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The Avalanches revisitam tecnologia vintage em novo disco

 

 

 

The Avalanches – No Bad Memories
52′, 31 faixas
(Modular)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Os australianos do The Avalanches – Tony di Blasi, Robbie Chater e o novo integrante, Andy Szekeres – são responsáveis por uma obra-prima: seu primeiro álbum, lançado em 2000, “Since I Left You”. Com ele, os caras levaram a engenharia de samplers a um nível de arte, deixando de lado apenas a engenhosidade e as ótimas sacadas e atingindo patamares inéditos de sensibilidade. O impacto foi tão grande que o segundo álbum só apareceu dezesseis anos depois. “Wildflower” é bom, bacana e segue o mesmo padrão, mas algo ficou faltando. O terceiro, “We Will Always Love You”, de 2020, atinge o mesmo nível de êxito, optando por uma sonoridade um tanto mais melancólica, porém ainda com gosto de algo faltando. Agora, com “No Bad Memories”, o grupo segue sem repetir o brilho intenso de sua estreia, mas supera de longe os dois trabalhos anteriores. Ainda que os lançamento do The Avalanches padeçam de uma crescente “gorillificação”, com hordas de colaboradores e uma certa overdose de ideias que ficam no meio do caminho, aqui, neste ambicioso painel de 31 faixas, dezenas de participantes e 52 minutos de duração, o resultado é sensacional. E o trabalho é conceitual – propõe uma viagem à aurora da Internet, em algum ponto dos anos 1990/00, em que conexões de banda larga, drives de CD-ROM, disquetes, celulares Nokia e tocadores de mp3 respondiam pela vanguarda tecnológica. Somado a esse panorama de “tecnologia vintage”, lembranças da infância sob a forma de revisita de comerciais antigos e todo tipo de tranqueira sonora que faça alusão ao tema se constituem em elementos à disposição da banda. O resultado é multidimensional.

 

Em meio ao adorável caos que surge no álbum, The Avalanches se mostram capazes de criar belíssimas composições. Esse é o grande diferencial de “No Bad Memories” em relação aos dois discos anteriores. A belezura de algumas faixas realmente chama a atenção, ainda que muitas delas tenham duração muito curta, às vezes mal atingindo os dois minutos, mostrando que, de fato, o excesso de boas ideias pode ter comprometido o espaço devido para essas canções. Por outro lado, o aparecimento delas em tamanhos mais reduzidos acaba constituindo um painel em que elas servem como meios de trazer a ideia central do álbum para o nosso momento atual. Até porque, “No Bad Memories”, mesmo sendo um álbum que tente homenagear um período ocorrido há vinte, trinta anos atrás, não soa como nada feito nesse tempo. É curioso pensar que uma das melhores impressões sonoras dessa época foi marcada pelo próprio grupo, justamente com o caleidoscópio sonoro que foi “Since I Left You”. Isso dá um toque a mais de significado aqui, apesar de não haver qualquer menção ao álbum nas 31 faixas presentes. E “No Bad Habit” também tem outra característica interessante – e rara: é um trabalho com um eixo de tempo específico e não soa nostálgico. Sua arquitetura é totalmente contemporânea e a maneira como ele traz ruídos e sonoridades é totalmente moderna. Seria fácil soar nostálgico, mas não é o caso.

 

O forte do álbum, de fato, é a profusão de boas canções. “I Giver Everything I Have 2U”, com colaboração do Loaded Honey, projeto paralelo – e genial – da galera do Jungle, é o primeiro momento de brilho que surge. A canção é tão boa e pegajosa que volta numa versão mais robusta com o título de “Final Credits”, já no fim do disco. O groove é puro soul pop dos anos 1970, numa lindeza perfeita e adorável. Outro ótimo momento é “Every Single Weekend”, com participação do produtor inglês Jamie XX. Essa lembra o modelo de pop song que o próprio Avalanches formatou em “Wild Flower”, seu álbum de 2016, fofa e leve. “Blue Shadows”, com participação sensacional de Karen O, dos Yeah Yeah Yeahs, é uma beleza de baixos que se dobram, bateria pouco comum e ritmo mântrico, que é entrecortada por ruídos e sons estranhos, que não comprometem em nada sua lindeza. “All The Time In The World” é outra canção bacana, com um arranjo que mais parece com o de uma faixa de filme da Pixar, com participação de Rivers Cuomo e sample de “Pra Que Chorar”, cantada por seu autor, Vinícius de Moraes.

 

As canções bacanas que merecem destaque mostram uma vantagem do álbum. A diversidade. “Vida”, com o rapper novaiorquino Erick The Architect, vai num tom que sampleia riff de metais de “Vida Agitada”, gravação do cantor e compositor brasileiro Paulo Jerônimo, de 1983. O resultado é sensacional. Já em “Far Away”, com John Glacier, o tom é de um drum’n’bass vintage e dourado, com pianos e efeitos sonoros que vão e vêm em várias direções. Em “Highfield”, com Panda Bear, o clima pega de sua banda original, Animal Collective, e insere dentro da lógica dos Avalanches, com ruídos, batidas e um tom que suscita algo infantil, ingênuo, nunca bobo. “One More Fantasy” tem parcipação de ninguém menos que Carly Simon, mas o arranjo engana que espera por uma faixa com ambiência próxima do que a cantora sempre gravou. O tom é moderno, funky, surpreendente e bacana. “Magic Wand”, com o produtor e DJ escocês Barry Can’t Swim, essa sim, lembra uma faixa que poderia ter sido gravada e lançada em 1982, por gente como Stacy Lattisaw, com uma vibração funk pop adorável. A colaboração se repete mais adiante, com “Our Love Is Alive”, dessa vez com participação de Suzanne Ciani, cuja obra se insere mais no campo da ambient music. O resultado nada tem a ver com esse estilo, pelo contrário, amplia essa sensação de recordação da infância sem pieguismo.

 

“No Bad Habit” é audição pra lá de recomendada. Tem um sem-número de referências, que irão fazer os nerds caça-samples felizes por muito tempo. É divertido, adorável e cheio de ótimos momentos. Uma recomendação: é muita informação, logo, é melhor ouvir com atenção e calma, degustando como se fosse uma rara iguaria.

 

Ouça primeiro: “End Credits”, “Highfield”, “Vida”, “Blue Shadows”, “Every Single Week”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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