Os imorríveis Rolling Stones lançam mais um ótimo disco

Rolling Stones – Foreign Tongues
62′, 14 faixas
(Universal)
(4,5 / 5)
Você já se deu conta de que estamos na sétima década de atividade dos Rolling Stones? Pense bem nisso. De 1963, quando estrearam com o single “Come On” e avançaram com sua versão de “I Wanna Be Your Man”, para cá, foram incontáveis histórias, reviravoltas, idas, vindas, perdas – para a morte, para as circunstâncias – e, acima de tudo, permanência. De alguma forma, provavelmente pela mistura de habilidade e tino comercial, os Stones se mantiveram presentes, urgentes e, mesmo quando não foram relevantes, influenciaram a moda, a música e a cultura pop. Mick Jagger, Keith Richards e Ron Wood chegam agora a mais um álbum, “Foreign Tongues”, que dá sequência ao incensado “Hackney Diamonds”, lançado em 2023 e, segundo entrevistas, já estariam preparando canções para mais um disco, a ser lançado logo. Ao contrário de bandas que apostam na nostalgia e conduzem turnês de retorno sem um mísero single inédito, os Stones vão pela linha contrária – compõem, gravam e exercitam seu músculo criativo de forma absolutamente brilhando. A exemplo de “Hackney Diamonds”, esse “Foreign Tongues” tem canções maravilhosas, dentro do extenso cânon stoneano, dando conta de sua mistura de blues, rock, funk e mitologia. Tem acenos ao soul mais clássico, outra fixação dos caras ao longo do tempo, tem senso de humor e tem, acima de tudo, uma sonoridade muito bem urdida, tanto pelo trio, quanto por Andrew Watt, mais uma vez ocupando a cadeira do produtor.
Passear pelas faixas do álbum é uma delícia. Não dá pra não abrir o sorriso, por exemplo, em “Divine Intervention”, um dos rocks mais característicos do que poderíamos chamar de “padrão Stones”, com uma levada propulsiva de baixo e bateria (a cargo de Daryl Jones e Steve Jordan), com as guitarras de Richards e Wood apostando corrida em meio à melodia e aos vocais impressionantes de Mick, que, aos 82 anos, desafia a lógica e o tempo. “Foreign Tongues” é bacana tanto nesses momentos mais básicos, quando na grande quantidade de participações bacanas que ajudam a temperar o disco ainda mais. Nesta faixa mesmo, Robert Smith aparece com backing vocals. E tem gente muito graúda como, por exemplo, Steve Winwood, praticamente foi integrada à banda no estúdio. Ele participa de doze, das quatorze canções, seja no piano, seja no órgão. Quando não está, Benmont Tench, ex-Heartbreakers, o substitui com louros. Paul McCartney também está por aqui, logo ele, que lançou um belíssimo álbum há cerca de um mês, toca baixo em “Covered In You”, uma daquelas faixas híbridas de funk que os Stones adoram fazer de quando em quando. Paul, que sempre foi excelente baixista, mostra sua marca na gravação.
O líder do The Cure ainda aparece nos backing vocals e sintetizadores em “Never Wanna Loose You”, outra faixa dançante, com uma batida que poderia ser considerada bem próxima da disco music, mas que vai um pouco além, com ótima presença do baixão de Jones e de outro “feat”, Bruno Mars, que toca cowbell. E tem até a presença de Charlie Watts, com sua levada característica de bateria, em “Hit Me In The Head”, outro rockão incandescente em alta velocidade, registrado na última sessão dele com a banda, em 2021. Há alguns detalhes que são bem interessantes, especialmente se levarmos em conta o tempo de janela dos Rolling Stones. “Mr Charm”, que vai nesse híbrido dançante/roqueiro habitual, faz crítica ao multibilionário elon musk, colocando-o como alguém que é capaz, basicamente, de enganar as pessoas mais ingênuas. Tem versão de Amy Winehouse em “You Know I’m No Good”, na qual Jagger dá um tom menos triste do que na gravação original, dando um colorido diferente e mais diverso à canção, numa reverência à cantora e compositora inglesa, precocemente falecida em 2011. A outra cover presente aqui é “Beautiful Delilah”, do baú de Chuck Berry, em um tom blues que mais parece uma gravação de Bob Dylan, com participação do Red Hot Chili Pepper Chad Smith no bumbo.
Os momentos de brilho dos Stones ao longo de “Foreign Tongues” são muitos. Tem a balada “Some Of Us”, cantada por Keith, o funk rock de têmpera oitentista de “Side Effects” (outra ótima performance de Jagger) e outra bela balada, “Back To Your Life”. Há quatro canções que fazem a diferença e transcendem todo o resto. “In The Stars”, uma daquelas faixas em midtempo que eles fazem tão bem, com vocais celestiais e uma levada sólida de guitarras, tem um riff característico de Keith Richards reconhecível a milhas de distância. É minha favorita pessoal do disco, seguida de perto por “Jealous Lover”, cantada por Jagger num impressionante falsete para quem já está na oitava década de vida. Lembra as origens sessentistas dos Stones, quando eles, os Beatles e todo mundo de sua geração queria ser contratado da Motown Records e cantar canções de Smokey Robinson. Ambas as bandas conseguiram, mas a influência do homem parece ainda presente. Essas duas, mais a já citadas correrias de “Divine Intervention” e “Hit Me In The Head” compõem o meu “quadrado mágico” do disco.
“Foreign Tongues” é do mesmo nível de “Hackney Diamonds”. Eles mostram uma banda em forma, criativa, fazendo o que sabe e desfrutando da experiência, da longevidade e do entrosamento telepático adquirido em tanto tempo de carreira. Não dá pra pensar num disco mais bacana para os Stones em pleno 2026. Temos muita sorte.
Ouça primeiro: “Hit Me In The Hear”, “In The Stars”, “Divine Intervention”, “Jealous Lover”, “Covered In You”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
