Beabadoobee sobe o volume em novo álbum

Beabadoobee – Pylon
41′, 14 faixas
(Interscope)
(4 / 5)
Beatrice Kristi Ilejay Laus, também conhecida como Beabadoobee, está com 25 anos. Segundo as primeiras reportagens e notas sobre este “Pylon”, seu quarto álbum em sete anos de carreira, ela está “em crise”. Não sei bem se antecipou a “crise dos 30” ou se esta é uma nova efeméride na vida da galera nascida a partir do ano 2000, mas é fato que a sonoridade da moça transformou-se significativamente. Se antes ela oscilava entre o folk e o pop com doçura e informação, mais ou menos na mesma caixinha de Laufey e congêneres, agora ela soa como os momentos mais dinâmicos de Olívia Rodrigo, mas com uma contundência um tanto maior. Beebadoobee não tem a capa “disney” que a superstar enverga e da qual ainda não se livrou, o que a faz abraçar essa fase mais, digamos, pesadinha, com vigor e felicidade. Se já havia provado ter bastante talento nos três álbuns anteriores, dois deles produzidos por Rick Rubin, Beatrice confirma esse brilho, assume a produção junto com seus músicos de apoio e ainda chama uma galera do início do milênio para colaborar nas faixas do disco. Hayley Williams (Paramore) e Chino Moreno (Deftones) estão a bordo, junto com Shane Moran (o Title Fight), Evan Stephens Hall, do Pinegrove e Brendan Yates, do Turnstile. O resultado é bom.
Ainda que a orientação de “Pylon” seja soar mais pesado e enguitarrado, o álbum não cai na armadilha da descaracterização em relação ao que Beabadoobee fez até aqui. Pelo contrário, soa exatamente como se a cantora passasse mesmo por uma fase, desejasse submergir numa sonoridade específica para, mais à frente, voltar ao curso normal, transformada ou não. Esta descrição cabe melhor no disco e o legitima como é, um álbum de transição. A cantora é hábil o bastante para não soar derivativa e sem identidade e até chega a surpreender, como no hit “Memories”, em que soa parecida com bandas como The Sundays. Não por acaso, há uma versão fofinha de Beaba para “Here Where The Story Ends”, o maior hit do grupo inglês, em algum lugar no YouTube, em que ela faz uma homenagem sincera à canção e confirma sua afinidade vocal com Harriet Wheeler, vocalista dos ingleses. E essa é uma constante na carreira dela: a ótima voz, ainda que confinada no padrão mais frágil e agudo. Aqui, nessas novas faixas, é possível ver Beabadoobee exercitando sua capacidade vocal e adaptando-se a essa demanda por vocais menos sutis.
A ideia de fazer um disco com faixas mais enguitarradas surgiu na estrada, ao longo da turnê do trabalho anterior, “This Is How Tomorrow Moves”, lançado em 2024 e que teve faixas com marcas além dos 300 milhões de streams no Spotify. Não deixa de ser corajoso ressurgir em tão pouco tempo com uma postura diferente, como nos clipes de “Sun Has Set” ou “Memories”, ou mesmo no mais novo episódio da ótima série “What’s In My Bag”, no perfil da Amoeba no Youtube. Ali, Beabadoobee aparece elétrica, radiante, escolhendo, não por acaso, álbuns de seus colaboradores mais recentes, como “White Pony”, do Deftones ou “Floral Green”, do Title Fight. De qualquer maneira, seu apreço por essa musicalidade emo da virada do milênio, que tem a mesma idade que ela mesma, parece sincera e adequada, além de funcionar nas canções que ela apresenta em “Pylon”. O disco tem coesão e desce redondo, empurrado por algumas faixas realmente bacanas, que cumprem seu papel sem soar forçadas ou artificiais.
De cara, a já mencionada “Sun Has Set”, em parceria com Shane Moran, se destaca por conta das guitarras altas e da bateria em looping. Os vocais estão menos angelicais, percorrendo uma letra que, segundo a cantora, é sobre odiar alguém e querer gritar na cara do desafeto. Quem nunca? A faixa seguinte, “Estranged” é outro bom exemplo, da estética que Beabadoobee abraça aqui. Tem ecos de Smashing Pumpkins fase “Mellon Collie”, mas sem mergulhar na ambiência dark de Billy Corgan, as dinâmicas de guitarra e da própria melodia cumprem essa função. “Nothing To Prove”, gravada com Hayley Williams, do Paramore, é mais calma, porém não abre mão da contundência na letra, que fala sobre não precisar dar satisfações do que se quer fazer. O refrão tem vocais cantarolados, que devem funcionar bem ao vivo. “Powerlines” tem a participação de Brendan Yates, e começa mais climática, criando um clima de expectativa numa crescente, que não chega a se confirmar, mas que mantém o ouvinte tenso. “Satellite” tem os vocais de apoio de Chino Moreno, um dos sujeitos mais injustiçados da história, excelente cantor, que prova sua excelência aqui. O arranjo é bacana, misturando dedilhados mais climáticos com explosões controladas de guitarra. E “Memories”, outra da qual já falamos, também se confirma como um dos destaques por aqui.
“Pylon” não traz novidades e nem quer. Mas, para quem está na crise dos 25 anos, talvez um disco assim seja a melhor maneira de expressar o que se sente, tanto para quem grava, quanto para quem ouve. Faz sentido.
Ouça primeiro: “Sun Has Set”, “Memories”, “Estranged”, “Switchblade”, “Powelines”, “Satellite”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
