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Dupla britânica homenageia Alan Turing em álbum conceitual

 

 

 

 

Pet Shop Boys – A Man From The Future
95′, 16 faixas
(Parlophone)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Tenho saudade de discos conceituais. São aquelas obras em que um tema central norteia todas as canções e conduz o próprio artista de uma forma distinta, especial. Gente como Beatles, Rolling Stones, inúmeras bandas progressivas, até artistas contemporâneos, como Lady Gaga e Lana Del Rey usam esse benefício que o formato “disco” oferece. Este é o caso de “A Man From The Future”, feito pelos Pet Shop Boys em parceria com o diretor e produtor alemão Sven Helbig, que se notabilizou por fazer espetáculos e obras que misturam elementos clássicos e eletrônicos. Além deles, o biógrafo de Turing, Andrew Hodges também está no projeto, junto com a Manchester Camerata Octet, responsável pelos timbres elegantíssimos de cordas que estão presentes ao longo do álbum. O disco é inspirado no espetáculo que esteve presente no BBC Proms de 2014, um evento com duração de uma semana, na qual a rádio estatal britânica promove concertos e eventos para a chegada do verão. É algo, digamos, festivo demais para algo sério e muito triste. A ressurreição do projeto agora, sob a forma de álbum, faz jus ao tema e o recoloca no centro do debate, num tempo inacreditavelmente terrível e preconceituoso. E, além de tudo isso, o resultado é belíssimo.

Alan Mathison Turing foi responsável pela criação da Enigma, uma máquina que foi capaz de decifrar códigos usados pelos nazistas durante a Segunda Guerra, possibilitando aos aliados detectar e atacar comboios inimigos e antecipar as ações alemãs. Mesmo assim, o matemático foi alvo de preconceito e terminou condenado por ser homossexual em 1952. De acordo com as leis britânicas, ele foi castrado quimicamente e suicidou-se dois anos depois. O Reino Unido manteve esse procedimento até 1968. A história de Turing está em toda parte, tornou-se bem popular com o filme “O Jogo da Imitação”, estrelado por Benedict Cumberbatch e Keira Knightley, que foi indicado a sete Oscars, ficando com o de Melhor Roteiro Adaptado. O que “A Man From The Future” faz é novamente trazer a história de Turing para o centro do debate, algo que, como dissemos acima, é mais que necessário. Além da notável injustiça presente nas leis de um país que muitos pensam ser totalmente alinhado com posturas democráticas e progressistas, a questão presente na história do matemático britânico vai além desse fato. Ela discute a moralidade presente no juízo de terceiros, da própria sociedade como algo que teria – teve – mais força em comparação com feitos incrivelmente importantes realizados. A mensagem final é: nada mais importa do que sua orientação sexual.

 

Os Pet Shop Boys sempre estiveram presentes nesse debate. Assumidamente gays e militantes da causa desde o seu surgimento, em 1986 eles já estavam emplacando “It’s A Sin” nas paradas de sucesso da Inglaterra de margaret thatcher, em tempos de AIDS, menos de vinte anos após a revogação do procedimento de castração química para homossexuais do sexo masculino. E avançaram ao longo de sua carreira, colocando sua fama e engajamento sob os holofotes em vários momentos. Emplacaram “Go West”, outra canção militante da causa LGBTQIA+, em 1994, a ponto dela se tornar canção popular em estádios de futebol. Sendo assim, não espanta o abraço de Neil Tennant e Chris Lowe ao projeto e seu empenho em fazê-lo chegar ao público em 2026. A estrutura de “A Man From The Future” e o jeito como ele chega às lojas é bem interessante. São oito faixas, gravadas com vocais de Tennant e narração da atriz Juliet Stevenson, colocados sobre a parte musical, provida pela interação entre os synths de Lowe e a parte de instrumentos de cordas. Há a versão somente instrumental, sem a narração, o que dá ao ouvinte a chance de enfatizar a parte musical do projeto, mas a interpretação de Juliet é notável como contadora da história de Turing, tornando as duas experiências bem legais.

 

Quem conhece os Pet Shop Boys sabe que eles são fluentes tanto em hinos dançantes e percussivos como de momentos de evocação de climas contemplativos e tristonhos. Ao longo do tempo, faixas como “Beign Boring” provaram o quanto eles conseguiram dosar bem esses dois caminhos. Aqui, em “A Man From The Future”, o tom assume caminhos inesperados e dramáticos. A história de Turing vai transcorrendo com a música cumprindo a função de fornecer climas e tons, como numa ópera. Em momentos como “The Trial”, é possível ver essas colorações intensas surgindo, enquanto a narração vai dizendo sobre o risco que a sociedade britânica via na homossexualidade. Em outros, como “Only In His Death”, a beleza dos tons de piano e cordas contrasta com a tristeza absoluta dos fatos sobre a morte de Turing e o legado. E na faixa-título, que vem em seguida e encerra o disco, a dupla reina soberana num épico de sete minutos, com idas e vindas de sintetizadores, timbres que se movem pelas sombras num balé que soa naquela fronteira entre tristeza e beleza. É a melhor gravação que a dupla faz em muito tempo. Por fim, a narração de Juliet dá conta do perdão pedido pelo Primeiro Ministro Britânico, Gordon Brown, do Partido Trabalhista, em 2009, em meio às festividades de lembrança dos setenta anos de início da Segunda Guerra Mundial.

 

“A Man From The Future” é desses trabalhos marcantes, belos e que se justificam plenamente dentro e fora do contexto em que surgem. É um poderoso instrumento de memória e lembrança contra a injustiça travestida de justiça. Algo tão comum na sociedade imperfeita que vivemos. Bravo.

 

Ouça primeiro: o disco todo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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