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Adriana, Arnaldo e a linha alternativa do tribalismo

 

 

 

 

Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes – Vice-Versa
35′, 11 faixas
(Universal)

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

 

 

 

 

Impossível ouvir as onze faixas de “Vice-Versa”, o disco em parceria que Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto lançaram de surpresa hoje, dia 22 de setembro, sem pensar numa espécie de linha alternativa do trabalho que o ex-Titã fez com os Tribalistas. Sim, porque há aqui, assim como nos dois álbuns que Arnaldo gravou com Carlinhos Brown e Marisa Monte, um pouco de samba intelectual, poesia concreta light, o vozeirão grave em contraste com um registro mais agudo, um monte de tiques e taques que identificam e conectam esses discos. E Adriana, uma compositora que também funciona no mesmo campo, com poucas – mas ótimas – concessões à música mais pop ao longo de sua própria carreira, aceita esse lugar de “quarta tribalista honorária”, sem muita cerimônia. Ainda que essa empreitada conjunta tenha alguns motivos para ser louvada, ela não escapa do previsível e do óbvio, não indo muito além do que seria esperado de artistas como Arnaldo e Adriana. Mas, como toda obra de arte é produto do tempo em que é elaborada, “Vice-Versa” ganha uma camada extra de predicado, visto que foi gravado e lançado num momento histórico em que o país se encontra entre a civilização e a barbárie. Isso faz diferença na leitura final do disco. Como não?

 

A dupla já tem mais de trinta anos de parcerias esporádicas, que revelam simpatia, afinidade estética e até visões de mundo que parecem convergir. Além disso, foram várias participações de ambos em shows, festivais, livros e conferências um do outro e o espanto de constatar uma única canção conjunta: “Pra Lá”, de 2006, indicada ao Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa e presente no álbum “Qualquer”, lançado por Arnaldo. Em 2024, finalmente, os dois apresentaram seu primeiro show conjunto, no Coala Festival, em São Paulo. Veio então a vontade de prolongar aquele encontro em uma turnê, que agora a dupla vai colocar em ação no primeiro semestre do ano que vem, mas ambos sentiram que seria incompleta se apenas trouxesse os sucessos individuais. Daí veio a vontade de compor e gravar novas canções, compostas em parceria, especialmente feitas para o momento. Daí vem o álbum e ele nasce com essa identidade compartilhada, mostrando que a tal afinidade estética e as convergências que mencionamos acima, se conferem coesão às canções, deixa pouco espaço para esse “respiro pop” que tempera as carreiras de ambos. E são esses momentos que respondem pelas partes legais de “Vice-Versa”.

 

Dentro dessa especificação, “Você Não Vai Me Achar” é um belo exemplo de sinergia e talvez a canção mais bacana presente no disco. A melodia é leve e bem colocada, a letra não abre mão da poesia cotidiana (“Uma hora isso passa // É o que você acha // Tudo bem // Eu tô bem // Mas você não vai me achar // Nunca mais”) e, ainda que o arranjo tenha ecos do “tribalismo” pregresso, a canção funciona. Outro exemplo, mas excessivo na sensação de dejá vu, é “Na Minha Carne Viva”, que parece uma composição de Arnaldo gravada por Marisa Monte, inclusive com semelhanças com outros registros, como “Carnavália”, por exemplo. Há mais semelhanças estéticas com os Tribalistas, especialmente em relação ao primeiro álbum, em “Por Ti, Por Mim, Por Nós”, ainda que o arranjo contemplativo e lento seja um real destaque na gravação. “As Bancas de Jornais” é puro Arnaldo Antunes (“As bancas de jornais // Já não vendem mais // Jornais // As bancas de revistas // Já não vendem mais // Revistas”) percorrendo um inventário material que tem a ver com as necessidades que o capitalismo vai criando e as pessoas vão absorvendo em suas vidas, sem se dar conta da necessidade real. A letra é boa, cinematográfica, mas se perde em algum ponto dessa lista de itens à venda.

 

“Vice-Versa” tem um elemento percussivo forte, que se deve, essencialmente, à presença e produção de Pupillo, que maneja um repertório extenso de instrumentos e imprime seu toque em várias faixas. Na abertura, com “Também Capaz”, a letra que incentiva o indivíduo a refletir um pouco diante do cotidiano esmagador surge em ritmo de samba. Já em “Contemplando a Folia” essa presença está no arranjo, no próprio andamento, que lembra um toque de capoeira subterrâneo, mas que se disfarça em perfumarias instrumentais. Em “Sorriso Livro”, canção de autoria de Carlinhos Brown e Edmundo Caroso, gravada primeiramente em 2006, pela Timbalada, o inglês e o português se misturam e a letra percorre a estética browniana típica, com figuras da paisagem da cidade “Hell, mas não me olhe assim, don’t cry”. É apenas ok. Há guitarras altinhas – a cargo de Pedro Sá – em “Não Me Dão”, outra canção que tem o DNA de Arnaldo, assim como “Agora Juntos”, que abusa do registro grave e peculiar do cantor, algo que é indicado apenas para fãs já convertidos previamente. “Não Me Deu” também investe em outro terreno familiar para os dois – o jogo de palavras e a letra como uma lista de palavras: “Graças a Deus // Deus não me deu // Seguro de vida, atestado de óbito, comprovante de residência”, lembrando “Nome Aos Bois”, do longínquo “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”. A única canção que soa mais como o que Adriana Calcanhotto fez recentemente é “Se For Pra Ser Agora”.

 

“Vice-Versa” é dentro da média. Não brilha intensamente como poderia ser, não é desprezível, tem seus momentos. Só é extremamente morno, seguro, pouco surpreendente. Para dois artistas que se apresentam como arrojados e angulares, tudo aqui é redondo, controlado, previsível.

 

Ouça primeiro: “Você Não Vai me Achar”, “As Bancas de Jornais”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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