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Os Últimos Inocentes: ou como foi meu pequeno encontro com o Redd Kross

 

 

 

Existe um tipo de reconhecimento que nenhuma parada de sucessos consegue medir. Ele se manifesta quando uma banda segue viva na cabeça de músicos, críticos e ouvintes muito depois de seu momento de maior visibilidade. O Redd Kross é prova disso, e o fim de semana em São Paulo deixou essa impressão ainda mais forte.

 

Antes de tudo, é preciso reconhecer quem tornou esse encontro possível. A primeira passagem do Redd Kross pelo Brasil foi viabilizada pela Maraty Concerts, com um trabalho que merece ser celebrado, especialmente por André Barcinski, cuja atuação foi decisiva para transformar um desejo antigo de tantos fãs brasileiros em realidade. Em tempos em que turnês costumam privilegiar artistas de enorme apelo comercial, trazer uma banda de importância histórica como o Redd Kross é também um gesto de preservação da memória.

 

Para mim, essa banda sempre ocupou um lugar à parte. É uma daquelas paixões musicais que a gente carrega por anos sem nunca imaginar que terá a chance de ver ao vivo; uma banda imensamente amada por quem a conhece e, ao mesmo tempo, distante o suficiente para parecer inalcançável. Por isso, aquele fim de semana em São Paulo teve um peso especial. Não se tratava apenas de assistir a um show. Era, enfim, encontrar de perto algo que durante muito tempo pareceu pertencer apenas aos discos, aos livros e às histórias contadas por outros.

 

 

Quinta-feira: como começou

 

 

A exibição de “Born Innocent: The Redd Kross Story” na programação do In-Edit Brasil deu uma dimensão ainda maior a essa visita. Mais do que promover um documentário, o festival proporcionou um encontro entre a história da banda e seu público. Merece destaque, nesse contexto, o trabalho de Marcelo Aliche, cuja atuação foi fundamental para que essa sessão acontecesse e se transformasse em uma experiência tão especial para quem esteve presente. Em vez da fórmula batida de ascensão-queda-redenção, o filme escolhe outro foco: as pessoas por trás da lenda.

 

Steven e Jeff McDonald fundaram a banda em 1978. Steven tinha onze anos. Jeff, quinze. Dois meninos circulando por uma Los Angeles em plena efervescência do punk e do hardcore, dividindo cena com The Germs, X e Black Flag. O documentário resgata imagens raras daquele período, mas seu maior mérito está em deslocar o olhar da cena para a vida privada. Mais do que acompanhar o nascimento de uma banda, ele revela dois irmãos cercados pelo afeto de pais presentes, tentando encontrar seu lugar em um universo tão fascinante quanto imprevisível.

 

O documentário não cede à tentação de romantizar a trajetória da banda. O sumiço por meses de Steven ainda criança, os problemas de dependência enfrentados por Jeff e as dificuldades que atravessaram a vida dos dois são abordados com honestidade, mas sem recorrer ao sensacionalismo. Talvez por isso essas passagens sejam tão impactantes. Durante a conversa com o público após a exibição, Steven e Jeff fizeram uma observação de que aquele era o filme de Andrew Reich, não o filme do Redd Kross. A frase, aparentemente simples, ajuda a compreender a natureza do documentário. Eles não buscaram controlar a narrativa nem suavizar os episódios mais difíceis de sua história. Entregaram ao diretor a liberdade para construir seu próprio olhar sobre a banda. O resultado é um filme que preserva a complexidade de seus personagens e ganha credibilidade justamente por não parecer uma obra de autopromoção.

 

E há um fio condutor que atravessa o documentário inteiro: o sucesso comercial que nunca veio na escala que muita gente esperava. Steven e Jeff não fingem indiferença, pois eles queriam, sim, viver de música e alcançar um público maior. Mas falam disso sem amargura, com uma serenidade rara em documentários de rock. Ao redor deles, uma fileira de nomes – Thurston Moore, Mike Watt, Lou Barlow, Jennifer Finch, Mark Arm, Jeff Ament – não aparece para elogiar por elogiar, mas para posicionar o Redd Kross como uma das bandas mais influentes do rock alternativo americano.

 

A conclusão que fica é que existe diferença entre ser uma banda popular e ser uma banda formadora. O Redd Kross escolheu, ou foi escolhido para, o segundo lugar. Em determinado momento, Steven é chamado de uma espécie de Paul McCartney da cena alternativa. Horas depois, no palco, a comparação faz total sentido.

 

Depois da sessão, Steven e Jeff ficaram para conversar com a plateia, respondendo a tudo com humor e atenção genuína. Quando contamos que tínhamos vindo de Teresina – Piauí só para aquilo, a sala aplaudiu. Rimos.

 

Sexta-feira à tarde: autógrafos

 

 

Na sexta-feira à tarde, o encontro com a banda aconteceu na London Calling Discos, tradicional loja localizada na Galeria do Rock, em São Paulo. Foi ali que fãs de diferentes lugares do Brasil tiveram a oportunidade de encontrar Steven McDonald, Jeff McDonald, Jake Shapiro e Dale Crover de perto. Não poderia haver cenário mais apropriado. Cercados por discos, pôsteres e décadas de história do rock, os integrantes do Redd Kross transformaram a loja em um espaço de celebração e convivência, muito mais próximo de uma conversa entre apaixonados por música do que de um compromisso promocional.

Jake Shapiro, Dale Crover, Jeff McDonald e Steven McDonald receberam cada fã com a mesma tranquilidade, atenção e generosidade. Conversavam, sorriam, posavam para fotos. Não havia a pressa protocolar que costuma acompanhar esse tipo de evento, mas a sensação de que todos entendiam o valor daquele momento para quem esperou tantos anos para encontrá-los.

 

Tínhamos esquecido nossos CDs em Teresina – um pequeno desastre para quem havia atravessado o país para vê-los. Improvisamos. Compramos uma camiseta da banda para que todos a autografassem.
No fim, acabou sendo melhor assim.

 

 

Ela deixou de ser apenas uma camiseta. Tornou-se um objeto que guarda a lembrança inteira daquele encontro: a simpatia de Jake, a serenidade de Dale, o humor de Steven, a gentileza de Jeff e a rara sensação de perceber que músicos tão importantes conseguem permanecer extraordinariamente acessíveis.

 

Sexta-feira à noite: a abertura

 

A noite no Cine Joia teve um sentido de celebração coletiva. O evento marcava os 40 anos da London Calling Discos. Antes do Redd Kross, a noite já havia criado seu próprio clima. A Alphawhores, do Panamá, trouxe uma apresentação forte, direta e cheia de presença, funcionando como uma abertura muito coerente para uma banda como o Redd Kross. A Twin Pines, representante brasileira no evento, também teve um papel importante nessa construção. A banda ajudou a aproximar o público do universo sonoro que viria depois, com uma apresentação segura e envolvente, mostrando que a escalação não era apenas protocolar. A discotecagem da DJ Flávia Durante completou esse espírito. Mais do que preencher intervalos, ela ajudou a costurar a atmosfera da noite, mantendo o público dentro de uma mesma ideia de celebração musical. Sua seleção reforçou o caráter afetivo do evento: não era apenas uma sucessão de shows, mas uma noite dedicada à cultura do rock, aos discos e às bandas de culto.

 

Sexta-feira à noite: o grand finale

 

 

O Cine Joia recebeu uma banda que parece ter resolvido sua relação com o tempo há muito tempo. Nada de nostalgia embalsamada: o Redd Kross toca como se aquelas canções tivessem sido escritas ontem.

 

“Huge Wonder” abriu o show, vieram depois “Stay Away From Downtown”, “Lady in the Front Row”, “Candy Coloured Catastrophe”, “Switchblade Sister”, “Jimmy’s Fantasy”, “Neurotica” e “Emanuelle Insane”, um repertório que expõe a linguagem particular que Steven e Jeff construíram, onde punk, glam, power pop, hard rock e melodias convivem sem atrito.

 

É um dos pontos centrais do documentário. O Redd Kross nunca respeitou as fronteiras de bom gosto impostas pela própria cena punk. Enquanto os contemporâneos buscavam autenticidade rejeitando a cultura pop, os irmãos McDonald fizeram o oposto: abraçaram-na sem culpa. Os covers da noite confirmam isso. “I’ll Blow You a Kiss in the Wind” (Tommy Boyce e Bobby Hart) e “Crazy World” (Frightwig) mostram o apetite da banda por tradições musicais que, em teoria, não deveriam se encontrar. Já “It Won’t Be Long”, dos Beatles, é quase uma confissão. Depois do documentário, fica impossível não enxergar Lennon e McCartney por trás da composição deles.

 

O bis reforçou a ideia com bom humor. “Cover Band” funciona quase como uma declaração de princípios sobre a relação da banda com a própria história do rock. Depois vieram “Clorox Girls”, “I Hate My School” e “Standing in Front of Poseur”, recuperando a fúria dos primeiros anos. O encerramento com “Crazy Horses” (Osmonds) e “Deuce” (KISS) resume bem o que torna o Redd Kross único. Poucas bandas atravessam dos Beatles ao KISS, do pop sessentista ao glam, do punk ao hard rock com essa naturalidade toda. Ali, essas referências não competem, convivem.

 

Foi no palco que várias cenas do documentário fizeram mais sentido. Steven tem um carisma raro e domina o palco sem esforço aparente, alternando baixo, voz e conversa com o público, dá para entender por que já testou para bandas como Weezer e Foo Fighters. A pergunta deixa de ser “por que o chamaram?” e passa a ser “como ele não acabou em um desses grupos?”. Acho que a resposta esteja justamente em seu carisma. Steven McDonald ocupa o palco com uma naturalidade rara, dessas presenças que inevitavelmente atraem o olhar do público. É difícil imaginá-lo desempenhando um papel secundário por muito tempo. Jeff ocupa outro espaço, igualmente indispensável, e a cumplicidade entre os dois não é coisa de ensaio. É uma linguagem construída ao longo de uma vida inteira que só poderia vir mesmo de dois irmãos.

 

O show foi intenso e elegante mesmo na sua bagunça aparente. Tem banda que executa um repertório com perfeição. O Redd Kross simplesmente o habita. Destaco, também, a força da formação que os acompanha. Jake Shapiro está longe de exercer um papel secundário. Muito mais do que um guitarrista de apoio, ele se tornou uma peça essencial na sonoridade e na dinâmica do Redd Kross ao vivo. Sua presença de palco é intensa, segura e extremamente comunicativa. Está em constante movimento, interage com Steven e Jeff o tempo todo e estabelece uma conexão espontânea com o público, sem jamais parecer excessivo ou disputar protagonismo. Seu modo de tocar também merece destaque. Jake alterna bases sólidas com intervenções melódicas e pequenos detalhes que enriquecem os arranjos sem descaracterizar as canções. Há uma elegância em sua guitarra: ela sustenta, colore e impulsiona a banda ao mesmo tempo. É um músico que entende que uma grande performance não se faz apenas com virtuosismo, mas com escuta, presença e generosidade artística.

 

Na bateria, Dale Crover confirma por que é considerado um dos grandes nomes do rock alternativo. Seu currículo dispensa apresentações, mas vê-lo ao vivo impressiona ainda mais. Preciso, poderoso e aparentemente inesgotável, Crover conduz o show com uma combinação rara de técnica e força. Cada virada soa precisa, cada ataque impulsiona a banda para a frente. Em “Neurotica”, introduzida por um solo de bateria, ele oferece uma demonstração de autoridade sem cair no exibicionismo. É uma atuação de quem domina completamente o instrumento e entende que a bateria, no Redd Kross, não apenas marca o tempo.

 

Aí vieram os primeiros acordes de “Mess Around”, e não tive como segurar a emoção, não só pela música em si, mas por tudo que se acumulou desde quinta-feira: o documentário, as conversas, a tarde de autógrafos, a generosidade dos caras que tratam cada fã como se fosse o único ali. Enfim, chorei de felicidade.

 

Saí do Cine Joia com uma convicção que a história do Redd Kross não pode ser compreendida apenas pelos parâmetros habituais da indústria fonográfica. O reconhecimento comercial que muitos imaginavam para a banda talvez nunca tenha chegado na mesma proporção de seu talento e sua determinação, mas isso diz muito pouco sobre seu verdadeiro legado. O Redd Kross encontrou uma forma muito mais duradoura e rara de permanecer: tornou-se uma influência decisiva para músicos, uma companhia constante para seus ouvintes e uma banda capaz de atravessar gerações sem perder o poder de despertar descobertas. Existem artistas que ocupam as paradas por alguns meses. Outros passam a ocupar um lugar definitivo na vida de quem os escuta. É nesse segundo grupo que o Redd Kross parece estar destinado a permanecer.

Maisa Carvalho

Maísa Mendes de Carvalho é piauiense com toques paulistas, advogada, criadora e apresentadora do Distorção Podcast, amante das artes humanas e apaixonada por música.

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