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O melhor disco solo de Johnny Marr

 

 

 

 

Johnny Marr – The Age Of Everything
44′, 10 faixas
(BMG)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Adoro a carreira solo de Johnny Marr. Além de ser um dos maiores – talvez o maior – guitarrista surgido no alternativo inglês dos anos 1980 para cá, Marr é gente boa, ótimo compositor e consegue carregar em suas canções o melhor que os Smiths tinham, a meu ver: a fluência guitarrística dos arranjos e as soluções melódicas para amarrar as músicas sempre da melhor maneira. No lugar das lamúrias do Morrissey, que envelheceram muito mal e ainda ganham novos significados – péssimos – a partir das opiniões que ele expressa sobre mundo, sociedade e valores, ouvir e prestigiar Marr é mais que um dever para o fã do grupo de Manchester. E nem é o meu caso – gosto de algumas faixas, acho que alguns discos são bem legais, mas não penso que os Smiths eclipsaram, por exemplo, The Cure ou Echo & The Bunnymen. Tampouco estão entre o melhor que o rock alternativo britânico produziu naquela época, posto que coloco em Prefab Sprout, Style Council e Lloyd Cole And The Commotions. Esse, no entanto, não é o assunto do texto, visto que Marr, ainda que exiba orgulhosamente os timbres e detalhes dos tempos idos, sempre olha para frente. Consegue criar faixas com letras bacanas, conscientes e sintonizadas com os tempos atuais. Ou seja, por mais que a armadilha da nostalgia surja tentadora aqui e ali, este “The Age Of Everything” é totalmente voltado para o presente e, a partir dele, para o futuro que está logo ali.

 

“The Age Of Everything” chega com o próprio Marr declarando que este é o primeiro disco que gravou sozinho e se sentiu confortável. Em que pese o legado enorme que os Smiths deixaram, Johnny está sendo modesto. Ele colaborou com todo mundo, montou o sensacional Electronic com Bernard Sumner [do New Order] e lançou dois ótimos trabalhos; participou de gravações com Talking Heads, Pretenders, Modest Mouse, entre vários outros nomes do alternativo ao longo do tempo. Mas um olhar um pouco mais atento mostra algo interessante: Marr nunca teve qualquer dúvida sobre sua capacidade como músico, mas sim sobre ser alguém com boas histórias para contar. E sabê-las contar de um jeito cativante. Aí voltam os Smiths, que, para muita gente, eram o veículo para Morrissey desfilar seus contos pessoais de não-aceitação e isolamento numa década em que a Inglaterra flertou gravemente com o atraso social. Marr, basicamente um ourives sonoro, deu-lhe a melhor moldura possível mas, no vácuo da banda e da prolífica carreira solo de Morrissey, ficava a pergunta: o que ele, Johnny, teria a dizer de tão importante? Ou ainda – seria ele capaz de dar conta deste recado?

 

Essas perguntas foram feitas e respondidas positivamente quando ele lançou seu primeiro trabalho, o ótimo “The Messenger”, há treze anos. De lá pra cá, Marr só fez evoluir e consolidar sua posição como artista solo. E é isso que se ouve logo na abertura de “The Age Of Everything”. “Spin”, a faixa inicial, já chega com riffs que parecem elevar a canção a outro patamar. Onde a imprensa gringa viu acenos ao timbre de “Panic”, eu vejo uma progressão que lembra … “While My Guitar Gently Weeps”, daquele rapaz, George Harrison, e algo que poderia ser de Tom Petty. Dá pra ver nitidament o aprimoramento de Marr na arte da ourivesaria pop. “Beyond The Rain”, a canção que vem em seguida, é uma lindeza de progressões e nuances, que joga a serviço do bom e fluente pós-punk oitentista. Tem ecos do dedilhado de guitarra e uma linha de baixo gorducha que fazem bonito. Em “It’s Time” tem um aceno explícito e gritante aos Smiths, a levada de guitarra é totalmente semelhante à de “Some Girls Are Bigger Than Others”, uma das minhas pessoais favoritas do grupo. O estilo de Marr cantar lembra o de Morrissey até a chegada do refrão, que é moderniho e com “ô ô ô ô”, sem chegar a irritar. E tem “Ophelia”, com nome de personagem de Shakespeare e um certo remelexo funky – no sentido Duran Duran de 1983 – que é inédito no cânone de Marr.

 

“That Feeling” mostra o quanto Marr admira Roger McGuinn, dos Byrds, mas o tanto que ele é capaz de se apropriar dessa estética e dos timbres, colocando-os em outro contexto totalmente distinto. Aqui é tudo meio Bowie, meio Echo & The Bunnymen, com mais baixo gorducho e acenos ao rock dourado britânico dos anos 1980 e até uma citação dos vocais de apoio de “Invisible Sun”, do Police versão 1981. “Fire With Fire” é outro destaque, com dedilhados de guitarra e violão se entrelaçando, expediente em que Marr é gênio e pai da criança. A melodia é linda, a progressão é belíssima e o tom da letra é serissimo: “There’s no mercy // Blazing up insurgency // I fight fire with fire // No lie”. “How Come” também acena para os anos 1980 sem parecer – tem o jeitão de uma gravação que o Echo & The Bunnymen poderia fazer hoje ou no início dos anos 2000, mas com o inegável DNA do pós-punk britânico. A melodia é bela, o arranjo é simples e desburocratizado, joga a favor da canção.

 

No fim das contas, “The Age Of Everything” é o disco que prova que Johnny Marr não precisa mais acertar contas com o passado. Não é um álbum que vai mudar a vida de ninguém, e nem tenta ser. É apenas – e isso já é muita coisa – o trabalho solo mais consistente, coeso e confiante que ele já fez. Para quem torceu por ele depois que os Smiths acabaram, para quem o acompanhou no Electronic, como sideman de luxo ou nos discos anteriores, é mais que suficiente. É a confirmação de que a melhor guitarra dos anos 1980 finalmente encontrou a voz – e as histórias – à sua altura no presente.

 

Ouça primeiro: “Spin”, “Beyond The Rain”, “It’s Time”, “Ophelia”, “That Feeling”, “Fire With Fire”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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