Terceiro disco do Oasis, “Be Here Now” faz 22 anos

 

Para lembrar deste aniversário, resgato um texto que escrevi há quase sete anos. Ele não fala apenas do álbum, mas de um momento importante na música da virada do milênio.

Hoje em dia talvez não concorde com tudo que está escrito ali, mas é divertido lê-lo mesmo assim.

 

Demanda Reprimida por Oasis
por Carlos Eduardo Lima

Texto publicado em 10 de setembro de 2012, no site Scream & Yell.

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Há momentos em que a música morre. Acho que todos conhecem algum pedaço da enorme letra de “American Pie”, de Don McLean, na qual ele encaminha a canção para o refrão ao mencionar certo “dia em que a música morreu”. Ele se referia ao fatídico 3 de fevereiro de 1959, quando um acidente aéreo no Estado norte-americano de Iowa vitimou Richie Valens, Big Bopper e Buddy Holly, além do piloto Roger Peterson. Se resolvermos nos aventurar pela história do rock, veremos seu nascimento lá pela metade da década de 1950, através da fusão de r&b, blues e country, tudo reempacotado pela necessidade de pensar em algo para distrair uma juventude que surgia com potencial comercial na primeira década do pós-guerra. Eram os primeiros felizardos que experimentavam a tranquilidade de não ir pra guerra, de não ver sua casa destruída por um bombardeio qualquer.

Os primeiros astros do rock foram traídos por uma implacável censura imposta pela América racista e seletiva, na qual era necessário astros brancos ou embranquecidos socialmente, para fazer sucesso. Valens e Holly eram tripulantes desse navio em que viajavam Elvis, Bill Halley, Little Richard, Chuck Berry, entre outros. Ao contrário do que parece, o próprio rock era algo absolutamente underground, tendo em Elvis o seu primeiro momento de glória comercial, aquele sujeito branco que cantava e dançava como negro. Que podia ser religioso e profano ao mesmo tempo. Em meio a isso, o acidente aéreo mata o promissor Buddy Holly, favorito de um jovem Paul McCartney, que o imitava na sua Liverpool cinquentista. O rock retrocedeu, só foi estourar devidamente a partir dos Beatles. E, o tal “dia em que a música morreu” passou a ser um indicativo – forçado ou não – de troca de pele, de mudança, de renovação.

O dia 21 de agosto de 1997 é outro exemplo desses momentos de transformação. Claro que a mudança não ocorre naquele dia exato, há suas consequências naturais que se fazem notar mais tarde ou mais cedo. Mas, ao olharmos para trás em busca de explicações, quase sempre seremos capazes de notar o dia que marca aquele processo. Neste dia em especial, houve o lançamento do terceiro disco do Oasis, “Be Here Now”, devidamente massacrado pelo senso comum da época, que dizia que o rock não podia mais ser como as canções do disco insinuavam. Não podia ser grandiloquente, não podia ser megalomaníaco, não podia ser junkie, muito menos um produto de uma tensão permanente entre irmãos compositores, cantores e donos de uma banda que podia responder como a maior do planeta. Não, “Be Here Now” estava fora de tempo e de espaço.

De fato, houve críticas negativas, fofocas sobre quantidades enormes de cocaína nos estúdios, toda sorte de desavença entre os irmãos Liam e Noel Gallagher, todo um bafafá bem típico da pior imprensa do planeta, a britânica. O fato inegável é que “Be Here Now” era um puta disco de rock. Os Gallagher, sobretudo Noel, queriam fazer história com ele. Já vinham fazendo, desde o lançamento de sua estreia, “Definitely Maybe”, três anos antes, a bordo do estouro da boiada britpop. É bom lembrar que o Oasis não era uma das bandas capitãs do movimento, talvez esse posto coubesse melhor ao Blur. Inegável observar que o britpop só foi mais plural e forte após a chegada dos Gallagher, que eram mais versados na linguagem do rock internacional, por assim dizer.

Esqueçam a briguinha entre Oasis e Blur, obra da imprensa britânica, tentando reeditar rusgas (que nunca tiveram lugar, diga-se de passagem) entre Beatles e Stones. De um lado ficavam os meninos certinhos, cultos e de classe média do Blur, antagonizando com os broncos, beberrões e toscos operários de Manchester. Apesar de gostar de ambas e ter certeza que o terceiro disco do Blur, “Parklife”, é um dos melhores de todos os tempos, eu preferia Oasis na época. O som deles era o único que parecia não ligar para os downsizings impostos pelo punk e pelo rock alternativo das décadas anteriores, mas, de alguma forma, carregava em seu genoma esses elementos. O Oasis não era uma banda qualquer, não foi planejado para ser uma banda qualquer, foi erguida após alguém dizer que queria governar o mundo. “Be Here Now” é esse desejo revelado.

Senão vejamos. Outro dia estava eu no Facebook e decidi postar o clipe de “Stand By Me”, quarta faixa de “Be Here Now”. A quantidade imediata de manifestações positivas, seja em “curtir”, seja em comentários, me surpreendeu. Longe de ser uma unanimidade, o terceiro disco do Oasis mostrava ali uma plateia fiel, de gente que era fã ou não da banda e que apontava pelos motivos certos ou plausíveis, seus motivos para o entendimento e aceitação das intenções de Noel e Liam ao parir um disco tão descaradamente grandioso. Vieram comentários sobre o primeiro single, “D’You Know What I Mean”, cujo clipe é uma superprodução apocalíptica, rivalizando em imagens com o rocambole musical que os irmãos engendraram, cheio de efeitos, samplers, vozes em off, gravações ao contrário. Ainda é a minha predileta do disco, seguida de perto por “All Around The World” e da própria “Stand By Me”, com “Don’t Go Away” correndo por fora.

Foi o último disco de rock dos anos 90. Talvez tenha sido o último disco de rock a ser feito no mundo, na minha humilde opinião. Lançado em 21 de agosto de 1997, o disco marca um desses dias em que a música morre. Pouco tempo antes, mais precisamente em 1º de julho do mesmo ano, o Radiohead lançava a semente que acabaria com o já decadente britpop, seu terceiro disco, “OK Computer”. Outros dois álbuns lançados nesse ano ainda mostram o poder de fogo das bandas da época: o quinto do Blur, com o sucesso de “Song 2”, e a viagem espacial do Spiritualized, em “Ladies And Gentlemen, We Are Floating In Space”. Ambos seguiam a proposta de sair do marasmo e adentrar novos territórios.

O Blur flertava com o rock alternativo norte-americano através do interesse do guitarrista Graham Coxon, enquanto Jason Pierce, do Spiritualized, erguia uma ópera cósmica, na qual drogas lícitas ou não, podiam conviver com os fantasmas das diferentes fases de Elvis com tijolos arrematados dos walls of sound de Phil Spector. Das quatro possibilidades, apenas uma permaneceu. O Radiohead trouxe a certeza do fim do mundo, ou melhor, da esterilização do mundo, através de seu disco. Tudo se transformou num terreno árido e frio, como uma espécie de pós-mundo. Modificou a música feita na Inglaterra e abriu espaço para algo ainda mais distante e plástico, que se materializaria nos dois discos seguintes, “Kid A” e “Amnesiac”. A chegada de “Is This It”, o primeiro disco dos Strokes, em 2001, acabou de ferir de morte aquele rock que está em “Be Here Now”. Sai a música maior que a vida e entram pequenas polaroides de uma Nova York do século XXI – com os cornos de 1979/80 – para consumo de uma juventude com processador pentium em lugar do cérebro. Deu no que deu.

É fato que o Oasis deve voltar em alguns anos. Mesmo que a carreira solo de Noel Gallagher seja consistente e interessante e que o Beady Eye de Liam não seja lá o horror que todos pensam. O lugar dos irmãos é numa porrada de estúdio, decidindo quem faz o que melhor que o outro. Desta tensão e desejo de ganhar o mundo vieram algumas das melhores e últimas canções de rock feitas neste mundo. Você pode argumentar que o próprio Oasis lançaria discos legais depois e eu vou concordar, dizendo que todos os álbuns da banda têm, pelo menos, três canções perfeitas em seus respectivos tracklists. Também vou refutar qualquer opinião que diga que o Oasis copiava os Beatles ou que reclame da voz anasalada de Liam ou que tenha o topete de dizer que suas músicas eram todas parecidas. Oasis é banda de amigos, de confort music, de rock de macho. Dá pena de ver hordas de jovens, com processadores pentium cada vez mais rápidos na cabeça, indo atrás de bandas mais e mais coxinhas, num mundo em que o Coldplay e o Maroon 5 são exemplos de gente “que chegou lá” e o Foo Fighters é a epítome do rock energético de guitarras. O Oasis, mesmo com todo o marketing, era uma porrada na porta desse olimpo de falso rock politicamente correto e feito em laboratório para agradar gente com cada vez menos noção das coisas.

Dessa forma, aponto o dia 21 de agosto de 1997 como sendo, oficialmente, um dia em que a música morreu. E, infelizmente, o que nasceu lá em 25 de setembro de 2001 me é muito, muito estranho e indigesto.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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