o autor de mais um dos remixes de Blue Monday (1988).
Mas novamente temos uma história mais complicada. Vejamos “Thieves Like Us” (1984), música classuda, pouco roqueira, que dá o tom chiquetoso que predomina, a despeito do título do álbum, em Low-Life. Pois o lado B daquele single foi preenchido com a básica “Lonesome Tonight”.
Em 1987, a banda lançou Substance, uma compilação dos lados A de todos os seus singles. Na verdade, era um pouco mais do que isso, pois duas das músicas foram regravadas, “Temptation” e “Confusion”. E houve a inclusão de um lançamento, “True Faith”, composta para ser um hit (junto com ela veio outro tento pop, “1963”).
Em “True Faith”, a eletrônica é bem dominante e quase deixou de fora o baixo de Hook. Mas Substance abre com “Ceremony”, uma música de rock pulsante, basicamente guitarra-baixo-e-bateria, como é o caso da já mencionada “Sunrise”.
Antes de Brotherhood vir a público, dois singles, ambos incluídos em Substance, seguiram-se ao lançamento de Low-Life, “Shellshock” (1985) e “State of the Nation” (1986). Enquanto a primeira é quase integralmente eletrônica, na outra ouvimos com nitidez as inserções de percussão, guitarra e baixo. Foi com o álbum de 1986 que esse equilíbrio foi convertido em uma divisão.
Irmandade fraturada
Em depoimento para o podcast Transmission, Morris pontua que não havia muitas ideias quando a banda adentrou o estúdio em 1986 para a gravação de Brotherhood. De todo modo, vale observar que quatro das nove faixas já haviam sido apresentadas em shows no ano anterior.
A necessidade de aprender a manejar novos equipamentos eletrônicos foi uma distração e um desafio. Essa é uma constante na trajetória da New Order. Dessa vez, a origem das novidades era o Japão, país com o qual a banda tinha uma relação estabelecida (registrada no vídeo Pumped Full of Drugs, também de 1986).
As gravações de Brotherhood ocorreram entre abril e maio. Começaram no Jam Studios em Londres, continuaram no Windmill Lane Studios em Dublin e terminaram no Amazon Studios em Liverpool. Em todo o processo, a banda esteve acompanhada pelo engenheiro Mike Johnson, antigo colaborador, que foi também a testemunha principal dos conflitos que cercaram a produção do álbum. A mesa de som foi o palco de um cabo de força entre Hook e o restante da banda: o primeiro a favor de um maior destaque para seu instrumento e os demais em prol dos elementos eletrônicos.
A presença de um produtor poderia ter administrado esses conflitos. Para piorar, Rob Gretton, o empresário da banda desde os tempos da Joy Division, estava fora de combate, internado por problemas psiquiátricos. O resultado foi um álbum que expressa em sua divisão a cisão que tumultuava o quarteto.
O lado A abre com “Paradise”, que até começa com um baixo eletrônico. Mas logo cede a cena para os instrumentos tradicionais do rock. É a New Order tentando ser sexy. O contraponto vem em seguida, com a vigorosa e extasiante “Weirdo”.
“As It Is When It Was” é, no repertório de Brotherhood, provavelmente a música mais antiga e a segunda mais executada até hoje. Segundo Hook, foi gravada no Japão e aproveita o riff de baixo de “Love Will Tear Us Apart”. Sua marca, contudo, é o contraste entre a delicadeza e a intensidade.
“Broken Promise” é a faixa mais frenética do álbum, com destaque para o solo de Sumner. A linha de baixo lembra outra canção da Joy Division, “Isolation”. “Way of Life”, por sua vez, sustenta-se em uma melodia que resulta da inversão do riff de uma faixa do álbum de 1983, “Age of Consent” (confissão do próprio baixista). Sua parte final é engenhosa, com um diálogo entre os instrumentos, enquanto a música vai se desmanchando.
E assim termina o lado A, com faixas que destacam a sonoridade do baixo e das guitarras. Com exceção da entrada em “Way of Life”, em que Morris faz um dueto impressionante com Hook, as inspirações do baterista foram deixadas para o lado B.
É então a vez de “Bizarre Love Triangle”, na perfeita descrição de Andrew Unterberger, “uma canção de synth-pop arrebatadora e sem igual, combinando melodias clássicas de soul e uma reverência lírica que beirava o gospel com camadas e mais camadas de ganchos eletrônicos hipnotizantes, criando, assim, uma joia incandescente do amor digital típico de meados dos anos 80”.
Sua melodia resistiu bem ao tempo, como provam as inúmeras versões de outros artistas. A própria New Order lançou a faixa em diversas mixagens e podemos escolher entre a do álbum (minha preferida), a que está em Substance (também lançada como single em novembro de 1986, acompanhado de um vídeo) e a que foi incluída na coletânea de 1994. Está entre as três músicas mais tocadas em shows da banda até hoje.
“All Day Long” e “Angel Dust” tem menos apelo, mas não são menos interessantes, se observamos suas complexas construções. A primeira, em intervenções instrumentais sucessivas ou simultâneas, cita passagens do “Prelúdio” de uma das óperas de Wagner. A segunda dá destaque aos teclados, em múltiplas camadas, mas termina com um longo solo de guitarra. A banda buscou inspiração em Ennio Morricone e sampleou as vozes de um chamado-para-orações muçulmano gravado pela cantora libanesa Dunya Yusin.
O álbum termina com “Every Little Counts”, com sua melodia serena e alegre. Hook entrega novamente o jogo ao admitir que surrupiou o riff de “Emma”, da Hot Chocolate, uma banda britânica de soul. A calma é quebrada por um final composto por teclados literalmente apocalípticos, mais impactante ainda no vinil (pois parece que há um defeito no disco).
Na parte lírica, predominam temáticas de desencontros e decepções, confrontações e confusões em relacionamentos nunca bem definidos. Um exemplo está em “Bizarre…”: “Não tenho certeza do que isso pode significar / Não acho que você seja quem aparenta ser / Admito para mim mesmo / Que, se eu magoar outra pessoa / Nunca verei o que estamos pretendendo ser”.
Em “All Day Long”, as coisas ficam mais pesadas com as alusões a abuso infantil. Já “Paradise” é uma celebração dos desejos. “Every Little Counts” retoma a temática geral, mas em um registro abertamente irônico. Com Sumner soltando risadas, é a banda pedindo para não ser levada a sério.
Brotherhood mostra a New Order compondo coletivamente suas letras (às vezes com contribuições de Gretton), mesmo quando finalizadas apenas na última hora. A partir do álbum seguinte, Sumner assumiria a autoria principal, um fator que a longo prazo serviria para abalar a coesão do grupo.
Como em outras vezes, a capa do álbum é um capítulo à parte em sua história. Peter Saville, que na Factory assumia essa tarefa, novamente se superou. Inspirando-se no artista francês Yves Klein, utilizou fotos de chapas metálicas sensibilizadas por luzes que produziram o tom azulado como resultado. A versão original não traz sequer o nome da banda, mantendo o padrão rompido apenas por Low-Life, quando os rostos dos músicos aparecem na capa e no encarte.
Uma das primeiras apresentações do quarteto após o término das gravações de Brotherhood ocorreu na cidade natal, Manchester, no evento que celebrava os 10 anos do primeiro show dos Sex Pistols por lá. Estavam muito bem acompanhados, ao lado de The Fall e The Smiths, entre outras atrações. No set de 10 músicas, apenas três pertenciam ao álbum que seria lançado em seguida, estabelecendo a regra que seria mantida na longa turnê.
O principal palco da banda nessa turnê foram os Estados Unidos, com 30 apresentações até o final de 1986. A fama da New Order por lá havia se beneficiado com a inclusão de músicas suas em dois filmes lançados naquele ano, A Garota de Rosa-Shocking e Totalmente Selvagem. O país havia se tornado a prioridade em termos de mercado. E dinheiro era algo que a Factory precisava desesperadamente, por conta dos prejuízos propiciados seja por outras bandas de seu cast, seja pela aventura empresarial do Haçienda (lendária danceteria de Manchester).
No Brasil, a New Order só desembarcaria para seis shows em novembro de 1988. Algumas faixas de Brotherhood foram incluídas em sets: “Bizarre…”, “Paradise” e “Every Little Counts”. Note-se que o álbum só foi lançado aqui em 1987, juntamente com Power Corruption & Lies e Low-Life. No ano seguinte, a WEA lançou o vinil duplo de Substance. Na época dos shows, Technique já havia sido gravado e a plateia tupiniquim foi agraciada com algumas das primeiras execuções das novas músicas.
Aliás, a organização de Technique (1989) retoma, com um pouco menos de rigor, a divisão rock/eletrônica em dois lados. Arrisco dizer que enquanto as faixas eletrônicas mantêm o nível de Brotherhood, as faixas baseadas em guitarra-baixo-bateria ficam abaixo. Nesse formato, a banda só voltaria a mostrar inspiração em Get Ready (2001).
A sonoridade que a New Order desenvolveu ao longo dos anos 1980 merece toda a atenção de nossos ouvidos e músculos. É a prova de que programações e riffs podem conviver muito bem. Quanto a Brotherhood, seu lado rock, ainda que pague algum tributo ao passado, é empolgante, ao passo que as complexas composições de drum machines e teclados do lado eletrônico não ofuscam o baixo e as guitarras.
Nota: a versão “definitiva” de Brotherhood lançada em 2024, além de demos de algumas faixas e de singles lançados na mesma época, traz versões instrumentais ou alternativas de algumas músicas (destaque para a versão longa de “Every Little Counts”). Há também o material composto pela New Order para o filme Salvation! (1987), incluindo temas instrumentais e as músicas “Touched by the Hand of God” (também divulgada como single com um vídeo hilário) e “Let’s Go” (esta das sessões de Low-Life).

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).
