Vida Interior em 2020

 

 

Aqui na Bélgica foi anunciado esta semana que a quarentena irá se estender até o dia 19 de abril. Mais 20 dias pela frente. As multas para quem sai de casa são duras e as pessoas que não estão acostumadas a passarem um tempo consigo mesmas estão tensas. Isso me faz lembrar de algo que li há alguns dias: “Para transformar o mundo, coloque os homens na companhia de si mesmos”.

 

Acho que a frase é de Platão, não tenho certeza. Ironia Platônica ou não, cá estamos na companhia de nós mesmos. E o que aprender com este ano transformador de 2020 que mal começou?

 

Nas notícias, o governo brasileiro não para de nos envergonhar e a nos colocar em risco com declarações irresponsáveis sobre a quarentena e o Covid-19. Diz que o Brasil não pode parar, priorizando a economia e desdenhando com a saúde da população. E estas atitudes que beiram a sociopatia, ainda encontram milhares de apoiadores.

 

É muito difícil uma sociedade formada por superficialidades, por narcisismo, se tornar ética. Isso geralmente só acontece por medo ou visando recompensas – eu sou solidário para para ganhar tal coisa. Mas nenhum destes caminhos se sustentam por muito tempo.

 

Na frase de “Platão”, “Na companhia de si mesmos” se refere à vida interior, a olhar para si. Esta é a única forma de sair da ignorância e ir em direção à sabedoria. Só que para isso, é preciso amar a sabedoria, o que não se vê com muita facilidade. Um brilho interior, um desejo forte, às vezes inquietante, de contemplar e questionar a vida – e a nós mesmos.

 

Nós podemos ver claramente a carência de vida interior quando encontramos pessoas que não escutam as outras. Pessoas que fogem de si mesmas, que vivem na superfície, viradas para o exterior.  A maioria delas morre de medo de viver.

 

Temos que marcar um encontro com a nossa alma todos os dias. Entrar em contato com o nosso sentido de vida – no nosso momento atual de vida –, para onde devemos caminhar. Eu estou indo na direção certa? E se, em algum momento do dia nós tivermos ido na direção contrária, é porque “saímos” de nós mesmos.

 

“Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar, pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem”, disse Zygmunt Bauman em Em Busca da Política. Somente a prática de contemplação individual de cria uma sociedade fraterna. Penso que esta deve ser a principal lição de 2020.

 

 

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Suellen Pareico

Profissional de MTC, estudante de Filosofia. Gosta de música e é curiosa pelo mundo espiritual, nem sempre oculto. Porque mistério sempre há de pintar por aí

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